Purê de brócolis

era tão estranho ver um homem fazer tudo aquilo por ela

Seane Melo
Nov 3 · 7 min read

Quando Beto abriu a porta do apartamento, Elvira não pode deixar de se sentir acanhada. A mesa estava posta e decorada com quadros com ilustrações de cactos. “Comprei copos novos. O que você achou?”, Beto perguntou ao reparar no seu olhar para a mesa. A moça disfarçou que não tinha reparado, nunca tinha sido muito boa para essa coisa de casa e utensílios domésticos, quer dizer, adorava comprar coisas para cozinha, mas nunca comprava porque queria algo mais bonito, só quando precisava. Disse que eram bonitos e mais uma vez se sentiu envergonhada. Ele tinha comprado copos novos para aquele jantar?

Beto quebrou o gelo dando um selinho. Parecia que toda vez que se encontravam era preciso esperar alguns segundos para que um certo estranhamento passasse. Algumas vezes Elvira conseguia parecer muito tímida e desengonçada, outras, parecia uma mulher naturalmente selvagem.

“Trouxe um pedaço do meu segundo pão pra gente comer amanhã”, Elvira disse entregando um pequeno embrulho de papel alumínio pra Beto. “Testei a receita de um cara gringo dessa vez, como você sugeriu”.

“E aí?”

“Bom, não sei, demorou mais tempo no forno, não sei se deu certo”.

“Você abriu muito o forno? A temperatura pode ter caído…”

“É, acho que pode ter sido isso. Acho que aquele forno realmente não funciona bem pra isso, na verdade”, comentou fechando a bolsa e parando ao reparar num pequeno envelope de papel.

“Você deveria fazer um diário do pão! Vou te mostrar o meu”, ele disse e foi até o quarto.

Elvira sentou no sofá com o envelope nas mãos. Depois que Beto lhe mostrou suas anotações, finalmente disse:

“Trouxe um presente pra você”, indicou o envelope com o olhar e um sorriso maroto. O rapaz fez menção de pegar, mas ela driblou sua mão. “Hoje finalmente fui buscar essas fotos que fiz ano passado, de uma viagem para Barreirinhas. Como elas ficaram muuuito boas, decidi te presentear com algumas. Tem uma foto minha de biquíni, claro, já que você ama minhas fotos em roupa de banho” — deu uma leve alfinetada relembrando o diálogo do bar sobre a foto de maiô — “e tem duas fotos bem conceituais pra você escolher a sua preferida”.

O olhar de Beto brilhava de curiosidade. Por dentro, uma minúscula bandeira vermelha tinha aparecido ao ouvir que ela daria uma foto sua para ele. Mas ele estava curioso demais com as tais fotos conceituais e aquele sorriso bobo que ela exibia para não deixar isso passar. Foda-se, pensou sorrindo e, finalmente, abrindo o envelope. A primeira foto exibia um close no rosto de um macaco um tanto assustador. A segunda nem conseguia entender o que era. Parou nessa para tentar analisar.

“Também demorei algum tempo para entender o que era essa foto”, Elvira completou.

“Ainda não consigo entender do que se trata essa… obra de arte contemporânea. Você poderia me explicar?”, pediu com ironia.

“É um macaco! Eu disse que as fotos eram conceituais”, explicou rindo. “Minha câmera tem um visor quadrado e o rolo do filme é retangular, então, nunca sei ao certo o que estou pegando na foto. Acho que mirei no macaco e só peguei o rabo”.

Beto voltou a analisar a fotografia e, dessa vez, conseguiu visualizar o pequeno rabo formando um gancho em contraste a um fundo marrom. “O que é esse marrom?”, quis saber.

“Ele tava em cima de um vaso de cerâmica”.

Beto passou para a próxima foto, era uma foto desfocada de Elvira na areia, o Rio Preguiças ao fundo, fazendo uma pose de yoga boba (, vestindo um biquíni rosa e azul e usando um chapéu que cobria metade do seu rosto. A foto ainda tinha manchas rosadas, que a garota não sabia explicar. Deve ter sido algo no processo de revelação, não sei.

“Você só precisa ficar se quiser”, Elvira completou, observando Beto repassar todas as fotos. No fundo, tinha vergonha de ter colocado uma foto sua no pacote, mas tinha achado que seria estranho chegar só com as fotos do macaco. Apesar de elas estarem hilárias, pensou com uma pontinha de orgulho das suas desventuras fotográficas.

“Claro que quero, mas você disse preu escolher entre as duas fotos do macaco, né?”, Beto explicou colocando uma foto ao lado da outra. “É tão difícil! Por um lado, tem essa cara de macaco assustadora, por outro, a foto do rabo é realmente surpreendente e desafiadora, né?”

“Bom, já que você gostou tanto, posso te dar todas elas”

“Cê jura? Mas você vai conseguir ficar longe dessas maravilhas?”, perguntou segurando o riso.

“Ah, tudo bem. Eu ainda tenho o negativo, posso fazer outras cópias”

“Então, eu ficarei encantado em receber esse mimo”, Beto respondeu, dando um selinho em Elvira e devolvendo as fotos para o envelope.

