As Crónicas do J-Horror: Episódio XIV — ‘The Guard From The Underground’ (1992)

Ivo Nunes
Ivo Nunes
Feb 19 · 5 min read

★★★☆☆

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The Guard From The Underground, também conhecido como Security Guard From Hell, foi coescrito e realizado por Kiyoshi Kurosawa, o lendário cineasta japonês responsável pelos clássicos Cure e Pulse, e cujos destaques de carreira poderão ler no episódio XIII, a análise a Sweet Home, de 1989.

Há semelhança do seu trabalho em Sweet Home, The Guard From The Underground presta uma vez mais homenagem aos filmes de terror ocidentais dos anos 70 e 80, apresentando-se como um slasher sangrento que trás, no âmbito da cultura japonesa, técnicas usadas no cinema ocidental, com influências mais notáveis de Halloween, de John Carpenter.

Akiko Narushima, interpretada por Makiko Kuno, é uma consultora de arte contratada como especialista para a Akebono Company, uma empresa ainda em expansão com um novo departamento que compra e vende obras de arte famosas.

Coincidentemente, o seu primeiro dia é também o primeiro do novo segurança, um ex lutador de sumo com quase 2 metros chamado Fujinomaru (Yutaka Matsushige), que havia escapado à condenação por ter assassinado duas pessoas, alegando insanidade, e cuja investigação foi recentemente reaberta pela polícia.

A sua presença e estranho comportamento é notável para todos à exceção das chefias, o Sr Kurume (Ren Osugi), responsável pelo novo departamento, e o Sr Hyodo (Hatsunori Hasegawa), o diretor de recursos humanos. No entanto, a situação começa rapidamente a escalar quando FujinomaruAkiko a partir das câmaras de vigilância e torna-se subitamente obcecado pela mesma, começando a persegui-la de formas pouco subtis.

Com o caso reaberto e a polícia decidida a prender Fujinomaru, não lhe resta muito tempo para criar o caos que a sua mente perturbada anseia, dando-se o início de um festival sangrento e repleto de toda a ação e morbidade que um slasher exige.

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The Guard From The Underground é um estudo de caso interessante e uma influência da época económica e social que se vivia no Japão nesta altura, abordando o ambiente predador empresarial de forma satírica e não demasiado séria, e apresentando também muitos dos elementos que tornaram Kiyoshi Kurosawa popular na arte do J-Horror.

Todo o filme desenrola-se nas instalações da Akebono Company, e não conhecemos muito das personagens sem ser a sua postura profissional, que, muitas vezes, pouco profissional é. Akiko vê-se obrigada a lidar com um ambiente de trabalho tóxico, e um conjunto de chefias que passam por um Sr Kurume que a assedia com a desculpa de que precisa de assistência para aplicar uma injeção de insulina, mas que na prática traduz-se em atrair Akiko para uma sala e baixar as calças sem cerimónia; um diretor de recursos humanos que insulta todos os seus funcionários, e um conjunto de estranhos salarymen que tratam Akiko com desdém.

Adicionalmente, é um filme de série-B concebido durante um período em que várias produtoras japonesas estavam falidas, e as apostas cinematográficas no terror resumiam-se muitas vezes a filmes de baixo orçamento que exigiam uma gestão cirúrgica de recursos. Kurosawa conseguiu tirar o máximo de proveito disso, com uma utilização muito económica dos planos, e ações prolongadas nos mesmos que poupam tempo e recursos, avançando a narrativa em takes únicos que dispensam uma câmara fixa.

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Alguns dos elementos presentes que popularizaram o terror de Kurosawa em obras futuras passam pelo ambiente e atmosfera, que revelam algumas parecenças ao trabalho desenvolvido com a imagem em Pulse (2001)são muito negros, mesmo em locais menos convencionais como os escritórios de uma empresa, e a combinação entre realização, direção de arte e fotografia (de Kenichi Negishi), ajudaram a criar uma sensação de claustrofobia e de miséria, especialmente durante a porção do filme que ocorre durante a noite. O uso da luz e cor são muito singulares, com uma iluminação conjunta de cores amarelas e verdes baças que, apesar de em teoria não soarem bem, aderem ao ambiente e atmosfera do filme, acrescentando-se ainda uma pegada de realização bastante idêntica a Sweet Home.

No som, ainda que com algumas falhas na montagem e mistura, o que se destaca é a banda sonora, de Yuichi Kishino e Midori Funakoshi, que demonstra uma composição instrumental variada, rítmica, e por vezes ligeiramente psicadélica, com pequenas porções que relembram melodias de anime, e que neste filme tem um papel tão crucial como a luz e atmosfera.

A escolha do elenco e décours para esta longa metragem foi promissora, principalmente Yutaka Matsushige (Fujinomaru), um homem muito mais alto que os seus colegas de set e cujo físico dentro das paredes curtas do edifício fá-lo parecer um autêntico gigante, com o seu tronco por vezes ocultado pelo escuro, e uma força bruta que relembra o Michael Meyers.

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Apesar de um bom antagonista e uma estrutura narrativa que honra os slashers dos anos 70 e 80, o trabalho de desenvolvimento de personagens e diálogo ficaram aquém de toda a vertente técnica, assim como da violência a que assistimos e que é tão imperativa para este subgénero. Muitas das comunicações entre personagens são pouco orgânicas ou naturais, provavelmente devido à representação satírica pretendida, assim como pequenas ações inesperadas que tomam e que acabam caricatamente por nos apanhar desprevenidos.

Ainda assim, num slasher é comum uma maior valorização da kill count do vilão e a sua criatividade ao atacar ferozmente as suas vítimas, o que nesta longa acaba por ser mal aproveitado. O filme é violento, sem dúvida, no entanto a maioria dos assassínios de Fujinomaru são algo genéricos, com a exceção de um que realmente faz um uso mais adequado da sua perícia atlética, quando enterra uma das suas vítimas num cacifo e o desfaz com placagens e força bruta, como se fosse uma garrafa de plástico antes de ir para a reciclagem!

Para quem assistiu aos seus clássicos J-Horror e é fã do trabalho de Kiyoshi Kurosawa, The Guard From The Underground é uma experiência muito interessante que demonstra um cineasta ainda a desenvolver-se como autor e criador, e é mais uma raridade que merece ser restaurada.

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