Análise a ‘I Care a Lot’ (Netflix)

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★★★☆☆

Há cerca de três meses teci uma análise quanto ao efeito polarizador do filme The Assistant, onde as opiniões de críticos e público divergiam para pólos completamente opostos. Longe estava eu de imaginar que a mais recente produção original da Netflix, I Care a Lot, realizado pelo desconhecido britânico J Blakeson, me levasse novamente a expressar pensamentos apaziguantes de tão distintas opiniões entre quem enriquece a escrutinar cinema e os opinadores implacáveis em busca de entretenimento — e um pouco de acção.

Ora, embora I Care a Lot forneça um pouco de ambos, a forma como constrói a moral da narrativa e apresenta as personagens acaba por prejudicar a sua apreciação geral. O enredo conduz-se em torno de Marla Grayson (Rosamund Pike), uma ambiciosa vigarista que enceta um esquema para colocar idosos solitários sob a sua guarda e extorquir-lhes a riqueza enquanto estes são enviados para lares. Um acto muito pouco nobre — hediondo, acrescentaria — cuja aceitação acaba por ser mínima, parece-me, devido ao contexto actual. Uma comunidade desperta e, acima de tudo, a prevalência da injustiça social. Neste sentido, percebo o peso do teor negativo das críticas manifestadas pela audiência geral. A forma como Marla é trabalhada em termos de evolução e respectivo encerramento do seu character arc deixa algo a desejar. Embora esta acabe por encontrar desafios no decurso do filme — não fosse um dos seus alvos de burla uma mãe de um indivíduo louco e perigoso com conexões à máfia russa, Roman Lunyov (Peter Dinklage) — não sentimos que a sua personagem seja devidamente castigada. Ou melhor, ela é castigada — mas, provavelmente, no timing errado, não obstante da surpresa gerada em torno desse momento sobre o qual não divulgarei mais detalhes.

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Portanto, sim, compreendo um dos motivos pelos quais esta obra não tenha caído no goto do mais amplo público. Creio não estarmos preparados para receber positivamente um filme que privilegie o niilismo e a ganância pelos motivos anteriormente mencionados — ou pelo menos, a exacerbação da sua normalização até a um ponto onde, infelizmente, não aceitamos ou depreendemos a lógica da punição de Marla Grayson. Existem, decerto, milhares de magnatas na vida real a partilharem a sua visão; poderia a sua narrativa ter um final mais digno para quem vê? Embora alguns críticos anotem estas inconsistências no tom da narrativa, a grande maioria acaba por colocá-la em segundo plano ou sequer citá-la, ao contrário dos espectadores que ousaram dar a sua voz de descontentamento.

Na minha humilde opinião, podíamos estar perante um filme arrojado e desafiador caso a vertente escrupulosa explorada fosse diferente. No entanto, não é por causa do facilitismo da narrativa, nem de alguns momentos ligeiramente convenientes que tornam I Care a Lot num filme indigestível. Há outros elementos capazes de equilibrar a balança e potenciar a obra para outras latitudes — tais aquelas mencionadas pela crítica, na sua generalidade.

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Por exemplo, o desempenho de Rosamund Pike, com a sua estonteante entrega à sociopatia e vileza de Marla Grayson, foi capaz de tornar as turbulências da narrativa numa montanha-russa de sensações às quais me tentei agarrar para me manter minimamente cativado no filme. Para tal também contribuiu o sarcasmo corrosivo e distorcido, bem como certos momentos de diálogo, que foram eficientes em construir uma identidade em torno do enredo (não obstante as falhas), promovendo assim uma voz de entretenimento necessária para, uma vez mais, não sentenciar I Care a Lot à desgraça. Por último, as emoções vividas. Está longe de ser um thriller perfeito, mas o argumentista e, simultaneamente, realizador, J Blakeson, consegue encaixar algumas peças que conduzem a estória em torno de um mistério cuja resolução tarda em surgir — embora padeça de um problema — a pressa do autor em encerrar todo o suspense no corolário da narrativa. Pessoalmente, fiquei com a sensação que este foi vítima da complexidade das suas ideias — evidenciando assim, novamente, as ditas inconsistências que acabam por perdurar na nossa memória terminada esteja a sessão de cinema caseiro. Porém, partilho, assim, estas opiniões com quem mais entende a Sétima Arte — não obstante as lacunas identificadas, na maioria dos casos, não referenciadas pelos críticos.

À data que escrevi este artigo, as 81% de apreciações favoráveis da crítica contrastando com os 31% da audiência no site Rotten Tomatoes evidenciavam claramente a divergência de opiniões quanto a I Care a Lot. Está longe de ser um filme perfeito, e certamente não vai satisfazer uma grande porção de quem decida assistir o filme no seu sofá (ou cama, ou lá onde se vê Netflix em pleno confinamento). No entanto, não me parecem haver razões suficientes para o condenar ao falhanço — nem para o granjear como um sucesso. É, portanto, uma narrativa tépida com os seus altos e baixos, mas amarrada a uma inconsistência motivada pelas elevadas ambições, presumo, de J Blakeson. Quanto a mim, cabe-me continuar a tentar encontrar o tão necessário meio-termo quando assim achar justificável.

oitobits

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