Afirmação do apetite —desvelando bocetas encharcadas e paus enrijecidos

(Photo by Clayton Cubitt)

Compreender e aceitar a parte de nós que sempre esteve presente. Seres animalescos e selvagens, cheios de paixão e sangue, de instintos insuperáveis e vontades irresistíveis, muitas vezes tão primitivos e arraigados à natureza tal qual uma flor na terra.

“O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela”, disse Oscar Wilde. Que então no sexo e no amor nos derramemos em excitação e caiamos sim em tentações, orgias múltiplas, tremedeira de corpo e sussurros de bicho, para romper de vez com toda a castidade adoecida que há milênios nossa civilização teima em seguir. Já que os tempos são oportunos, já que nada mais de juízo moral existe, já que mais nenhum se sustenta em tamanha força de desabamento, então que nos ergamos com paus enrijecidos e bocetas encharcadas.

Mas aqui vai mais minha motivação às mulheres. Mulheres, essas belas e pobres aves, o lado mais erótico da espécie, que durante boa parte da história foram revoltosamente ceifadas do livre desejo e da libido assumida. Pense o quanto custou a elas. Agora imagine que, por séculos, homens da cultura machista transaram com suas mulheres sem poder admitir o desejo mutuo e assumido. Milhões e milhões de homens burgueses (e não só eles, óbvio), hoje todos mortos, transando com suas infelizes mulheres, mascarando com a mais reles das hipocrisias o primordial desejo de foder, atribuindo a isso apenas a função de reproduzir, proibindo e negando acima de tudo qualquer espasmo de vontade e disposição feminina, tudo em nome do demônio da castidade.

Por todos esses fatores, suspeito que por um bom período da história nos vimos incapazes de nos amar sexualmente. Ou ao menos pegamos esse desejo, esse grade e belo desejo, e o jogamos num porão úmido e frio tentando suprimir o instinto por medo e incapacidade de saber lidar com ele. Nossa sorte é que ele nunca se apaga ou morre, está sempre reluzente, dentro de cada ser, e é sempre mais forte que nós; sempre à espreita, pronto para no momento mais oportuno ser colocado à prova, ser desvelado.

O ser humano é a única espécie erótica que existe.

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