Sobre transgressões

É cada coisa que eu imagino que se passa na república do Batman, rs.

É de extrema importância estar ciente das próprias transgressões. Pôr à mesa, cru e sem estancar o sangue, todas as versões e capítulos dos descumprimentos pessoais, a fim de analisá-los e, com orgulho ou vergonha, admiti-los. Todo e qualquer gesto que está à margem da lei, da moral e dos nossos próprios princípios devem obrigatoriamente manchar o caderno das razões adequadas. Isso é ser verdadeiro.

Falo das minhas. No contexto jurídico, uma porção de vezes que dirigi embriagado, crimes prescritos no artigo 155 do Código Penal (já roubei muito desodorante e queijo gorgonzola nos supermercados); uso de ilícitos, não precisaria nem citar; se levado ao pé da letra da lei, tráfico de drogas, de certa forma. Quase um homicídio culposo, quando ainda não tinha nem tirado o cabaço; vandalismo, depredação de patrimônio público, e, se me dedicar a lembrar mais profundamente, talvez existam alguns outros, mas nenhum que tenha ultrapassado a gravidade desses já citados.Por mais hediondo que possa parecer essa admissão, não me arrependo de nenhum deles — a não ser o quase homicídio já citado, quando eu tinha treze anos e ataquei uma bomba sete tiros na garagem da casa de um colega de sala, o que faz a vó dele sofrer um princípio de infarto.

Já sobre minhas transgressões morais e éticas, que se sobressaem, não sei se posso me dizer arrependido. Já trai quem me amou, descumpri combinados importantes, menti descaradamente por benefício próprio, fui cruel, mesquinho e chantagista. Nenhuma delas, independente se no campo legal, ético ou moral, me fez mártir ou bandido — fui apenas humano.

A admissão das transgressões, quase sempre merdas que se praticam, serve para poder enxergar mais de perto nossa faceta humana, demasiada humana, por isso imperfeita, errada, errônea. Uma pratica de humildade, por assim dizer.

Use a prudência, não seja radical, mas admita, se arrependa ou não (só nunca ataque bomba na casa de ninguém), e deixe, na medida do possível, algumas falhas perpassarem. A razão é um pano estendido que carrega alguns furos onde a loucura e o erro devem atravessar. Ninguém é passível de implosões.

Mas e as suas transgressões, quais são?

Saudoso Abujamra e o ilustre Leandro Karnal trocando uma ideia sobre transgressões

-(…)Eu acho que talvez o meu erro maior, a pior transgressão, foi não ter transgredido mais na juventude. Foi ter começado a transgredir na minha alma, num momento que meu corpo já estava em declínio. Talvez a juventude seja o espaço maior da transgressão. Eu deveria ter transgredido mais aos 18 do que eu transgrido aos 50.

-Quem realmente sabe tudo sobre a loucura é a juventude. A juventude é capaz de saber o que é a loucura. O resto não.

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