Ser a eterna prostituta das certezas da vida

Viver é estar em um profundo e constante estado de crise. Queira você ou não, faça você o que fizer, essa sempre será uma verdade absoluta.

Esquecer da morte e evitar pensar sobre a finitude e fragilidade das coisas dá uma falsa sensação de alívio, mas que na verdade é só uma alienação no modo de se enfrentar a vida. O homem, no seu mais alto grau de contentamento e fascínio, vai se livrar de toda a dor, mas em seguida vai se esquecer que tal impulso só se tem em raros instantes, e que tais instantes duram pouquíssimo tempo. Que depois perde-se novamente as afirmações e nessa hora a dúvida e a aflição voltam, e nessa hora a dúvida e a aflição é que devem ser afirmadas.

Já falei da necessidade de afirmar a morte com alegria para viver com grandeza. Mas quero explicar que não sou totalmente favorável à ideia de que quem tem noção da própria finitude e considera a possibilidade de sua efetuação, em boa parte do tempo, está consequentemente aproveitando mais a vida. Não diria que quem afirma a morte aproveita mais a vida; diria que quem afirma a morte sente mais desespero pela vida. Desespero em viver. É o que eu sinto. É o porquê eu acho que valha a pena estar neste mundo.

Fato que há uma lei universal que declara que quem reconhece a provisoriedade da vida, por mais vida vai ansiar. Uma lei curiosa, regulada por uma escala crescente. A exemplo do seu último grau, não há um bicho nesta vasta natureza que não lute até o fim e com todas as suas forças para escapar de seu predador que quer lhe abraçar pelo preço da morte. Quanto mais se tem noção de que o tempo está se esgotando, mais se quer escapar da morte. E o mais interessante: mais intensidade se quer. Por isso afirmar a morte é afirmar a vida e viver em desespero é desejar possuir profundo a vida a cada instante que ela te oferece. Tal aflição, tal adrenalina, faz alguma coisa que vive dentro de nós mover-se muito forte. É deixar o âmago em puro estado de excitação, fervura e fome.

Envolvido na mesma ideia, gosto também de pensar na afirmação do mistério. Vida como puro, caótico e ora perturbador, ora apaziguador mistério. Não cair na tentação de se apegar, nunca, em um só ideal de vida. Não encarcerar as possibilidades da consciência pela via de uma única interpretação do cosmos. Mas tornar-se uma prostituta das certezas, que a cada noite deita-se com uma. Numa noite vai afirmar todas, noutra negar todas. Namorar com as convicções e não deixar que cobrem a responsabilidade de se casar com qualquer uma que for. Ter um relacionamento sério, profundo e amável somente com o grandioso mistério de todos os processos. Ser devoto fielmente ao mistério da vida. Dar glória ao silêncio, ao vazio e ao nada. Viver, por fim, pelo desesperado amor por aquilo que não se explica.

Mas e a você, quanto te custa viver em desespero pela vida, afirmando o mistério?

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