A arte de saber parar

Em variadas análises minhas tenho sido bastante elogioso quanto à astúcia de muitos criadores e produtores de séries quando decidem terminar as suas respectivas narrativas no momento ideal. Todavia, nunca me expressei sobre aqueles que decidem prolongar enredos até se transformarem numa pastilha elástica sem sabor — os quais, na verdade, penso antes de valorizar a brevidade de certas narrativas. Por isso, hoje pretendo dedicar um espaço próprio para aprofundar este tópico, utilizando alguns exemplos concrectos de como o contexto pode, ou não, influenciar tais decisões e equiparar a dicotomia do efémero/duradouro.

Quando menciono contexto, claro que me refiro às audiências. É inegável a influência desta métrica na determinação da continuidade de uma série. Por vezes, acaba por superar a própria vontade de prosseguir a narrativa — bem como encerrar o enredo quando apropriado. Provavelmente nesta altura já devem ter encaixado várias obras em cada um dos arquétipos e, muito possivelmente também, devem-se ter relembrado de um exemplo recente que, admito, me levou à decisão impulsiva de deixar esses pensamentos registados.

O anúncio do regresso da La Casa de Papel, não num único conjunto de episódios, mas dividido em dois volumes, é a prova máxima de como o público — e o respectivo lucro — determinam a renovação de certas séries. A criação de Alex Pina começou com duas partes bem executadas, repletas de mistério e tensão e com personagens carismáticos e interessantes, pelas quais nos deixámos obcecar em demasia. Não julgo — eu próprio também encarei com algum fascínio a fase inicial do assalto à Casa da Moeda espanhola. Porém, actualmente vemos uma história débil, demasiado alongada, com pouco critério, cujo rumo é pautado por aquilo que a audiência pode achar mais apelativo — ou chocante (a morte de Nairobi, por exemplo — uma necessidade desnecessária?). Talvez a transição dos direitos para a Netflix por parte da Antena 3 motivam os meus actuais sentimentos para com a série.

Com mais de 65 milhões de visualizações após a estreia da última — até ao momento — temporada, torna-se compreensível esta decisão de querer esticar ao máximo a trama de La Casa de Papel. Pois, no meio de milhões, quantos realmente são aqueles que vão criticar o desgaste da série? Quanto muito, vai permitir criar buzz entre Setembro e Dezembro, as datas de estreia dos últimos (acho) episódios e, provavelmente, atrair outros milhares ou milhões de espectadores que nunca sucumbiram ao hype da produção espanhola. É verdade que La Casa de Papel vai acabar — permitam-me justificar perante o título do artigo — contudo, não sei se esse término surgirá já fora de prazo. Porém, beneficiou do FOMO — Fear Of Missing Out — para se poder impôr como destaque no catálogo da Netflix.

Numa senda semelhante, embora também diferente, está Bridgerton, a grande sensação do ainda líder de mercado entre serviços streaming. São 82 milhões de espectadores — até ao momento — a terem visto este mixórdia vitoriana adaptada aos tempos modernos (eu não me incluo nesta amostra, portanto tudo o que disser será à base da leitura de análises e comentários alheios). Com uma recepção mista por parte dos críticos, assim como da audiência genérica, como se pode explicar este fenómeno? Creio tratar-se de algo muito similar ao denominado Trash TV — embora Bridgerton esteja muito longe do nível de mediocridade de alguns programas que muitos vêm com o intuito de fazer descansar o cérebro, principalmente. Pelo que me apercebi, no meio da enorme comunhão de fãs, a maioria parece optar por olhar para o original de Shonda Rhimes na perspectiva cómica, depreciativa, quase como se estivessem a construir uma rubrica dos célebres Tesourinhos Deprimentes no interior das suas cabeças. Não julgo; quiçá um dia também ceda a essa mesma tentação — e quem agradece é quem a produz (de nada!).

Portanto, apesar de contar com apenas oito episódios até ao momento, a Netflix já veio confirmar a renovação até, pelo menos, à quarta temporada, estando também a planear vários spin-offs da série. Talvez seja caso único — nas minhas breves pesquisas não consegui encontrar obra que emulasse o feito de Bridgerton — mas, quando vemos o nome da supramencionada criadora, é difícil não associar à eterna Grey’s Anatomy, cujas audiências estão longe do auge, não obstante manterem-se elevadas e consistentes tendo em conta a nova realidade do consumo de entretenimento. A caminho das duas dezena de temporadas, os resultados continuam a ser bastante lucrativos para retirar este medical comedy-drama do ar, tal como a grande legião de seguidores parece (ainda) não querer a conclusão da história de Meredith Grey — mesmo que isso leve à concepção de narrativas e personagens puramente ilógicas.

