O Tratado da Flanância (ou o alvará da vadiagem)

O flâneur, vagabundo típico, à velha moda, aquele que é mais alegre quando é vadio. Altera drástica e subversivamente duas funções básicas no seu cotidiano: as noções de tempo e espaço — principalmente espaço.

Aquele que não vê a caminhada como simples meio de locomoção ou atividade física, mas que dá sentido estético à ‘divagança’. Quando o caminhar serve para ver a cidade com olhos em diferentes direções, olhos que não sejam de informação, mas de contemplação; quando caminhar torna-se experimentar sentidos através do movimento, o que se faz não é mais caminhar, mas flanar. Flanar é fazer o ato de caminhar não ter sentido algum e ao mesmo tempo ter todos. Não ter sentido por não ter objetivo. Ter todos os sentidos por ser a tentativa de enxergar e sentir o que já se está viciado em ver e sentir. Aos jovens desempregados, vagabundos, moradores de rua, eis uma linha de fuga: flanância.

Encontrar nas ruas passagens e estadias, meios e fins, a transitoriedade e a definição, tudo em uma só coisa e em uma só realidade. O próprio corpo, o ambiente e população como instrumentos. Você, a cidade e toda essa gente.

Para não só ver a infinidade de carros e de corpos que de tão desconhecidos são invisíveis. Infinidade de corpos e carros em profusão de movimentos distintos que de tão desconhecidos obedecem ao raciocínio mecânico e automático da visão. A rotina despercebida dos olhos. O preguiçoso e indiferente dos olhos. Porque na cidade o principal são os olhos. Já que em São Paulo o que ela nos oferece para o olfato é quase sempre podre e incessantemente ruidoso para os ouvidos. Por isso tateie e ouça e sinta o cheiro e o gosto e olhe, principalmente olhe a cidade. Contemple os prédios velhos e antigos, o nome das ruas, a massa de gente, ora a massa inteira, ora cidadão por cidadão; as calçadas, os bairros e os parques. Lá você encontrará mensagens minhas em lambes grudados nos postes, muros, etc. Mas isto é o mínimo, pois a cidade é a compressão do mundo inteiro para te oferecer. Visão poética de rua, de cidade e de mundo; também de mim, dos outros, de tudo.

O par de tênis gasto
pelas centenas de quilômetros
percorridas em anos
por cada canto que quis frequentar.

O par de tênis gasto
que beijou a boca da calçada suja,
de cada piso velho
que me pus a andar.

E vou te falar:
não conheceu nem 1%.

O par de tênis gasto
vai morrer sem sola
de tanta experiência
história e pisada.

Centenas de milhões de passos
e tanta experiência,
tanta história,
tantos passos,
ainda assim é bem pouco.

É quase nada.
Já que na cidade
tem tantos lugares.

Haja nome para tanta rua!

Perceba a ótica
do par de tênis gasto:
em sua vida inteira
quando usado
só viu pisada
quando carimbava o chão
e depois
com a sola levantada
via quem vinha atrás de mim.

Agora saiba:
há olhos nos meus olhos
e há olhos nos meus pés
nas solas dos meus pares
de tênis gastos. 

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