O ódio ao sofrimento — um prognóstico sobre a saúde da civilização #SetembroAmarelo

  • Da depressão à saúde da civilização

Minha triste constatação: no futuro, as pessoas mais se atirarão da janela do próprio apartamento do que morrerão em guerras ou por doenças físicas.

Não me veja como fora do tom e nem se sinta ofendido com a maneira que abordo o assunto, por favor. Não posso agora servir de acalento para as dores, e espero que me entenda por isso. Minha tentativa aqui é traçar um prognóstico sobre o que eu sinto do mundo, da nossa época, do que estamos nos tornando. Uma reflexão sobre os sintomas e causas das nossas patologias mais profundas, pensadas num todo, pela sociedade e período em que vivemos.

Depressão é coisa seríssima, o mal crescente dos nossos tempos, e repudio achar que quem sofre da doença é por exagero, fingimento, melindre. Quem dera fosse só birra e coisa de gente que quer chamar atenção; sendo assim seria muito fácil tratar e metade dos casos de suicídio não seriam cometidos por pessoas que se encontram em depressão. É doença legítima e profunda. Mas convenhamos: se hoje pertencemos à sociedade mais depressiva da história — se assim podemos dizer — , é porque isso é resultado, sim, de uma sociedade fraca, imatura e infantilizada. Como se nós, de agora, tivéssemos o azar de herdar o arquétipo da falência do modelo do homem moderno. O inconsciente coletivo que nos presenteou com um modelo de vida arruinado, e que atualmente paga pelos erros que um dia cometeu. Uma variável e ampla escala de acontecimentos históricos que, em determinada perspectiva, nos tornou o que somos hoje: fracos, imaturos e infantis.

Porque a vida sempre foi a vida, sempre foi isso mesmo, quando não bem pior, mas por que só agora a depressão e o suicídio, quando decorrente desta doença, têm se tornando tão comum?

  • Do sonho antigo e das nossas frustrações

O sonho antigo: o homem será capaz de qualquer coisa, a ciência encontrará todas as respostas, conseguiremos acabar com o sofrimento, descobriremos todas as verdades. E — BUM! — aqui estamos, vivendo por mais tempo e com menos barbárie, é verdade, mas com cada problema para resolver que, olha, haja força. Aquecimento global, esgotamento das matérias primas, superpopulação, os bancos, a exaustão do capitalismo, terrorismo, crise das nações, fome (ainda!). E diversos outros problemas, dos quais sempre nos foram familiares e que ainda estão aí, vivos, como sempre. E, por fim, a grande novidade, que ainda nos era inédita, resultado, em boa parte, das próprias falhas humanas ao querermos almejar o modelo ideal de ser humano: a triste ausência de vontade em viver, o não querer viver mais — ou o horror em ter que viver. Não que antes esse trágico diagnóstico não existisse, pois é claro que sim. Mas como espécie de epidemia, como tem se tornado hoje, acho que fica claro que não. Por isso digo que minha análise aqui sobre depressão e suicídio é inteiramente sociológica. Sei dos fatores químicos e orgânicos da depressão, por exemplo, mas por esse viés eu sou quase incapaz de tratar o assunto. Quero falar num todo o porquê essa doença é, hoje, tão crescente.

Percebo uma só causa e ao mesmo tempo efeito de toda a crise: coisas relacionadas ao sofrimento humano. A repulsa do ser humano pelo sofrimento, melhor dizendo. O querer aniquilar não só o sofrimento, mas qualquer causa mínima de dor ou incomodo. Isso é uma das coisas que soa mais semelhante ao homem do século 21. Tempo de gente que quer matar a dor pelo consumo de comida, objetos, remédios; aniquilar qualquer sintoma de angustia pelo falso idealismo de felicidade. (Coisas que não dizem respeito exatamente a um homem haitiano, paupérrimo, que vive num dos países mais miseráveis do planeta, mas que ao mesmo tempo apresenta índices anuais de suicídio que às vezes chegam a zero. Falo das semelhanças de gente muitas vezes branca, ocidental, desenvolvida, que vive nas grandes cidades, tem um bom emprego, consome de tudo, e que por algum motivo não suporta mais viver.) Nós mesmos, que detestamos sofrer, que só queremos ser felizes, acima de tudo, de qualquer maneira, em tempo integral. E nessa ambição mesquinha, vemos que onde deveria estar a casa que planejamos construir a felicidade, está, na verdade, abrigado nada mais que um imenso vazio, ocupado pelo espírito da frustração. Pois bem, a vida real é um kit completo — não vem só com a parte boa.

