Análise a ‘Lupin’ — 1ª parte

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★★★★☆

Confesso não ter ficado entusiasmado quando a Netflix, há cerca de uma semana, me recomendou a mini-série Lupin. Bastou ver uns segundos da apresentação e ler a sinopse para me demover da ideia de aceitar a sugestão da nossa plataforma amiga. No fundo, parecia ser mais uma clássica narrativa em torno de um assalto, onde o pragmático cabecilha monta um minucioso plano para levar a bom porto as suas intenções. Nada que não tivesse visto já nos últimos dois ou três anos — La Casa de Papel à cabeça, bem como as constantes repetições da trilogia Ocean’s na televisão. Porém, na falta de escolhas para consumir conteúdo, acabei por ceder e aventurar-me, sem quaisquer expectativas, pela obscuridade da série criada por George Kay. Iria corroborar a minha ideia inicial, ou gorar todo o cepticismo lançado em seu torno?

Ora, o veredicto é simples. Vi todos os episódios em menos de um dia. Rendi-me à homenagem prestada à personagem criada por Maurice Leblanc, provando, uma vez mais, não podermos julgar uma série pelo seu trailer (nem pela sua descrição). O primeiro episódio apresenta-nos Assane Diop (Omar Sy), um franco-senegalês que se imiscuiu na equipa de limpeza do Louvre para poder roubar um precioso colar com um valor de 20 milhões — inspirando-se precisamente no modus operandi da supramencionada personagem.

À semelhança de Arsène Lupin, a mini-série é também perita no disfarce, no encobrimento dos seus objectivos, e na sedução, lançando um charme perante a audiência, embevecida, incapaz de não vê-la ininterruptamente. Pois, apesar de Assane ser, realmente, um ladrão imperceptível, com a sedução um complemento à sua camuflagem, há uma estória enorme por trás das motivações do protagonista, que serve de fio condutor até ao corolário da primeira metade do enredo. Este paralelismo, intencional ou não (pode ser culpa da minha mente extremamente pensativa), transpõe-nos para uma narrativa de vingança, de corrupção, onde cada um joga pelas suas regras, custe o que isso custar a alheios.

Ao pegar nessas características de diversos géneros, Lupin consegue distinguir-se de produções semelhantes e encontrar um factor de diferenciação numa categoria já bastante lotada, mas sempre a fazer jus ao saudosismo policial. É certo que durante alguns momentos podemos encontrar os habituais facilitismos narrativos, especialmente vincado no capítulo final onde a vontade de agarrar os espectadores suplanta a racionalidade — algo, paradoxalmente, cada vez mais característico neste tipo de enredos. Contudo, espero tratar-se exactamente de uma ferramenta de suporte e não um indício do decréscimo de qualidade dos cinco (espero eu) episódios finais, a estrear em data por confirmar.

Pois, enquanto o original Arsène Lupin nunca fora condenado pelos seus actos, parece existir uma camada de culpabilidade na narrativa da série, na qual pretende responsabilizar Assane pelas suas consequências. Pode ser uma extrapolação, porém, o desfecho do herói promete ser bastante diferente dos restantes contos de “polícias e ladrões” — acrescentando um cariz de repercussões equilibradas entre os intervenientes da trama. Aconteça o que acontecer, no entanto, temos de tirar o chapéu ao desempenho de Omar Sy (maioritariamente conhecido pela sua performance em Intouchables ou Amigos Improváveis em português — como preferirem). A versatilidade do actor francês estabeleceu um quórum de elogios, principalmente, tal como o Lupin original, se adaptar a qualquer personagem, em qualquer circunstância — a destacar, a calma e serenidade como encara (quase) todas as cenas.

Em suma, não obstante nunca ter lido um livro de Maurice Leblanc, lacuna essa que procurarei suprir em breve, a obra da autoria de George Kay parece fazer jus à reputação do cavalheirismo perspicaz de Arsène Lupin. Sem uma maré de clichês e com as habituais reviravoltas, esta recriação de Lupin para tempos modernos é uma agradável surpresa com promessa de entretenimento para uma, ou duas, tardes. Ficarei ansiosamente à espera da dose final — uma estratégia bem jogada pela Netflix.

oitobits

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