A questão financeira associada aos (ainda) elevados ratings também são responsáveis pela manutenção de séries de animação de longa data, como Os Simpsons ou Family Guy em horário nobre nos EUA. Mesmo com elevada saturação e críticas pouco favoráveis às mais recentes temporadas, o humor simples de digerir e enredos simples e desconexos faz com que, apesar de tudo, a preferência ainda recaia nas criações de Matt Groening e Seth MacFarlane. A título de curiosidade, BoJack Horseman, série mais aclamada, acabou cancelada pela Netflix já perto do seu corolário, muito pelo lento progresso das audiências — mesmo que seja, actualmente, vista como uma obra de culto. Já Big Mouth, cujas críticas são bem mais favoráveis actualmente quando comparadas com Os Simpsons ou Family Guy, acabou por se comprometer com a realização de seis temporadas com o serviço streaming… isto se o seu valor acrescentado for percepcionado pelo distribuidor.

Prometo estar quase a terminar, mas gostaria de abordar um ângulo diferente — o de agradar os fãs de longa data. Aqui vejo, por exemplo, casos como Prison Break ou, agora, o próprio Dexter, com o retorno de Michael C. Hall ao papel do psicopata mais memorável do pequeno ecrã. Enquanto esta última não pode ser sujeita a qualquer tipo de julgamento — estreará algures em Outubro na HBO — os novos episódios de Prison Break vieram comprovar não ter existido motivo para uma nova temporada focada nas peripécias de Lincoln Burrows e Michael Scofield — especialmente quando este último fora “morto” no verdadeiro final. Se realmente a intenção é continuar a providenciar motivos de sorriso à legião de seguidores, o exemplo de El Camino, realizado por Vince Gilligan, é aquele que melhor equilibra o fan service com a lógica do universo da série (neste caso, Breaking Bad). Não foi muito interessante, mas sempre deu para desvendar todo o mistério sobre o destino de Jesse Pinkman que perdurou durante seis anos.

Aproveito a deixa de Breaking Bad para fazer a transição daqueles merecedores dos ditos elogios. Tal como já devem ter depreendido, são séries cujo final, embora nunca anunciado, está previamente delimitado pelos seus criadores — pese um grande desastre, como péssima receptividade ou falta de público. No entanto, as mais breves obras são aquelas que não encaixam nestas definições. Para a narrativa de Walter White, Vince Gilligan sempre planeou uma série com 62 episódios, algo que poderá replicar no spin-off, Better Call Saul, onde se comprometeu com apenas seis temporadas. O facto dos detalhes “extra campo de acção” estarem tão minuciosamente engendrados torna natural (e quase inevitável) as suas amplas aclamações junto dos entendidos de Sétima Arte — e qualquer tipo de conteúdo televisivo.

Mesmo que os pedidos de novos capítulos se multipliquem, aprecio a certeza e determinação de quem assume, em defesa do seu espírito criativo, ter arrumado um dado projecto de vez. Veja-se, por exemplo, Fleabag, criado e interpretado por Phoebe Waller-Bridge, provavelmente um dos mais bem estruturados enredos e com a melhor construção de personagens da última década. Com apenas doze episódios divididos por duas temporadas, o saudosismo dos fãs parece ser atenuado pela simultaneamente bela e trágica forma como a narrativa acaba. Embora pareça haver espaço para uma terceira temporada, no universo de Fleabag tal não faria sentido tendo em conta o percurso da protagonista e o modo como ela se relaciona (literalmente) com a audiência.

Por isso, é de valorizar como Waller-Bridge — e muitos outros que certamente mereciam ser mencionados, mas acabarão por não ser para não agastar os leitores — consegue enaltecer a lógica criativa em detrimento do fan service. Pois, se prestarem atenção, creio que a audiência e fãs de certas séries acabam enaltecidas pelos próprios criadores quando estes seguem a máxima less is more. Desse modo, logram regalar-nos com séries cuja probabilidade de perdurarem nas nossas memórias é maior quando comparadas com produções de outro tipo de longevidade. Eu, por exemplo, lembrar-me-ei de mais pormenores de Fleabag, Mr. Robot ou The Good Place que, por exemplo, os das já saturadas e forçadas Casa de Papel, Stranger Things (se realmente se confirmar que ultrapassa as quatro temporadas), ou The Big Bang Theory.

Em conclusão, entendo perfeitamente o peso das audiências nas decisões em renovar certas produções, assim como a relutância dos criadores em largarem as suas obras quando estas estão no pico da rentabilidade. Tal não é sinónimo de catástrofe ou irrelevância, porém, pode acabar por criar uma sensação de desgaste generalizada — e, possivelmente, danificar enredos bem construídos pela vontade de continuar a espremer uma fruta incapaz de dar qualquer tipo de sumo (como temo que aconteça com Stranger Things ou Sex Education — mas quiçá me possa enganar). Por estas razões, como mencionei no preâmbulo deste extenso artigo, elogiarei sempre quem tem intrínseca a arte de saber parar no momento certo. Embora não atinjam níveis elevados de lucro, nem de popularidade, a honestidade e proximidade com os fãs são suficientes para suplantar as tais métricas fundamentais da indústria do entretenimento.

oitobits

Entretenimento e Tecnologia