“Annette”, uma “espécie” de quase tudo

Maria Pinto
Jul 15 · 4 min read

“Annette”, novo filme de Leos Carax em colaboração com Ron e Russell Mael dos Sparks, começa com uma premissa bastante direta: os seus atores e criadores irão cantar e morrer para nós em tons menores. Isto é estipulado no primeiro número musical do filme, onde aparece Leos, a sua filha, os Sparks, Adam Driver, Marion Cotillard e Simon Helberg, a cantar-nos essas palavras, enquanto acrescentam noutras estrofes frases como: estamos pouco preparados mas pode ser o suficiente, o orçamento é grande mas não é o suficiente (“They’re underprepared but that may be enough, the budget is large but still, it’s not enough”). No final deste número, cada um segue para os seus respetivos lugares que irão interpretar dali para a frente. Adam Driver começa a guiar uma mota como Henry McHenry, um comediante com uma audiência estabelecida e em digressão com um espetáculo chamado “The Ape of God” e Marion Cotillard desloca-se para dentro de uma limusine e interpreta o papel de Ann Defrasnoux, uma cantora de ópera famosíssima. Os criadores desaparecem para trás das câmaras e Simon Helberg desaparece para aparecer depois como “The Conductor”, pianista e maestro de Ann. Com este início estabelecido, poderíamos pensar que “Annette” é um comentário à fama ligada à criação artística, o que significa ser artista, onde este termina e começa a sua arte (pois todos eles interpretam algo que não são), os sacrifícios que os artistas fazem perante esta noção de fama na sociedade atual. Estaríamos certos em pensar que o filme poderá ser sobre isso, no entanto, seríamos ingénuos se não aceitássemos que esse pormenor é apenas uma migalha pequenina nas duas horas que se seguem. E, bem, esses minutos seguintes vão apresentar uma parafernália de temas, estranheza e, principalmente, confusão.

Henry e Ann estão perdidamente apaixonados, mas nós não temos o direito de conhecer este passado, este encontro, pois assim que o filme começa as personagens já se encontram numa relação. As suas carreiras, embora diferentes, são seguras, apesar de Ann ser bastante mais famosa nos media (que intitulam o casal como “Beauty and the Bastard”). Henry parece incomodado com estas pequenas diferenças, pois comenta bastantes vezes no seu espetáculo que o seu papel é fazer as pessoas morrer (de riso) e que o papel de Ann é morrer (sendo uma mulher a interpretar papéis de ópera).

Estas divergências vão ficando cada vez maiores após o nascimento da filha do casal, Annette, que desde o início mostra ser uma criança especial. Como sinto que esta é uma grande caraterística do filme, não irei revelar a especialidade da personagem de Annette neste texto.

“Annette” é um musical, mas não é um musical qualquer. As músicas não são sentimentais, causam por vezes estranheza, pois as suas letras são repetitivas e as melodias não são previsíveis. Os atores cantam ao vivo, lembrando por vezes de forma muito ligeira a sonoridade de “Les Misérables” (de Tom Hooper).

Não é dado muito espaço para conhecermos as personagens detalhadamente, sendo que acabamos por conhecer de forma mais tridimensional, embora muito à superfície, a personagem de Adam Driver. As restantes são bastante simples, por vezes “abonecadas”, de uma maneira quase teatral. Todo o filme se faz sentir como uma peça de teatro por vezes, quebrando em alguns momentos a quarta parede. A personagem de Ann não é muito aproveitada, estando apenas perante a perspetiva de um olhar masculino, quer seja o olhar de Henry, do realizador, de um espectador… As suas convicções, crenças, motivações são colocadas de parte, fazendo com que a falta de tridimensionalidade atinja uma sensação negativa na sua personagem. A colocação de temas como o “#Metoo”, que não sabemos se é um sonho de Ann ou uma realidade, é descartada logo no início, parecendo algo sem conexão com o resto da estória.

Adam Driver cria uma personagem fascinante mas ao mesmo tempo odiável. É difícil perdoar os seus erros, mas ao mesmo tempo percebemos, de uma forma inexplicável, o amor que sente por Annette.

A história é simples, por vezes um pouco “atabalhoada”, as imagens que o filme cria são lindas e complexas. Esta seria uma das maneiras mais simples de descrever este filme. Os temas da fama e da criação artística acabam por não se tornar muito relacionáveis e por vezes caem numa vertente mais elitista. É difícil percebermos Henry e Ann na totalidade, essa ideia de fazer todo um público morrer (a rir), ou salvá-los (por morrermos como personagem); essa ideia de desespero por aprovação, pois quem cria tem obrigatoriamente de ter um público que receba a obra.

“Annette” tem por vezes uns laivos folclóricos, bebendo de contos de fadas como a Branca de Neve, a Pequena Sereia e até mesmo o Pinóquio. Este contraste de familiaridade com imagens macabras acaba por ser a beleza do filme. A nível de história, poderemos dizer que a segunda parte do filme funciona muito melhor, pois a estrutura está apenas interessada em seguir um objetivo principal, bastante específico e interessante (até original) de relação entre pai e filha vs artista e talento. A primeira parte, que acaba por dar o tom a todo o filme, é confusa, com muita informação mas sem sentirmos que estamos a ir para algum lado.

Por vezes não sabemos se devemos rir, se o propósito é fazer rir, levar alguma coisa a sério, ou se não estamos a perceber as referências do realizador. As cenas de stand-up de Henry efetivamente não têm piada (é suposto não terem?). Este género de dúvida prolonga-se durante toda a estória, tornando-a ainda mais desconfortável. É sem dúvida um filme para se ver uma segunda vez, pois de certeza que escaparão pormenores na primeira visualização. Nem todas as pessoas vão gostar, mas ao sairmos do cinema conseguimos lembrar-nos das primeiras palavras de sobreaviso proferidas pelos artistas na primeira canção. O que eles prometeram, cumpriram.

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