Grandes Obras | Guia Politicamente Incorreto do Futebol

Poucos meses atrás encontrei nas prateleiras da entrada de uma livraria o “Guia Politicamente Incorreto do Futebol”, escrito por Jones Rossi e Leonardo Mendes Júnior, um livro de título curioso que depois fui descobrir que se trata de uma série, sendo vários Guias Politicamente Incorretos de determinados assuntos.

De qualquer maneira, no primeiro contato achei que o título prometia muito, e quando penso que um livro ou qualquer conteúdo atenderia exatamente um dos meus principais anseios, começo a desconfiar… então fui direto ao resumo destacado no verso, e entendi que aquela sinopse falava diretamente a mim, e pensei: será que é tudo isso mesmo?! Resolvi apostar, tinha que fazer isso.

Confesso que me pegou quando no primeiro parágrafo desta sinopse eu li:

“O jeito mais fácil de parecer especialista em futebol é repetir ideias com as quais quase todo mundo concorda. Seleção brasileira de 82? Basta dizer que ‘foi a melhor que já tivemos, apesar de não ter conquistado o Mundial’ e pronto: a turma do sofá vai te passar uma latinha e te olhar com respeito durante o jogo.” (Leandro Narloch: Autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil e Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo).

Pronto, eu precisava disso, sempre sou o protagonista das discussões familiares em que a maioria saudosista acredita fielmente que aqueles antigos jogadores nunca falhavam e eram incomparáveis com os atuais. Penso que comecei a entender e a relativizar esta empolgação quando os vídeos de highlights do Ronaldinho Gaúcho dominavam a internet, eu sabia que aquilo não era o puro reflexo do verdadeiro futebol deste craque, que mesmo sendo craque não passava 90 minutos fazendo obras de arte, tinha dificuldades e corria atrás do prejuízo como qualquer jogador humano.

Voltando ao livro… uma quantidade absurda de conhecimento é compartilhada pelos dois autores, é visível um processo de pesquisa minucioso e conclusivo quando dedicam todas essas páginas à reinterpretação daqueles acontecimentos futebolísticos concretizados e propagados na história do esporte. São 18 capítulos e dezenas de curiosidades destacadas em meio aos textos, sempre revelando um levantamento bibliográfico ao fim de cada capítulo.

O livro já começa desvendando alguns episódios nebulosos sobre a vinda do futebol ao Brasil, e a partir daí já entendemos que Charles Miller “não é o pai do futebol brasileiro”. E não se trata de uma escrita puramente jornalística, existe um storytelling refinado nessas 415 páginas; o Guia relaciona a história do futebol com contextos da história do próprio país para interpretar os motivos e as circunstâncias em que cada acontecimento se manifestou.

Sempre buscando os elementos que originaram essas ocorrências para reinterpretar um clichê já concebido (o que torna isso tudo uma grande coleção de curiosidades), a obra trata também: o racismo no futebol; Friedenreich, nosso primeiro grande craque; o Brasil de 70, desvendando mitos e destacando a importância de Zagallo; uma releitura da Batalha dos Aflitos (Aquele Náutico x Grêmio que virou filme); os grandes conflitos do futebol nacional que degringolaram na Copa União de 87 e na fase de Ricardo Teixeira; uma visão diferente, mas ainda muito positiva do futebol apresentado pela seleção de 94; o time e a cultura do Barcelona; os mitos da copa de 98; as falsas qualidades da seleção de 82; uma interpretação na minha opinião não atualizada sobre a arbitragem eletrônica (o livro é de 2014, e quando se trata de tecnologia, o ano da Copa no Brasil já é antigo);

E tem mais…

as verdades ocultas por trás das torcidas organizadas; a nova geração de jogadores mercenários; as ilusões do futebol como bom negócio; a aposta em ex-jogadores para salvarem o futebol apenas por entenderem a perspectiva de quem está dentro do campo (um excelente apanhado histórico trazendo as diversas tentativas de estabelecer este método na história do futebol); a democracia corintiana que não era tão democrática; e uma releitura final sobre Pelé e Maradona.

É um daqueles livros que fiquei com dó de terminar, é uma forte recomendação do autor desta coluna e da página “O futebol”. Se o leitor tiver interesse apenas por alguns temas abordados, ainda assim compensa ter o livro, os capítulos possuem muito conteúdo além destes pontos destacados aqui, se trata de uma experiência fundamental (pra não dizer “obrigatória”) para quem admira este esporte.

Para finalizar… o trailer deste grande livro:


“Futebol é como uma linda mulher. Quando você não diz, ela se esquece o quão bonita é.”
Arsène Wenger

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Autor: Matheus Medeiros, um roteirista e diretor de cinema que demorou 24 anos para perceber que seu amor pelo futebol não era comum, mas um fascínio não compartilhado por grande maioria dos torcedores ao seu redor. Escreve nesta coluna nas segundas-feiras.