  • Que o futuro não seja a falta de vida, amigos

O futuro, se as coisas assim continuarem, é a falta de vida, amigos. Toda a paixão em pertencer pleno na vida, possuindo-a com apetite e amor, suportando suas mais incrédulas dores e gozando de sua mais alta fortuna, será aniquilada pela anestesia do afeto. Incapazes de lidarmos com a gestão do nosso sofrimento, nossa aflição, nossa angústia, remediaremos cada vez mais o sofrimento, a aflição e a angustia. Mas remediar não é matar — matar seria impossível –, remediar é dopar, é diminuir ainda mais as forças. Depressão nervosa, transtorno de ansiedade, TOC, e outras variantes de transtornos mentais, oriundas das mais prolíficas causas, têm sido, em boa parte, resultado do preço que começamos a pagar pela ruína de um velho modelo ser humano e de mundo. Aquele velho mundo que teve a infeliz ideia de nos ensinar que sofrer é a pior coisa que nos pode acontecer. Não, sofrer, pelo que se sofre do que é a vida, em sua mais pura naturalidade, em suas perdas e tragédias, dificuldades e durezas, é a melhor coisa que nos pode acontecer. Deve ser a melhor coisa que nos pode acontecer, afinal são as únicas coisas, e deveríamos saber bem, sempre inevitáveis e alheais às nossas vontades. Do simples ditado: é a vida. E já que é assim, que assim seja afirmada, na dor e na alegria.

Mas olha a nossa ingenuidade: preferimos por aniquilar o sofrer, para a recompensa do alívio, é claro, mas também porque o achávamos desnecessário. Cortamos o mal pela raiz. E agora é isso, 121 milhões pessoas no mundo diagnosticadas com depressão, essa gente toda com medo do mundo, sentindo-se incapacitada em viver, com qualquer vestígio de potência suprimido, e eu acredito profundamente que o único caminho de volta é subverter a lógica: fazer florescer o que jurávamos ser mal, porque é o contrário, é bem. Sofrer não só faz parte, mas é bom e fundamental para nosso desenvolvimento como espécie. Quero uma sociedade que goste e suporte sofrer. Quero minhas crianças sem ritalina nas escolas. Quero vê-las levadas e hiperativas — problemáticas, que sejam. Quero meu drama aliviado com dias de solidão e um bom álbum de blues. Que eu seja melancólico naturalmente e veja isso como uma virtude. E que um dia, para todos, tudo isso seja possível sem remédios, sem nos derramarmos em vícios. Deixemos a natureza florescer, sem que antes a gente a interrompa com alguma merda química.

  • Há esperança

Pois não morreremos mais em guerras ou por moléstias. Mas muito mais por overdose, no banheiro da própria casa, com a boca espumando, entupida de remédios. Seremos fracos o suficiente para não conseguir matar o próximo — coisa que sempre nos foi muito fácil de fazer. Mas mataremos a nós mesmos, por não suportarmos mais o que cada um é. Quando achávamos que nada poderia ser pior que as guerras, a tirania e o genocídio, demos de cara com uma outra tragédia. Ou tenhamos força e coragem para lutar contra a derrocada do espírito, ou então nos enterraremos a si mesmos.

Mais uma vez, perdoe a agressividade e crueldade do texto. Perdoe a minha falta de tino pessoal com as dores das vítimas de depressão. Repito: não posso falar do tema no âmbito médico, psicológico, mas apenas social.

Setembro Amarelo é uma campanha importantíssima, a serviço da prevenção, informação e conscientização sobre suicídio. Vi neste texto uma oportunidade de tratar um pouco do tema, direcionando-o principalmente às mortes resultantes da depressão. Meu alerta soa trágico, eu sei. Mas essa é minha maneira de falar que ainda há esperança.

No mais, sem pretensão de surtir qualquer efeito, seja ele forçosamente reconfortante ou como sinal de desculpa, quero dizer sinceramente que a vida é grandiosa demais para nos deixarmos sucumbir por essa maldita doença que é a depressão; que a vida é muito mais bela e grandiosa do que nossa vontade de querer tirar a própria vida; que para querer viver não é necessária nenhuma justificativa; que a vida é luta; que viver é um ato extraordinário e raro. Sejamos fortes, resilientes, aprendizes. Vamos nos ajudar, e que o amor esteja sempre próximo aos olhos.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.