Parece realmente animado, Elvira notou, por sua vez, se sentindo igualmente feliz por ter encontrado alguém com quem pudesse compartilhar suas bobagens. Beto era formado em Desenho Industrial e, pela sua casa, pelos copos novos e as ilustrações em cima da mesa, sabia que tinha bom gosto, mais que isso, tinha letramento estético. Elvira mal sabia se esse conceito existia, mas sabia que Beto era mais exigente que ela quando se tratava de imagens e, ainda assim, tinha aceitado aquele presente estranho com a maior alegria. Pensava nisso, sentada no sofá, enquanto ele verificava, na cozinha, se o salmão já estaria bom. Elvira se levantou e entrou também na cozinha, ficou observando a pia imunda, com uma pilha de louça suja e Beto correndo de um lado para o outro para finalizar o preparo de tudo. Teve vontade de abraçá-lo e dizer que não precisava ficar tão preocupado — era o primeiro cara que sequer se propôs a fazer um jantar pra ela, qualquer coisa além disso era lucro. Mas acabou ficando calada, apenas torcendo para que nada desse errado, também não queria vê-lo ter um ataque de nervos.

Enquanto isso, Beto ia desfiando uma lista de reclamações e desculpas na cozinha. Era bom que o salmão não se despedaçasse, não sabia se a manteiga já estava quente o suficiente, “aliás, manteiga você pode comer? Coloquei só um pouco no aipim”. Elvira o corrigiu dizendo que o nome certo era macaxeira, claro. E mais uma vez se sentiu envergonhada, era tão estranho ver um homem fazer tudo aquilo por ela. Beto tinha passado pelo menos três dias confirmando o que ela podia comer, além de cozinhar para ela, também era um dos primeiros caras que realmente se importava com sua intolerância à lactose. É bom que se preocupe mesmo ou nada de sexo anal, Elvira fazia piada na cabeça.

Abriu a garrafa de vinho, serviu as duas taças e sentou aliviado. Tudo tinha saído como esperado, a apresentação do prato estava linda — tinha espalhado uma pequena quantidade de purê de brócolis verde vivo no prato, em cima do qual tinha deitado o salmão e o aipim ao lado — e Elvira parecia quase sem palavras, algo realmente raro no caso dela, comemorava internamente. A garota, por sua vez, se sentia inadequada, desejava pelo menos ter escolhido uma roupa melhor para o encontro, e deslumbrada ao mesmo tempo. Cada vez que olhava para o seu prato, mais surreal tudo lhe parecia. Beto tinha servido a comida como nos restaurantes caros e, apesar de parecer bem óbvio que faria isso, já que estudava gastronomia, até aquele momento nem tinha passado pela sua cabeça que era aquele tipo de jantar que prepararia. Estava lindo, ela admitia, mas não conseguia deixar de pensar que aquela porção de comida não correspondia nem à metade do que comia normalmente. E ainda tinha vinho — meu deus, acho que só tomei vinho duas vezes na vida.

“Eita, quase esqueci”, Beto levantou da mesa para buscar algo na cozinha. Voltou com um potinho. “Fiz farofa também, apesar de depois ter me tocado de que já tinha uma opção de carboidrato”.

Elvira teve que segurar o impulso de zoá-lo. Por muito pouco não soltou uma piada sobre ele ser muito corajoso, pois ela era maranhense e dificilmente uma farofa feita por um carioca chegaria aos pés de qualquer outra que já tivesse provado em sua cidade. Se serviu e, assim que provou, ficou grata por não ter dito nada. Estava tão deliciosa que arregalou os olhos, surpresa. Beto sorria orgulhoso do outro lado da mesa.

Estava tudo ótimo, Elvira meditava enquanto fitava a garrafa vazia de vinho (bebemos tudo?) e se surpreendia ao constatar que estava satisfeita e leve. Decidiu levantar da mesa para ajudar Beto com a louça, afinal, quem cozinha não lava, era o lema da sua mãe. Mas o rapaz a afastou da cozinha, afirmando que depois poderiam dar um jeito naquilo. Começaram a se beijar na sala, o vinho tinto fazendo efeito e criando ondas magnéticas entre os dois corpos. Beto e Elvira não sabiam, mas ao mesmo tempo deixavam a cabeça rodar e os sentidos vagarem em torno de tremores e pequenos arrepios. O maquinário do cérebro semi-embriagado de Elvira não brincava em serviço, antes de chegarem ao quarto, a umidade entre suas pernas indicava que os hormônios trabalhavam bem. O organismo de Beto também se mostrava 100% focado, a circulação sanguínea correndo para atender uma demanda local no baixo ventre.

“Pensei que ia dar mais trabalho”, Elvira disse rindo antes de desabar na cama do rapaz, o corpo de Beto acompanhando a queda.

“Nunca mais fico de pau mole com você, Elvira”, ele garantiu, como se fizesse uma declaração de amor. Sentia-se simplesmente à vontade. E com vontade.


Este trecho faz parte do livro Oi, sumido que estou publicando aqui, no Medium, e no Wattpad enquanto escrevo. Oi, sumido conta a história da série de encontros românticos e transas memoráveis entre Elvira e Beto, que foram interrompidas pelo sumiço inesperado do rapaz no WhatsApp. O fim abrupto, no entanto, é o início de uma saga, para Elvira, de descoberta de palavras, sentimentos confusos e vulnerabilidades. Sem se contentar com o sofrimento silencioso do abandono digital, a jovem decide aceitar o papel de louca que lhe sobra na história.

Seane Melo

Written by

Jornalista e escritora maranhense, autora do romance “Digo te amo pra todos que me fodem bem”

oisumido

oisumido

Um romance experimental sobre ghosting escrito por Seane Melo

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade