O Goleiro é o último dos primeiros

Barbosa, goleiro da Seleção Brasileira da Copa de 1950, no Maracanã: Brasil 1 x 2 Uruguai

O goleiro é o número 1, mas não é o primeiro. É o último.

É filho único, sem irmãos, um órfão na área mirando o universo de 21 jogadores no campo, o céu e o público. Aquele ruído do jogo de futebol navega de um lado para o outro. O olhar fixo na bola aumenta quando ela se
aproxima. O coração dispara como o chute e ele precisa acabar a jogada
e começar tudo de novo nos pés dos companheiros que o abandonam no
horizonte.

O ideal é que segure firme. Pois, caso tenha abafado, ela volta. Ou
então, se manda para fora, tem escanteio. Pior é quando entra. Ainda
bem que os olhares se voltam para o autor do gol, enquanto o goleiro
pega a bola igual a uma batata quente, constrangido. Se houve falha,
nem é ele quem busca, atirado no chão como no leito de uma UTI. É o
zagueiro quem carrega até o círculo central.

Taffarel, campeão do Mundo em 1994, nos pênaltis

O pênalti, quando não é cometido pelo goleiro, transforma o atacante
em goleiro do ponto de vista da obrigação de marcar o gol, assim como cabe ao goleiro impedir o gol o jogo todo. É que na hora da cobrança, o goleiro deixa de ser a vítima. Vira vilão. E pode ser herói, caso decida o jogo, impedindo o gol quase certo. Ou ainda sendo decisivo numa série de pênaltis que vale classificação ou até mesmo um título.

O goleiro é número 1, mas não é o primeiro. É o último. Tudo acaba
nele, bem ou mal. Não existe uma tabela de pênaltis defendidos, mas
sim de artilheiros. Goleiro não é craque, é eficiente. Por mais que
uma defesa valiosa possa consagrá-lo, logo vem o jogo seguinte para
testá-lo novamente. O goleiro sabe defender, mas não se defender. Até porque, num piscar de olhos, ele poderá estar nas redes ou nos braços da torcida.