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Este artigo foi adiado para 2021

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Depois de novo adiamento da estreia de No Time to Die, o vigésimo quinto filme da saga James Bond, os cinemas ficam, provavelmente, sem o grande blockbuster que iria encher — na medida do possível — as sessões até ao final do ano.

Trata-se da enésima mudança neste atípico ano de 2020. Compreensível dadas as circunstâncias, onde a preocupação pela saúde pública ocupa um lugar de destaque, a incerteza abunda e a relutância em permanecer duas horas num espaço fechado é constante. Porém, não obstante a validade destes argumentos, levanta-se uma questão maior. Os cinemas estão abertos, oferecem condições de segurança e, como qualquer outro estabelecimento, desesperam por clientes que lhes permita sobreviver a curto prazo. Portanto, qual a razão de prosseguir com esta tendência de adiar filmes até 2021, onde a resolução do problema pelo qual atravessamos nem está garantida?

Como já podem ter adivinhado, trata-se de uma perspetiva de retorno. Algo que, nesta fase, é uma miragem para as grandes produtoras e estúdios de Hollywood, cujo financiamento das suas obras continua a rondar valores estratosféricos. Após testemunharem os resultados de Tenet, cujas bilheteiras geraram receitas de cerca 280 milhões de dólares — apenas 80M mais que o orçamento total — percebe-se a preocupação em lançar filmes de elevado custo numa fase onde não há a tal garantia de retorno. Para se ter uma ideia, o próprio No Time to Die contou com um orçamento de 250 milhões. Comparando com os valores obtidos pela obra de Christopher Nolan, estrear a nova aventura de James Bond em novembro, como planeado, seria um risco para as distribuidoras do filme, MGM e Universal. Além da dubiedade de bilheteira, os custos de marketing e promoção do filme, provavelmente o dobro de Tenet, também podem ter pesado nesta decisão. Por estes motivos também se justificam os sucessivos adiamentos de Wonder Woman 1984 e Black Widow, para dezembro deste ano e maio de 2021, respetivamente. Ainda assim, não me surpreenderia se a DC anunciasse nova data caso o ritmo de contágios não abrande ou sejam postas de parte possibilidades de confinamento.

Contudo, estas medidas podem colocar em perigo a continuidade de alguns cinemas, ou mesmo da própria modalidade de entretenimento tal como a conhecemos. É um assunto delicado, com várias camadas de moralidade a cobrirem-no. Por um lado, temos as contingências de saúde pública; por outro, a necessidade de sobreviver. Infelizmente, a pandemia veio provar ser um desafio maior conseguir conciliar ambas as vertentes, numa crise sem precedentes onde tem sido mais recorrente criticar do que solucionar. Esta dependência mútua tem passado por algo bastante semelhante. Com o foco unilateral no lucro, as distribuidoras/produtoras têm descartado cimentar as suas relações com os cinemas para, conjuntamente, poderem chegar a um consenso quanto ao modelo a adaptar em tempos circunstanciais. Os cinemas, esses, têm mostrado alguma resiliência. Voltaram a trazer para as salas filmes mais antigos, com algum culto, chamando de novo o público, de forma a provar reunirem as condições de segurança necessárias para desfrutar uma sessão tranquila. No entanto, acabam por sofrer efeitos colaterais da resistências das distribuidoras e produtoras à mudança — cada vez mais acentuada pela pandemia — cuja unilateralidade pode comprometer o futuro dos cinemas.

A única certeza é a de ambos não estarem imunes ao crescimento das plataformas streaming. De ano para ano surgem mais opções, com catálogos variados, e muitas empresas têm optado por um tipo de público-alvo diferente. Se a pressão já era imensa, agora intensifica-se como nunca antes visto, pois a acessibilidade e o conforto são primordiais para o sucesso deste modelo de negócio nesta fase. No entanto, apesar destas iminentes ameaças, basta evocar o poder detido pelas grandes distribuidoras e produtoras, bem como a sua capacidade financeira, para justificar a tal relutância em modificar a forma como comercializam o seu produto. Provavelmente, estas conseguirão adquirir empresas que lhes preencham lacunas ou, no futuro, criar uma aglomeração de serviços streaming, aniquilando uma boa fatia dos seus concorrentes. Contudo, não é um dado adquirido. Ainda assim, sejam quais forem as opções, os cinemas, principalmente os mais pequenos, saem a perder.

Ao estarmos inseridos numa cadeia de valores, os seus participantes deviam ter um papel colaborativo para encontrar soluções viáveis benéficas para as duas partes, algo que tem faltado ultimamente. Os cinemas estão à mercê das ostentações das grandes produtoras, cujo sentimento parece de olhar internamente, para os seus objetivos, e não procurar um bem comum para a continuidade do seu modelo tradicional a longo prazo. Eu continuarei a optar por ir a salas de cinema sempre que possível. Apesar de também ter sucumbido às tendências da Netflix, HBO ou Amazon Prime, possuo também um grande carinho por esta forma tradicional de ver filmes, devido à sua experiência imersiva e inigualável. Aliás, estes motivos fazem-me acreditar que este formato não vai desaparecer. É um hábito das nossas vidas e uma paixão para muitos. Se o modelo por trás pode sofrer alterações? Pode, e deve, fruto das alterações vistas na década passada. Daí ser importante a colaboração entre os grandes magnatas de Hollywood com estes estabelecimentos — pois se ficarmos sem cinemas, como conseguirão estas empresas continuar a sonhar com os seus tão preciosos lucros?

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Entretenimento e Tecnologia

Guilherme Martins de Freitas

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