“Mais Uma Rodada”||Beber a Vida

Um filme sobre um conjunto de amigos que decidem experimentar viver a rotina diária sob o efeito do álcool pode parecer um pouco disparatado, mas o olhar de Thomas Vinterberg é tudo menos simplista. “Druk”, no original, não é óbvio e mostra que é preciso esperar para ver.

Cátia Santos
May 12 · 4 min read

A premissa inicial de “Mais Uma Rodada” baseou-se num certo grau aceitável de alcoolismo jovem que a sociedade dinamarquesa permite e até incentiva.

Uma experiência social transformada em filme era o que seria de esperar, mas na realidade trata-se de muito mais do que isso. Pode arriscar-se mesmo que “Mais Uma Rodada” vá exponencialmente mais além do simples filme de amigos de meia-idade que se embebedam.

Esperar-se-ia, talvez, uma alegre e divertida experiência em que no final todos se abraçam e provam castas diferentes, riem muito, eventualmente alguém tropeça ou chega a casa de madrugada e derruba uma jarra. Em parte, isso acontece, mas é uma trapaça deliciosamente ardilosa, porque muitas outras lições a retirar, se assim se quiser.

O grupo de amigos “experimentalistas”

“Mais Uma Rodada” é, sobretudo, um filme intensamente humano, próximo, gira muito em torno da atuação magnetizante de Mads Mikkelsen, que trata o seu personagem com uma dedicação extrema. Um actor que sabe os tempos certos, a respiração de Martin no momento certo, sabe como fazer crescer um homem que em tudo apenas soa aborrecido e há muito adormecido.

Começa por mostrar a vida rotineira das famílias, homens, mulheres, adolescentes, que estão entre a escola, o trabalho, os turnos, o descanso dos gestos que se repetem, a segurança de se regressar a casa e saber o que se espera.

Um dia, dá-se o despertar, que tem por base uma experiência supostamente científica em que os amigos se mantêm embriagados ao longo do dia, incluindo durante o período de trabalho. Não podendo exceder um certo limite de álcool no sangue, não podendo beber depois das 20h00 ou ao fim de semana, rapidamente esses limites vão ser ultrapassados.

Filmagens de “Mais uma Rodada”

Dentro e fora desses limites, de facto, a vida começa a acontecer, as tensões desaparecem, a criatividade volta, as conversas fluem melhor e tudo parece correr tão bem que ninguém vê inconveniente em aumentar a dose.

O caos instala-se inevitavelmente nas vidas de todos os intervenientes, mas é o desejo de mudança e ânsia de voltar a sentir o sangue a correr nas veias que move todos os personagens do filme.

Em última instância, “Mais Uma Rodada” é uma ode brutalmente sincera à vida, mesmo que a meio das filmagens a morte tenha atingido o filme, o que torna ainda mais significativa a experiência de o ver.

Ida, a filha do realizador, foi a inspiração assumida para o filme e o seu desaparecimento é conhecido, acabando por ganhar contornos quase proféticos, desafiantes, em que um filme deixa de ser apenas um filme, é uma vida, é uma luta, uma faca, um apoio, dentro e fora dos cenários.

Thomas Vinterberg, o realizador

Seja por esse motivo ou outros, “Mais Uma Rodada” transpira vontade de viver, salta, dança, causa caos, cai no chão em coma alcoólico, grita, parte a louça. Definitivamente, a morte que advém da segurança faz esquecer como é saltar para o desconhecido e aqui o salto para o desconhecido fica em suspenso.

Cabe a quem vê o filme decidir o que vem a seguir, o fim é aberto, deixa o espectador a olhar para o horizonte, incrédulo, não sabe se toda aquela embriaguez inicial era tão boa como a que se segue.

Embriaguez alcoólica que se transforma na maior das sedes pela vida, bebida em enormes golfadas, sem limites, cheia de excesso, longe do silêncio, das palavras que se não dizem, daquilo que não se sente.

“Mais Uma Rodada” é sincero, directo, sem rodeios. Não tem receio de tocar nos pontos onde não é suposto tocar, se fosse uma pessoa seria aquela incómoda que faz as perguntas certeiras e desconfortáveis, mas fazem avançar o pensamento, o carácter.

Ao invés de enveredar pelo caminho do julgamento “Mais Uma Rodada” é compreensivo sem deixar de ser cruel e verdadeiro. Emotivo, não se perde no sentimentalismo ou facilitismo de fórmulas pré-concebidas e, em parte, esse é um dos seus maiores atractivos.

Mads Mikkelsen como Martin

E é uma alegria imensa sobretudo observar a mestria com que Mads Mikkelsen, de forma subtil, arranca uma interpretação ao mesmo tempo quieta e discreta e absolutamente fulgurante, digna de um dos melhores filmes deste (outra vez) estranho ano de 2021.

Estreou em Portugal a 29 de Abril, está bem vivo e recomenda-se.

Classificação: ★★★★

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