In the Mood for Love e o poder do “quizas”

Maria Pinto
May 6 · 4 min read

Após 20 anos, é uma sorte podermos ter In The Mood for Love a circular pelas salas de cinema. Realizado por Wong Kar-Wai em 2000, In The Mood for Love é o segundo filme da trilogia do cineasta (começando com Days of Being Wild e acabando com 2046) mas cada filme pode ser visto de forma completamente independente.

In the Mood for Love conta a história de dois recentes vizinhos (Sra. Chan e Sr. Chow) que vivem num prédio bastante barulhento e que descobrem que os seus respetivos parceiros estão a ter um caso amoroso um com o outro. Após a descoberta, e a lidar com a recente traição, os dois vizinhos começam a tentar perceber em conjunto como é que o caso dos parceiros poderá ter começado.

Durante todo o filme temos acesso a diversos planos onde observamos estas duas personagens quase como se fôssemos outros habitantes do prédio onde vivem. Ao início estranhos, esses enquadramentos especiais — que colocam as personagens atrás de uma estrutura de uma porta, no meio de um restaurante ocupado, atrás de um vidro, de uma janela, ou de uma rua pouco movimentada — rapidamente se tornam compreensíveis e completamente belíssimos. Observamos dois humanos que começam a criar uma relação entre eles que depressa se desenvolve para algo romântico, mas que está condenada, incapaz de ser realizada dadas as circunstâncias que os colocam nessa posição. É irónico pensar que esse cenário é somente causado pela tentativa de compreensão da traição dos respetivos parceiros, e como Sra. Chan e Sr. Chow, embora apaixonados, se recusam a trair, a ser iguais aos seus companheiros. Estes sentimentos secretos que não podem ser revelados são observados nestes enquadramentos em que as personagens se prendem, dando uma sensação de estarem constantemente a ser observadas e julgadas por nós e, com o avançar do filme, pelos próprios senhorios, o que aumenta a ideia de que estas personagens não podem agir segundo os seus verdadeiros sentimentos.

É ao tentarem encenar o começo da traição, em que Sr. Chow encarna Sr. Chan seguindo as indicações de Sra. Chan, e Sra. Chan encarna Sra. Chow seguindo as indicações de Sr. Chan, que estas personagens vão tornar a sua relação perversa, dolorosa, algo que irá crescer para um cenário irrealizável. O que começa por ser uma solução encontrada para apaziguar e tentar compreender uma dor, acaba por ser o verdadeiro tema do filme: um amor condenado, repleto de desencontros, que tenta recuperar a memória daquilo que já não é. Este é também um dos pontos que torna o filme relacionável: todos nós decidimos por vezes sossegar sentimentos, mesmo sabendo que talvez seguir esse caminho nos torne imensamente mais felizes. Mas esse cenário, e todas as circunstâncias, as nossas e as que nos rodeiam, está e sempre estará condenado.

O espectador terá de estar atento, pois o filme é um jogo constante de “quem é quem” e reinterpretação de papéis. Em muitas das cenas não conseguimos perceber se Chan e Chow estão a fingir ser o parceiro ou se são eles mesmo, falando sinceramente. Algumas vezes só nos apercebemos a meio, pois eles quebram a fachada para se corrigirem um ao outro, ou incapazes de suster a dor. Os próprios parceiros em traição nunca aparecem, e podemos apenas vislumbrar as costas da mulher e a voz do homem sem nunca sabermos as suas feições.

A repetição também é um ponto importante a referir. Wong Kar-Wai tem apenas um número limitado de localizações que mostra, sendo que nunca chegamos a ver nenhuma delas na totalidade, apenas apontamentos. Também vai utilizando sempre as mesmas músicas, e nesse aspeto destacam-se: Yumeji’s Theme (a icónica música do violino) de Shigeru Umebayashi, Aquellos Ojos Verdes e Quizas Quizas Quizas de Nat King Cole. Esses acompanhamentos musicais estão numa sintonia tal com o filme que muitas vezes ficamos desiludidos com a interrupção abrupta da música.

As músicas são muitas vezes acompanhadas por partes do filme em slow motion, onde Chan e Chow trocam olhares. Estes aspetos que causam em nós a ideia de repetição fazem-nos sentir a passagem do tempo, que nunca sabemos qual é, pois não temos maneira de medir quanto tempo passa entre cada interação. Dão-nos uma sensação de retorno, de rotina, como se voltássemos sempre a casa, mas poderão também trazer a sensação de exaustão, frustração e tensão entre as duas personagens.

É um filme para ver várias vezes, sem nunca cansar, pois quantas mais vezes virmos mais nos vamos apercebendo de todos os elementos que nos tinham escapado. É algo inteligente, com diversas interpretações e significados, para sempre surpreendente.

Na última parte do filme somos levados a observar um maior período de tempo, quando as duas personagens deixam de ser vizinhas e acabam por viver diversos desencontros. Com isso estabelecido, o filme ganha uma carga de nostalgia diferente, pois tudo o que acontece antes parece ser uma memória compreendida naquele período e naquele espaço, algo que as personagens tentam sem sucesso recuperar. Como a música de Nat King Cole que ouvimos diversas vezes, Quizas Quizas Quizas, fica no final a imaginação desse cenário impraticável, e acabamos o filme a perguntar como poderiam ter sido estas vidas se as escolhas das personagens tivessem sido diferentes.

oitobits

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