Clichê inegável: estar apaixonado é associar-se imediatamente a pássaros

Imagem sem representação direta de pássaros, só para não tornar a publicação ainda mais clichê

A sensação de ser uma criança perdida da mãe no meio da multidão. Foi o que senti há mais de um ano, no término de um relacionamento. Agora, com o emocional regenerado, tudo cicatrizado, pontos retirados e curativos cessados, consigo lembrar daquele que foi meu primeiro e verdadeiro sentimento de perda. Escutei “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer” todos os dias de janeiro de 2015, e nessas horas mal conseguia respirar. Um sufocamento do peito à boca. Um desespero de proporcionar dor física. Consegui entender jovens suicidas de fins de namoro. Quem se mata pelo amor. Pela perda de um, melhor dizendo.

Mas não fui longe no drama, pois bendita seja essa minha mania de acolher até o mais pesar dos sofrimentos como verso triste e bonito. Melancolia é a dama que mais tem estilo. Não perdi nem ganhei peso, não fiz guerra de fome, não me acabei em drogas, nem nada do tipo. Mas durante uma semana meu rosto ganhou um aspecto tão inchado que, do momento que acordava até o momento que ia dormir, minha cara era a mesma. Respeitei cada dia.

Era saber que do outro lado estava ela, dilacerada, com a paixão assassinada, morta na dor. E eu no quarto, com a ferida à mostra, sofrendo bicadas de pássaro. Pássaro. Sim, os pássaros.

Pássaro canta amor. Canta em todo ombro de casal apaixonado. Tal ave está sempre associado à leveza da paixão. É o clichê romântico mais verdadeiro que o homem conseguiu inventar. Não adianta resistir ao que talvez possam achar piegas — não basta o reluzir dos olhos ou o escancarar de dentes da boca, estar apaixonado é associar-se imediatamente a pássaros. Qual é mesmo o ditado que faz essa associação? Poemas sei que são diversos. E estão mais que certos ditados e poemas e toda essa historinha clichê. Realmente, quando você começa a se perder no outro, é som de pássaros que te toma de assalto. A sina espiritual desses bichos.

Vem leve, colorido, de assobio rico, pousando patinha mansa no teu ombro, e assim fica até que dure. Mas se há a ruptura, a mesma linda ave que se pôs a cantar tão bonito, por tanto tempo, não só se cala, como passa a te bicar. Bica forte, para fazer ferida, para fazer sangrar. Se só te apresentaram pássaros leves de assobio, apresento a versão maldita. Quase nunca queira vê-la.

Quase primavera de 2016: estou em paz com os pássaros. É glorioso poder ouvi-los cantar.

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