Análise a ‘The Personal History of David Copperfield’

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Apesar de ter estreado em solo britânico no ano passado, o mais recente filme de Armando Iannucci apenas chegou aos cinemas portugueses em setembro de 2020 como uma das poucas obras que procurou dinamizar as receitas das salas nacionais após a reabertura dos estabelecimentos de entretenimento. Como já podem ter percebido, The Personal History of David Copperfield é (mais) uma adaptação da célebre obra literária de Charles Dickens.

Com um elenco de luxo, do qual fazem parte, entre outros, Dev Patel, Tilda Swinton, Hugh Laurie, Ben Whishaw ou Peter Capaldi, é uma abordagem satírica às peripécias da vida labuta de David. Iannucci mantém intacta a base da estória, benéfico para não perder a identidade, mas acrescenta a sua característica observação irónica no decurso da narrativa, equilibrando um pouco dos dois mundos dos autores. Uma tentativa de encontrar uma agulha de esperança num palheiro de abusos, má sorte e pobreza, diria, algo que Charles Dickens tão bem desenvolveu nos capítulos publicados em meados do século XIX. Promove, assim, momentos de boa disposição, procurando clarear um enredo originalmente nebuloso — em termos de emoções e sensações vividas.

O argumento em si também não foge muito do habitual de Iannucci. Um espaço onde as diversas personagens convergem, trocando impressões e opiniões sobre coloquialismos e trivialidades — muitas das vezes sobre situações alheias à própria narrativa. Tal ajuda a manter um ritmo regular, embora por vezes a constância desses diálogos possa promover algum desinteresse na narrativa, talvez pela falta de ação, e não tanto pela imperfeição dos mesmos. Este aspeto também tem sido característico nas obras de Iannucci — como na recente série Avenue 5 e o seu anterior filme, The Death of Stalin — e embora enriqueçam o desenvolvimento das personagens, fica a faltar uma melhor colocação destes diálogos em dados momentos das narrativas.

Ainda assim, o modo como as personagens são construídas — e, posteriormente, interpretadas por alguns dos mais ilustres atores britânicos contemporâneos, são razões mais que suficientes para merecer dar uma oportunidade ao filme de Iannucci. Dev Patel é um muito convincente David Copperfield, cada vez mais à vontade para assumir o papel de protagonista, como sucedera em Slumdog Millionaire e Lion, e assumir-se como elo para todos os momentos cruciais da narrativa. Hugh Laurie e Peter Capaldi assumem-se naturalmente como os comic reliefs da estória, em papéis cuja experiência assume grande importância para a concretização eficaz dos objetivos a cumprir pelos protagonistas. Estes são, para mim, os destaques do filme, embora também deva voltar a mencionar Tilda Swinton pela preponderância em equilibrar o cómico-trágico, bem como Ben Whishaw por transpirar malvadeza como Uriah Heep, um momentâneo antagonista da narrativa.

No fundo, é mais um trabalho de Iannucci que não se desvia das suas regras enquanto cinéfilo, moldando indivíduos pré-concebidos em personagens idiossincráticas, postas em evidência pelo recorrente tom satírico no decurso das suas vivências. A utilização de atores conceituados é quase uma obrigatoriedade para a eficiente interpretação dos planos para a narrativa do argumentista, e a sua consequente realização. Embora os diálogos tenham qualidade, aquilo que referi anteriormente pode explicar a discrepância entre a receção positiva da crítica e a falta de entusiasmo do público comum.

Apesar de deslumbrar pelos seus visuais e interpretações, a estrutura da narrativa não é a mais benéfica para quem procura um filme de entretenimento puro. O desenvolvimento não está propriamente na ação, mas sim na inércia (mas uma inércia boa) que Iannucci tanto utiliza para conseguir dar um cunho pessoal às suas obras. Eu fico-me pelo meio termo, reconhecendo um trabalho de qualidade na realização e na formulação deste reconto de David Copperfield — mas também entendendo a perspetiva de quem não se deslumbrou com o filme.

Argumento: 80%

Emoção/interesse na narrativa: 75%

Imagem: 90%

Diálogos: 90%

Desempenho do elenco: 95%

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 86%

oitobits

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