Análise a ‘Lupin’ — 2ª Parte

★★★☆☆

Depois de ter escrito sobre a primeira parte de Lupin, senti-me na necessidade de dar continuidade à minha análise ao debruçar-me, agora, pelo segundo conjunto de capítulos acabado de estrear na plataforma da Netflix. Embora também fizesse sentido analisar a série como um todo, o grande intervalo de tempo entre ambas as partes — praticamente meio ano — faz com que seja inevitável estabelecer uma comparação entre os episódios lançados em Janeiro, e estes, em Junho.

O protagonista Assane Diop (Omar Sy) continua com o seu charme à medida que vai escrupulosamente planeando a sua vingança pessoal contra o influente magnata Hubert Pellegrini (Hervé Pierre) e conseguindo salvar-se das incessantes tentativas de captura da polícia. Porém, e não obstante o tratamento de imagem e sonoro, o tom e o modo como a narrativa está construída, se manterem praticamente intactos, parece ter existido agora alguma previsibilidade e conveniência de enredo.

A forma como Diop consegue encarnar os melhores métodos do ficcional Arsène Lupin continuam a ser estonteantes, por vezes, mas, por outras, dá-nos a sensação de haver algo forçado a motivar tais engodos ou escapadas de situações periclitantes. É um misto de sensações complicadas de descrever, mas que se resumem num menor deslumbramento. Talvez porque a primeira parte foi mais impactante e esta, seguindo a tendência, acabou por não arriscar muito; talvez, porque simplesmente faltou, realmente, uma pitada de imaginação na sua concretização.

Saliento o facto de Georges Kay, criador de Lupin, não querer arriscar em demasia. Tendo em conta a audácia dos eventos que antecederam o clímax da primeira parte, esperava outro tipo de evidências arrojadas e surpreendentes na forma como se desenrolam e introduzem novos elementos na segunda metade da trama. Há vários momentos no decurso dos episódios — sobre os quais não entrarei em grandes detalhes para evitar spoilers — que são os espelhos da pouca ambição da segunda parte e reveladores da potencialidade não atingida pelos criadores e produtores da série.

Caso tivessem optado por caminhos mais bravos e trágicos (digamos assim), poderia estar a falar de um tom completamente contra a corrente da série. Porém, caso esses acontecimentos fossem bem justificados, até que ponto estaria a falar de uma obra que, num curto espaço de tempo, se conseguiu reinventar no seu núcleo e modificar atitudes e motivações das personagens? Creio que foi esse o ponto chave em falta na segunda parte de Lupin. Seria possível prosseguir com o objectivo principal da narrativa — vingar a morte do pai de Assane às mãos de Pellegrini — mas, simultaneamente, acrescentar novas camadas ao desenvolvimento das personagens para, no final de contas, criar uma estória mais memorável do que foi.

Não quer isto dizer que Lupin não tenha sido memorável. Entretém dentro das novas realidades do mercado e, tal como mencionei no início, é capaz de continuar a surpreender e causar suspense a espaços. Porém, parece-me termos sido vítimas de um feitiço lançado pela formosura e simpatia de Assane (ou de Omar Sy?), o qual nos deixou com expectativas demasiado elevadas e sobrevalorizar uma série cujo destino já estaria, provavelmente, traçado à partida. Caso ainda não tenham adivinhado, já surgiram notícias a relatar os planos em realizar uma terceira temporada.

Em conclusão, não deixa de ser curioso reler a análise escrita em Janeiro onde mencionei a minha falta de entusiasmo e relutância em ver Lupin, por se assemelhar ao estilo de La Casa de Papel. Chego a questionar-me se estaria longe de saber este desfecho, ou se as minhas suspeitas já seriam, também, um reflexo deste novo modelo que a Netflix aparenta apostar actualmente. Resta saber, no entanto, se o criador, Georges Kay, é capaz de reinventar a narrativa e corrigir os erros desta segunda parte — ou se se manterá na mesma senda da simplicidade e segurança.

oitobits

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