A negociação do Internacional com a segunda divisão

O Sport Club Internacional é um dos gigantes do Brasil, o famoso “campeão de tudo” é um exemplo de time colecionador de glórias tão grandes que são capazes de rasurar derrotas amargas em sua história. Entretanto, o mais recente acontecimento negativo no Beira-Rio ainda faz questão de a cada dia relembrar os colorados a dura e atual realidade que estão vivendo. A relação do Internacional com a Série B se tornou muito difícil ainda antes das últimas rodadas do Brasileiro 2016, e o clube passou a viver as definidas fases de um trauma.

A situação do colorado não é nada fácil na segunda divisão, enquanto todos esperavam que o time assumiria a liderança na primeira rodada e nunca mais sairia do G4, os jogos foram acontecendo e trazendo resultados muito diferentes dentro e fora de casa. A atuação do Internacional em 2017 nos permite analisar que o clube entrou na Série B com o pré-julgamento de que seria fácil, apenas mais uma etapa… uma penitência que conseguiriam superar apenas seguindo o longo caminho de um ano a passos lentos, para no fim do túnel encontrarem a luz e novamente a plenitude que os levaria de volta à glória. A forma como a equipe tratou a Série B em quase todo o primeiro turno nos permite também observar que encararam tudo com um grau de superioridade, recusando a ideia de que estavam entre os times emergentes e pertenciam ao mesmo nível, sem imaginarem que este campeonato é duro, complicado e impiedoso.

A Série B exibe extraordinária competitividade, com uma tabela compacta capaz de separar o G4 do Z4 por apenas dez pontos, além de ser uma competição muito difícil de ser conquistada apenas com alto desempenho técnico. Um fato curioso é que outros gigantes rebaixados já entraram nesse purgatório sabendo que os jogos seriam difíceis e travados, sem muitas chances para belas e vistosas atuações. Um gigante rebaixado carrega a obrigação de não só subir, mas retornar como campeão.

Encarando aos poucos a dura realidade, o Internacional ainda luta com o trauma. Nas últimas semanas do último novembro foi iniciado o processo de negação, quando o time ainda se comportava como um dos 12 grandes nas entrevistas, viabilizando uma “lógica” permanência, mas sem entender que o futebol apresentado resultaria nas más consequências, e um dos representantes do clube chegou a manifestar uma vergonhosa e insensível declaração após o trágico 29 de novembro, julgando que caso a última rodada não existisse, o Internacional usaria o que fosse preciso para não cair.

Como em um verdadeiro trauma, a fase da negação não passou rápido, durou até poucos meses atrás, quando a equipe já iniciava nas partidas da Série B irritada, parecendo que a intenção era entrar em campo, colocar a bola logo no gol e acabar com esse pesadelo para ir embora pra casa. Foi quando a raiva começou a se manifestar, a sensação de injustiça pareceu dominar o cotidiano do clube junto com o questionamento de dever mesmo passar por tudo isso, com quase um ano todo pela frente. A equipe continuou jogando sem gostar do jogo, como um trabalhador que não gosta do que faz e só vai passar algumas horas na empresa por obrigação.

A fase da negociação surgiu com a contratação de um novo técnico, analisando os fatores a serem ajustados e tentando esquecer as impressões negativas que acabaram interferindo dentro de campo. O novo uniforme foi lançado e os colorados começaram a perceber que aquela camisa seria eternizada na segunda divisão, e esta não poderia se repetir por um ano consecutivo.

O Campeonato Brasileiro não permite depressão, qualquer sequência de resultados ruins pode causar um desastre irreparável, e caso esta etapa estivesse no caminho de superação do Internacional, grandes dificuldades voltariam a atingir os bastidores e influenciar nas quatro linhas. Porém, algo diferente aconteceu na noite desta terça-feira, quando o time continuou irritado nos minutos iniciais, mas aos poucos foi executando uma transição dentro do próprio jogo, e após o 2 a 0 sobre o Oeste ficou a sensação de que a fase de aceitação foi iniciada.

O Internacional entrou no G4 no início da rodada, e levantou a hipótese de a partir de agora nunca mais sair de lá, com o objetivo de escalar até a primeira posição para ultrapassar mais uma batalha dentro dos 108 anos de história, mas desta vez sabendo que não há vaga garantida e que uma dezena de times não aceita que a sua própria e possível vaga seja entregue ao Inter de Porto Alegre.


“A bola é redonda, o jogo dura noventa minutos e todo o resto é apenas teoria.” Josef Herberger

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Autor: Matheus Medeiros, um roteirista e diretor de cinema que demorou 24 anos para perceber que seu amor pelo futebol não era comum, mas um fascínio não compartilhado por grande maioria dos torcedores ao seu redor.