Embragados

O diretor artístico do 44º Festival de Cinema de Gramado, Edson Erdmann, acertou ao estender um tapete vermelho pela rua coberta que atravessa uma quadra até a porta do Palácio dos Festivais. A travessia aproxima o público da festa. É decorada com Kikitos e monitores LED que exibem cenas dos filmes concorrentes e momentos das carreiras dos homenageados. As cores vermelho e dourado conferem a ambience glamourosa que combina com um festival de cinema.

Mas nada funcionaria sem outro elemento fundamental: o carisma dos artistas.

Tony Ramos passou pelo tapete vermelho no sábado. Veio com a esposa Lidiane receber seu Troféu Cidade de Gramado.

Olhos marejados, o cara que deu vida a 128 personagens até agora só conseguia repetir uma palavra: obrigado.

Antes dele quem desfilou deslumbrante pelo tapete foi Sônia Braga.

O furacão Sônia passou por Gramado entre sexta e sábado. Generosa com gestos e palavras, chegou conduzindo seus colegas de equipe e elenco.

Fez performance no tapete vermelho jogando o casaqueto preto na direção dos fotógrafos e cinegrafistas. Contou que ela mesma desenhou o vestido que usava. Falava com os repórteres sempre que podia. Abriu as portas da sala onde dava entrevista para pedir que o burburinho do lado de fora diminuísse de volume.

“Se uma pessoa se comportar muito bem na vida e for pra um lugar bem bonito, não sei se acredito nisso, eu acho que é assim depois que morre… Você vai indo e sua vida passando por você”, ela descreveu a homenagem durante a entrevista coletiva.

Parecia se sentir em casa. Afinal, Sônia Braga e Gramado são velhos conhecidos. Ela tem dois Kikitos: foi melhor atriz por Eu Te Amo (1981) e melhor atriz coadjuvante por Memórias Póstumas (2001). Este ano veio receber o Troféu Oscarito, dedicado a grandes atores nacionais. A homenagem foi entregue pelo cineasta Bruno Barreto, que a dirigiu em Dona Flor e seus Dois Maridos e Gabriela.

A presença de Sônia no novíssimo Museu de Cinema em Gramado

Hoje Sônia é a estrela de Kleber Mendonça Filho, diretor e roteirista de Aquarius. O longa abriu o festival fora da mostra competitiva.

No palco do Palácio dos Festivais Mendonça Filho se derreteu para a atriz: “Eu te amo”. Uma admiração recíproca: “Eu disse que quando tudo terminasse ele me encontraria na soleira da porta de casa como um gatinho enrolada em jornal”, contou Sônia aos jornalistas.

“Eu tinha a ideia maluca de achar Clara no supermercado, alguém que nunca tivesse atuado antes, mas assim que comecei a pensar em trabalhar com atriz profissional, Sônia foi o primeiro nome que apareceu”, disse o diretor.

“Quando me mandaram o roteiro eu li até metade sem respirar. Percebi que não só tinha lido o melhor roteiro de toda a minha vida como estava lendo todas as palavras que precisava ter dito em toda minha vida”, elogia a atriz.

Em Aquarius Sônia é Clara, uma jornalista que briga para manter de pé o prédio na orla de Recife onde vive com seus livros e discos, que é cobiçado por empreendedores do ramo imobiliário.

Elenco e equipe de Aquarius em Gramado

Aquarius tem sido reverenciado no circuito internacional. No festival de Cinema de Cannes, na França, foi aplaudido por seis minutos! Esta semana chega aos cinemas brasileiros.

“Quando a gente foi para Cannes a gente estava lá representando o Brasil. Quantos filmes existem no mundo? E nós fomos escolhidos! Quando chegamos dessa história deveriam nos receber no aeroporto como fazem com jogador de futebol! Por que não reconhecem artistas como pessoas que representam o Brasil? Passei minha vida toda representando o Brasil, fui à Casa Branca representando o Brasil como atriz. Esses anos todos que dizem que eu estou fora do país, mas eu estou representando o Brasil!”

Na entrevista coletiva seus colegas de elenco confessaram um fascínio e até um certo receio de pisar no mesmo set que a atriz.

(Entendo a situação e me solidarizo… Já sofri de ansiedade aguda diante da idéia de entrevistar Sir Anthony Hopkins em Los Angeles.)

Será que Sônia já se sentiu assim?

“Talvez sim. Pela grandiosidade e força de Dina Sfat, no set de Fogo sobre Terra para a televisão. Ela era muito poderosa eu era muito tímida, mas foi uma relação bacana. Mas é engraçado… me visto como uma pessoa da equipe, carrego até os tapes que eles carregam! Eu gosto de mochila e pochete… Vou para o set, a uma loja ou um restaurante, ando na rua naturalmente.”

Assim é Sônia:

musa e moleca

glamourosa Gabriela

estrela pé no chão que deixou todos embriagados embragados em sua passagem por Gramado.