Análise a “The Kominsky Method” — Temporada 3

★★★★★

Quase como ironia do destino, após terminar o meu último artigo onde comparei séries demasiado extensas e saturadas com aquelas cujos criadores e produtores denotavam astúcia para saber terminá-las no momento certo, eis que me deparo com a terceira temporada de The Kominsky Method na Netflix. Acompanhara desde a sua estreia nos finais de 2018 devido ao humor, leveza de enredo e elenco versátil e talentoso — do qual fazem parte Michael Douglas e Alan Arkin — mas nunca seguira de perto os burburinhos dos bastidores, razão pela qual me surpreendi quando me apercebi tratar-se da última temporada. Porém, a forma como Chuck Lorre, responsável pela concepção da série, soube reinventar a narrativa e encerrá-la em seis episódios, com consistência e fluidez para rematar a emotiva mensagem à qual propôs apresentar desde início, faz com que The Kominsky Method saia ainda mais valorizado deste abrupto — mas, sentido — final.

Centrada nas peripécias de um ex-actor tornado professor de representação, Sandy Kominsky (Douglas), a mediar os desafios da terceira idade com a sua irreverência de adolescente, a série sempre se aproveitou da química entre Douglas e Arkin para conduzir um enredo divertido e ressonante em como os personagens aprendem a lidar com o envelhecimento. Contudo — e atenção aos spoilers — logo no primeiro episódio, é nos revelada a morte de Norman Newlander (Arkin), que dá o mote para uma temporada diferente do habitual, na qual The Kominsky Method explora novos prismas da vida de Sandy, bem como das suas relações mais íntimas — e como, finalmente, concretiza os seus maiores, mas improváveis, desejos no mundo da actuação. Se Chuck Lorre parece ter jogado pelo seguro na segunda temporada, a terceira é um autêntica antítese ao introduzir uma lufada de ar fresco numa trama que corria o risco de estagnar — mas que soube encontrar uma vertente mais arriscada para prosseguir o desenvolvimento do protagonista.

Depois de ter fintado tantas vezes o fim e de se ter mantido indiferente e protegido do desaparecimento de outras pessoas na sua vida, o egoísmo narcisístico de Sandy dá lugar a um homem mais solene, enquanto se debela com o luto da perda do seu melhor amigo Norman. Porém, também não significa o fim dos seus habituais trejeitos sarcásticos, pois esses continuam a surgir a espaços, embora com menos frequência, enaltecendo a tal grande transformação do protagonista rumo ao clímax da série. Embora sem a grande alavanca humorística e condutora de The Kominsky Method, a maior proeminência da sua filha, Mindy (Sarah Baker), do seu futuro genro, Martin (Paul Reiser) e da sua divertida ex-mulher, Roz (Kathleen Turner), esta em especial capaz de suplantar a química partilhada por Douglas e Arkin no ecrã, contribuem para a mudança brusca — mas lógica — da narrativa. São elementos que moldam o ‘novo’ Sandy e o auxiliam a prosseguir a sua vida sem um dos maiores amparos. Fornecem a dita consistência ao mantê-lo são (e, por vezes, insano também), mas, especialmente, por manterem viva a máxima da efemeridade da vida e da importância de vivê-la ao máximo, sem arrependimentos e constrangimentos. A questão das relações interpessoais e da morte permanece bastante activa no enredo, embora não afectem Sandy directamente desta vez — talvez outro dos principais pontos de viragem da estória.

Após ter passado por algumas debilidades físicas nas duas temporadas anteriores, agora é a vez do protagonista saber gerir as adversidades alheias, com boa disposição e positividade no meio de tanta angústia. A forma como aprende a lidar com esses dissabores sem grandes contratempos culmina com — novamente, atenção aos spoilers — a sua escolha para protagonista na ficcional adaptação de The Old Man and the Sea, de Hemingway, provando toda a sua capacidade como actor, ao fim de tantos anos. É capaz de se gerir emocionalmente e todas as suas más escolhas de episódios anteriores dão lugar a um homem honroso e de sucesso, finalmente reconhecido pelo seu talento e admirado, não por todos (seria impossível considerando a fama deste Sandy Kominsky), mas por uma larga franja dos seus mais próximos.

Com apenas seis episódios de 25 minutos, a terceira temporada de The Kominsky Method podia ter encontrado enormes dificuldades em comprimir tanta agitação e comoção dentro desse curto espaço. Porém, seguindo uma máxima de simplicidade — a qual Chuck Lorre também consegue espelhar na sua mensagem — a série fecha as cortinas com um final sentido e repleto de emoção. Uma óptima lição para quem teme envelhecer, a vida estará sempre repleta de beleza e divertimento caso duremos 80, 90 ou 100 anos. Só não nos podemos esquecer de moderar certos comportamentos egoístas, ou então corremos o risco de nos transformarmos em Sandy Kominsky nós próprios.

oitobits

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