Análise a ‘The Trial of the Chicago 7’

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Em Março de 1969 iniciava-se o julgamento dos Sete (originalmente Oito) de Chicago. Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines, Lee Weiner e Bobby Seale estavam indicados por conspiração à violência após participarem em desacatos durante um protesto contra a Guerra do Vietname, em Agosto de 1968, na cidade do estado de Illinois. No púlpito encontrava-se, possivelmente, um dos juízes com maior parcialidade dos Estados Unidos. Este fora designado a moderar a prolongada audiência dos infratores, visando, através todos os meios possíveis, condenar os contraculturalistas a uma extensa pena de prisão, numa clara jogada de interesses políticos.

Os dados estavam lançados e a jogada de Aaron Sorkin, o realizador do filme que retratam os eventos entre 1968 e 1970 dos réus de Chicago, foi, sem dúvida, oportuna. Quer pela importância do conteúdo, quer pela relevância apresentada pela narrativa. Estamos novamente a regredir para uma era onde reina a injustiça e o estatuto fala mais alto. Sempre foi assim — como é aparente na presente estória — porém, é cada vez mais comum a sensação de impunidade quando o poder é posto em causa, mesmo com razão. Embora já tenhamos conseguido atenuar algumas as disparidades, The Trial of the Chicago 7 demonstra em diversos momentos a superioridade de classes, o privilégio e as tensões raciais que, infelizmente, ainda pautam a sociedade em pleno século XXI.

Com certeza que a realização da obra não foi planeada como uma resposta ao clima de tensão vivido atualmente no continente americano, repercutido pelo mundo fora. O argumento escrito por Sorkin já fora elaborado no longínquo ano de 2007, tendo estado arrumado numa gaveta durante mais de uma década. No entanto, pode-se afirmar que com o deteriorar do ilusório pacifismo global, o realizador norte-americano escolheu lançá-lo numa altura onde as inquietações sociais estariam prestes a estrondar. Todos os eventos que antecederam a estreia de The Trial of the Chicago 7 na Netflix podem ser interpretados como uma coincidência tendo em conta o propósito adjacente à produção do filme.

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Pois, quais os melhores ingredientes para publicitarem e atribuírem magnitude a uma narrativa política, com um teor de alerta social, como o movimento Black Lives Matter, as manifestações e brutalidade policial daí precedidas, bem como também as ondas de protestos a governos autocráticos pelo mundo fora? Ironia do destino, possivelmente, mas deixem-nos dar azo à nossa imaginação para acreditar numa predição de Sorkin. Não seria difícil de adivinhar tendo em conta o contexto mundial.

Ora, The Trial of the Chicago 7 é, precisamente, uma mistura de conjunturas políticas e sociais convergindo maioritariamente num campo de ação teoricamente inerte — o supramencionado julgamento. No entanto, nem sempre tramas sucedidas em tribunais significam automaticamente em chamados snorefests, onde o aborrecimento paira e o desinteresse acumula-se devido ao complexo léxico da advocacia. A série American Crime Story outrora focada no caso de OJ Simpson é um exemplo dessa exceções, de tal forma que o presente filme não só tem algumas semelhanças quanto às peripécias passadas em sessão, como também acrescenta uma camada mais humana para criar personagens empáticas. Tal só é possível graças ao trabalho conjunto de Sorkin e do elenco luxuoso cujas atuações acrescentam relevo aos protagonistas e facilitam a transmissão da mensagem essencial.

No fundo, e não obstante o objetivo maior de prejudicar os arguidos, manipulando as decisões do júri desfavoravelmente, The Trial of the Chicago 7 não procura conotar ninguém de herói, nem de vilão. Simplesmente, ninguém está isento de culpas, nem é possível confirmar a presença de atitudes moralmente corretas em cada um dos julgados. Há um tratamento imparcial e minucioso dos célebres sete (ou oito) cujas histórias de fundo nos auxiliam a desenhar a compreensão dos seus percursos ou motivações.

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Os desempenhos exímios dos intervenientes são determinantes na execução das tão labirínticas personalidades, gerando um misto de sensações na audiência perante as suas condutas no decurso da narrativa. Além disso, os diálogos inteligentemente intensos, bem como a estrutura da narrativa, alternando entre os vários momentos marcantes da trama, permitem maior motivação e investimento no filme, além de adornar o paradigma contracultura/conservadorismo democrático com maior relevância.

Num ano tão atípico onde os adiamentos têm sido a predominância na Sétima Arte, The Trial of the Chicago 7 promete ser um dos destaques quando chegar a hora de galardoar os principais intervenientes cinematográficos de 2020. De Sacha Baron Cohen a Eddie Redmayne, passando por Jeremy Strong, Frank Langella, ou Mark Rylance, e não esquecendo o papel considerável de Yahya Abdul-Mateen II. Este elenco certamente dará muitas dores de cabeça à Academia para (possivelmente) escolher uma lista de nomes candidatos a receber o prémio que recompense o merecido esforço por encarnarem personagens tão complexas.

O próprio argumento, imagem e guarda-roupa também não devem ser esquecidos, nesta intervenção social que presta homenagem a um dos mais célebres eventos ocorridos na presidência de Lyndon B. Johnson. Assim, mergulhamos autenticamente no final dos anos sessenta durante praticamente duas horas sem nos apercebermos de termos deixado, alguma vez, o ano de 2020, tais as semelhanças com o atual contexto global. Numa nota pessoal, se há filme que adoraria ter assistido numa sala de cinema, esse seria The Trial of the Chicago 7. Dadas as circunstâncias, não me posso queixar muito.

★★★★★ — The Trial of the Chicago 7

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