Pode ser histórico

Torcedores e amantes do futebol geralmente não acompanham apenas o próprio time, basta um novo jogo decisivo para já voltarem a procurar a melhor forma de assisti-lo. Neste momento muitos resolvem “vestir a camisa” do clube de menor expressão naquele duelo, chegando até a desprezar o potencial de um torcedor que abre mão deste compromisso e prefere a vitória do time mais tradicional, acostumado a levantar canecos. Observamos isso desde campeonatos estaduais até copas do mundo.

Quando essa adoção do menos privilegiado acontece, é natural (dificilmente alguém que costuma defender o time de menor expressão vai mudar de opinião em alguma outra oportunidade), como se as pessoas praticantes da ideologia fossem invadidas pela sensação de “missão cumprida”, pois aquela torcida é de coração, por 90 minutos realmente se importam com aquele time, e enviam todas energias possíveis para a vitória da superação existir mais uma vez. Entretanto, percebo isso como algo muito maior do que incentivar os menores, porque na verdade o que existe é a vontade de presenciar um fato histórico.

Para entender melhor a situação precisamos falar das próprias torcidas apaixonadas pelos clubes de “segundo escalão”, eles não vivem de títulos, vitórias, acessos e glórias, o que há de mais puro neste caso é a esperança. Não tem explicação capaz de justificar a escolha de um time para levar pelo resto da vida, não é somente pelas cores e nem por nenhum outro fator pontual; as pessoas, muitas vezes ainda crianças, simplesmente acreditam pertencer a um elemento belo que despertou fortes emoções que precisam ser repetidas. Por isso temos clubes que nunca ganham nada mas possuem milhares de torcedores apaixonados, esperando para em um momento ímpar entrarem para a história juntos. Pertencendo a essa realidade, posso afirmar que há uma magia diferente quando se trata de torcer pelo “mais fraco”, e é essa magia que o torcedor recém-chegado busca quando acompanha uma partida decisiva e deve escolher quem incentivar.

Em um mundo onde 2+2=4 esses times nunca serão campeões ou vencerão um grande adversário, por isso, quando acontece é incrível, explosivo… histórico. É a graça de viver anos com uma paixão alimentada de esperança, esperando um longo tempo para ver aquele brasão ter uma equipe que eleve as emoções humanas na tentativa de obter algo sobrenatural para entrar de igual pra igual na disputa.

Apesar das possibilidades de frustração serem maiores, torcer pelo mais fraco nos permite viver essas vitórias “contra tudo e contra todos, na raça, na luta”… poder testemunhar aquele título que para sempre será lembrado. São esses os momentos que justificam a dedicação a um time, são essas histórias que esperamos e queremos ver. A superação, a transformação de um clube pequeno em time grande… são momentos tão raros que quando acontecem nos fazem perceber o motivo de estarmos ali a vida inteira.


Não se trata de uma coluna de críticas futebolísticas, nem de um jornalismo esportivo que vai direto ao ponto. Este espaço é dedicado à emoção do torcedor, que em cada partida deposita uma expectativa tão grande quanto aquela que nos envolve ao presenciarmos uma bola alçada na grande área.

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Autor: Matheus Medeiros, um roteirista e diretor de cinema que demorou 24 anos para perceber que seu amor pelo futebol não era comum, mas um fascínio não compartilhado por grande maioria dos torcedores ao seu redor. Escreve nesta coluna nas sextas-feiras.