Análise a ‘Judas and the Black Messiah’

★★★★☆

A cerimónia dos Óscares de 2021 ocorreu há duas semanas mas ainda sinto haver espaço, bem como relevância, para continuar a promover algumas das obras com teor de elevada significância social laureados na presente edição. Como já podem ter depreendido, preparo-me para falar, muito sucintamente, de Judas and the Black Messiah, realizado por Shaka King, que co-escreveu com Will Berson, e o modo como intemporalizam a brutalidade das forças policiais perante a raça negra nos Estados Unidos — mesmo quem estivesse do outro lado não fosse propriamente uma antítese de extremismo.

A narrativa decorre em torno do partido Black Panther, uma organização urbana, com índoles revolucionárias, criada na última metade dos anos 60 com o objectivo de promover a auto-defesa da etnia afro-americana, e na execução plano do verídico assassinato do presidente da filial de Illinois do referido movimento, Fred Hampton (Daniel Kaluuya), engendrado pelo FBI. Para que tenha sucesso, a presença no seio do partido do infiltrado Bill O’Neal (Lakeith Stanfield), ladrão sob captura da polícia, é fundamental para que esta esteja sempre um passo à frente do cabecilha do movimento — considerado, na época, um perigoso reaccionário com conotações comunistas e maoístas, palavras proibidas numa época em que os EUA combatiam no calor do Vietname, e friamente com a União Soviética.

Todos esses acontecimentos preponderantes para a data e ressonantes com os ideais dos Black Panther acabam, no entanto, por serem deixados para segundo (ou terceiro) plano, com os autores a colocarem no centro das atenções, e sem quaisquer rodeios, o debate racial e da utilização desmesurada da força. Portanto, a data de produção de Judas and the Black Messiah não é, de qualquer maneira, inocente, e até pode representar algum simbolismo (para aqueles que apreciam analisar para lá do óbvio). Depois de um 2020 tumultuoso para a estabilidade e paz da comunidade afro-americana na América, com os homicídios de George Floyd ou Breonna Taylor, para mencionar alguns, o filme realizado por Shaka King parece querer destacar a preocupante longevidade do abuso de autoridade da polícia, assim como as suas raízes estarem embrenhadas em questões e problemas culturais que persistem há décadas (e quase séculos). Apesar de, obviamente, não resolver as tensões raciais, as entrelinhas destes filmes são bastante óbvias e, por um lado, aprecio que obras com mensagens semelhantes a Judas and the Black Messiah sejam concretizadas — desde que comprovem a relevância do seu conteúdo para a sociedade actual — pois comprova que a busca por uma justiça mais equilibrada para as minorias mantém-se activa.

Por outro lado, não deixa de ser curiosa a estreia de um filme com um reflexo tão vincado num grupo historicamente considerado como radical, numa era onde parece existir uma alergia ao meio termo que promove uma discussão de (falta) de ideias relativas a pólos completamente extremados. A visão agnóstica, ou mais moderada, centrista, chamem-lhe o que quiserem, parece ser substituída paulatinamente no campo da opinião pública, o que poderia ter criado algum burburinho em Judas and the Black Messiah. Porém, para minha surpresa não parece ter havido frisson nos locais sociais, por meios digitais, onde a lógica menos impera. Talvez seja fruto do meu cepticismo, sempre à espera de um comentário ou outro mais torto, sem fundamento, ou talvez do cuidado dos autores ao procurarem, acima de tudo, relatar factos sem parecerem tendenciosos. Para um filme deste cariz, trata-se de um elemento estabilizador capaz de criar ensinamentos e distribuir informação para a audiência, sem que esta se sinta inclinada a escolher um dos lados dos intervenientes — por mais imorais que eles sejam.

Agora por um lado não tão positivo, apesar de entender a razão pela qual se intitula o filme desta maneira, as intervenções entre o “Judas” — Bill O’ Neal — e o “Messiah” — Fred Hampton — são praticamente escassas em toda a narrativa, a qual não dá espaço para poder desenvolver um pouco mais a relação ligeiramente tumultuosa de ambos. Talvez seja pura picuinhice — longe estou de poder idealizar o que foi discutido nos processos de escrita ou produção da obra, nem de demonstrar autoridade para escrutinar nomes de filmes — porém, Judas and the Black Messiah parece prometer algo que não concretiza, à primeira vista. Centra-se mais no quotidiano do Black Panther e na vida pessoal de Hampton e de O’Neal, do que propriamente em preocupar-se em explorar a sua relação com o presidente da filial, bem como a com o agente Roy Mitchell (Jesse Plemons), a cujas pressões teve de ceder para se manter numa espécie de liberdade ilusória. Entendo a escolha metafórica para a denominação da estória — é impactante, tenho de admitir — contudo, não deixo de sentir algum desalento por terem perdido a oportunidade de fazer contracenar dois dos mais talentosos actores das suas gerações, bem como introduzir alguns momentos de maior tensão ou suspense — como eu tanto adoro — na acção.

Talvez esteja a ser picuinhas novamente, talvez os produtores tenham optado por uma documentação mais leve e não tão focada numa trama policial, de jogo do rato e do gato, para poderem dar maior ênfase à mensagem. Contudo, já vi outros filmes baseados em histórias verídicas com estrutura mais ritmada e uma execução mais eficaz em termos de desenvolvimento dos protagonistas. Mas, no geral, não são esses elementos que tornam Judas and the Black Messiah um filme tépido — impossibilitam é de atingir todo o seu potencial. Por outro lado, compensa pela qualidade fotográfica, do guarda-roupa, e bem como da banda sonora e elenco, nos quais foi premiado com o Óscar de Melhor Canção Original (Fight For You, interpretada por H.E.R), e de Melhor Actor Secundário, com Daniel Kaluuya (representação arrepiante e sem espinhas).

Em suma, considero um filme merecedor de três estrelas e meia, que arredondei para quatro, tendo em conta a intemporalidade da mensagem e o modo como foi veiculada sem tomar partido da posição dos grupos privilegiados ou renegados. Não creio que seja o maior entretenimento para uma tarde de domingo, mas sim uma óptima fonte de aprendizagem sobre como as outras minorias e raças nunca baixaram os braços perante a brutalidade policial na América — e que este esforço é contínuo e merece toda a união.

oitobits

Entretenimento e Tecnologia

Medium is an open platform where 170 million readers come to find insightful and dynamic thinking. Here, expert and undiscovered voices alike dive into the heart of any topic and bring new ideas to the surface. Learn more

Follow the writers, publications, and topics that matter to you, and you’ll see them on your homepage and in your inbox. Explore

If you have a story to tell, knowledge to share, or a perspective to offer — welcome home. It’s easy and free to post your thinking on any topic. Write on Medium

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store