O inacreditável Corinthians e as previsões de um inédito Campeonato Brasileiro

Não me lembro de quantas vezes já destaquei a alta competitividade do futebol brasileiro, citando características profundas por trás dos doze grandes clubes que sempre entram na maior competição do país como reais candidatos a título. Depois de muitos anos presenciando esse “salto no escuro” dado por cada time no início e no fim dos campeonatos, o ano de 2017 nos reservou algo mais complexo de se decifrar. A inacreditável campanha do líder Corinthians pode ser semelhante às melhores colocações de muitas outras tabelas pelo mundo, mas nunca vimos e nem aceitamos tal tipo de rebeldia aparecer por aqui.

Treze rodadas já foram jogadas, e a essa altura do campeonato não estamos acostumados a descartar possibilidades de títulos e primeiras colocações, pois sempre esperamos transformações positivas e negativas em cada clube, prevendo aqueles que irão vencer e perder algumas partidas consecutivas, além de elaborar até os prováveis motivos dessas previsões. Mas os fatos nos forçam a mudar a forma de analisar o futebol, que já vem alguns anos avisando que o próprio também mudou. O desafio para os envolvidos no esporte é entender o que está acontecendo, como se as pesquisas eleitorais de uma eleição política se mostrassem equivocadas após o resultado das votações.

Teorizar transformações negativas no Corinthians está um pouco mais complicado do que simplesmente originar essa circunstância partindo do pressuposto de que o time não vai aguentar sustentar a postura por tanto tempo, tudo por causa da eficiência tática elaborada pelo técnico Fábio Carille. A equipe não está estruturada através de jogadores-chave em cada setor, e muito menos apoiada sobre o talento de craques que funcionam como “maestros” no meio-campo.

Enquanto muitos dos nossos clubes revolucionaram o orçamento, o Corinthians melhorou sua organização. A funcionalidade desse time é baseada sobre todo o elenco, repleto de jogadores medianos que não fariam grande diferença em qualquer outro sistema de jogo ou clube do campeonato; é como se a diretoria tivesse apostado em peças quebradas, contando que um mecânico conseguiria colocar todas para funcionar juntas, sem precisar extrair o limite da especialidade de cada uma. É incrível como essas peças obedecem ao roteiro de funcionamento da máquina e confiam na configuração que o mecânico colocou em cada uma delas, sabendo quando contribuir com a engrenagem ao lado que pode eventualmente emperrar no meio do processo.

A bela e complexa articulação de um sistema defensivo, o estilo de jogo sendo verdadeiramente implantando pelo técnico, e a tabela do campeonato ajudam a lembrarmos dos torneios europeus e da forma como alguns pontos modernos do futebol podem estar chegando ao Brasil. Mas isso já se trata de previsões um pouco mais complicadas e dependentes de fatos concretos que ainda não ocorreram.

Alguns já cravam que este será um Campeonato Brasileiro diferente, sem as cinematográficas reviravoltas, o repentino sobe e desce, e a absurda competitividade, porém, após a vitória do Grêmio sobre o Flamengo (os gaúchos foram para a segunda posição, dez pontos atrás do Corinthians), o técnico Renato Gaúcho falou:

“Não tirando os méritos do Corinthians, que está jogando muito bem o Campeonato Brasileiro e pelo que está fazendo merece a pontuação, mas é uma coisa anormal. Não tem uma equipe que dispare assim no campeonato. Não tem uma equipe que comece tão bem o campeonato e termine bem. O Corinthians vai despencar na tabela, anote o que estou falando pra vocês. E o segundo turno será um campeonato totalmente diferente”.

A grande coisa dessa declaração é a forma que a campanha do Corinthians pode ser considerada inaceitável pela própria competição, como se ela mesma estivesse defendendo que o futebol em terras brasileiras não é tão simples assim, e supondo que sempre será necessário encontrar o “algo a mais” e o trabalho árduo com vitórias conquistadas na pura raça.

Acreditar que as reviravoltas são inevitáveis é o elemento que mais impulsiona as nossas interpretações desta tabela de classificação, e Renato Gaúcho coloca mais um conflito na história, alimentando o nosso interesse em analisar uma situação curiosamente atípica como essa. É preciso encontrar um corintiano pessimista e entendedor de futebol, seus pensamentos podem ser preciosos.


“A bola é redonda, o jogo dura noventa minutos e todo o resto é apenas teoria.” Josef Herberger

Siga O Futebol no Facebook


Autor: Matheus Medeiros, um roteirista e diretor de cinema que demorou 24 anos para perceber que seu amor pelo futebol não era comum, mas um fascínio não compartilhado por grande maioria dos torcedores ao seu redor.