Teste a ‘Tennis World Tour 2’

Ricardo Tarré Gomes
Sep 28 · 6 min read
Image for post
Image for post

O ténis é provavelmente o desporto individual mais popular do mundo. Praticado de forma recreativa por milhões de jogadores por todo o globo, é também uma modalidade desportiva que pode ser jogada em equipa, na variante de pares. Foi talvez seguindo esse espírito que a australiana Big Ant Studios, produtora e distribuidora de ‘AO Tennis’ e da sua sequela, se juntou à equipa da francesa Nacon (ex-Bigben Interactive), previamente responsável pelo jogo rival ‘Tennis World Tour’. Confuso? Para quem está familiarizado com os videojogos de futebol, é como que a Konami aceitasse produzir para a EA Sports o próximo jogo da série ‘FIFA’, em detrimento da sua própria franquia ‘PES’. A ambição de criar o melhor jogo de ténis de sempre foi assumida mas será que foi bem-sucedida? Tal como dentro do court, vamos por pontos.

Jogabilidade

O primeiro título da série, de 2018, foi desenvolvido pela Breakpoint Studio. Com a substituição pela Big Ant, todo a mecânica de jogo foi redesenhada e a jogabilidade é, obviamente, muito diferente da do jogo original. Em ‘Tennis World Tour 2’ (TWT2), o timing com que atacamos a bola é tudo. Continuamos com os quatro tipo de pancadas principais ao nosso dispor mas, desta vez, temporizar bem o contacto com a bola pode ditar o final de uma jogada com um winner ou com um erro não forçado. Para além disso, temos uma diferença entre pancadas em força ou mais em colocação mas o momento da pancada é mesmo fundamental para o sucesso. É algo de novo para um jogo de ténis e seguramente um passo certo na busca de um maior realismo mas a curva de aprendizagem desta mecânica é assinalável e requer muita prática, especialmente jogando em níveis de dificuldade mais exigentes.

Licenças

O jogo anterior tinha Roger Federer como incontestável cabeça-de-cartaz no seu lançamento e nenhum torneio licenciado. Em Maio de 2019 saiu uma actualização paga chamada ‘Roland-Garros Edition’ que incluía os três courts principais do Grand Slam francês e o recordista absoluto de títulos do mesmo, Rafael Nadal. ‘Tennis World Tour 2’ volta a contar com os dois velhos rivais, entre 38 jogadores licenciados disponíveis. Relativamente ao circuito masculino (ATP), destaca-se a presença de 8 jogadores do actual top 10 mundial (sem Novak Djokovic mas incluindo, por exemplo, o mais recente vencedor do Open dos Estados Unidos, o austríaco Dominic Thiem). No que diz respeito ao circuito feminino (WTA), destaca-se a inclusão da actual líder do ranking, a australiana Ashleigh Barty e a promissora norte-americana Coco Gauff. A nível de courts e torneios oficiais, para além de Roland Garros, o jogo inclui os recintos principais do Open de Madrid e de Halle e o torneio Tie Break Tens. De referir que ‘TWT2’ está disponível em duas edições distintas e este último conteúdo só estará disponível na versão ‘Ace Edition’ (que inclui um passe anual com novidades futuras prometidas).

Gráficos

Graficamente, o jogo está longe de ser deslumbrante e aprimorado, apesar de alguns bons apontamentos na recriação dos conteúdos licenciados. Nadal, por exemplo, tem o seu ritual de serviço e pose de recepção bem distinguíveis mas as suas pancadas, celebração de pontos ou demais movimentações são padronizadas como as de todos os outros. Este é, aliás, um problema importado de ‘AO Tennis’, com o movimentos dos jogadores por vezes a parecer demasiado brusco e até ridículo, como no caso das pancadas em volley junto à rede num jogo de pares com parceiros comandados por inteligência (ou falta dela) artificial, resultando num frenético bate-bola tipo ping-pong. As trocas de bola no fundo de court são, no entanto, o oposto, com o já referido timing a proporcionar fluidez e mais realismo na pancada. A técnica de amorti precisa de um acerto, não tanto na eficácia mas na elegância do movimento. Relativamente às animações, notam-se várias deficiências que se esperam ser corrigidas de futuro. Quando um tenista finaliza um jogo (match), muitas vezes a animação mostra-o a preparar-se para o próximo ponto em vez da reacção natural de iniciar um novo. Além disso, um jogador destro por vezes é mostrado a preparar o serviço como se fosse canhoto e vice-versa. Curiosidade ainda para o facto de o árbitro de cadeira não mexer a cabeça a cada troca de bola, parecendo não estar interessado em seguir a partida.

Som

A Nacon prescindiu dos serviços de John McEnroe, que assegurava os comentários das partidas (para além de estar presente como jogador “lenda”) no jogo original e não se sente muito a sua falta. Os mesmos eram muito repetitivos e por vezes pouco acertados, pelo que agora as partidas têm apenas o som ambiente próprio de um jogo de ténis assistido ao vivo e o mesmo está bem conseguido. Alguns jogadores têm o seu berro característico mas há a registar uma falha embaraçosa: quando um jogador comete falta no serviço, o adversário, mesmo sem se fazer à bola, berra como se tivesse respondido com uma pancada.

Modos de jogo

O modo exibição apresenta, pela primeira vez na franquia, a opção de jogar uma partida de pares, com a opção até quatro jogadores locais. A opção torneio permite jogar o licenciado Roland Garros, criar o nosso próprio torneio personalizado ou participar no Tie Break Tens, um formato de ténis em que apenas são jogados tie-breaks (sem jogos ou sets) e que ganha quem chegar aos 10 pontos e com uma margem de dois. Este torneio oficial, que tem sido jogado todos os anos desde a sua criação, em 2015, é uma das boas novidades de ‘Tennis World Tour 2’ e um modo perfeito para quem quer fazer um torneio rápido e com pouco jogos. É possível escolher até quais os oito participantes a marcarem presença. O tutorial ‘Academia de Ténis’ volta mais uma vez, ensinando e ajudando a dominar qualquer um dos diferentes tipos de pancada, seja de resposta ou serviço. O modo online está disponível tanto para partidas casuais como para encontros de ranking, em que iremos confrontar a nossa habilidade com a de outros no objectivo de alcançar as ligas superiores. Por fim, o modo carreira regressa com poucas novidades face ao original. Em vez de apenas entrar em torneios e ganhar jogos, vamos ter que conciliar isso com a nossa condição física, treinar, comprar equipamento, contratar treinadores e empresários ou simplesmente descansar para recuperar energias. Agora temos um nível associado ao nosso jogador criado e conforme vamos progredindo na carreira poderemos comprar novo equipamento para nos ajudar a superar os adversários. Como ponto negativo constata-se que os dois jogadores “lendas” desta versão (o russo Marat Safin e o brasileiro Gustavo Kuerten) estão presentes no modo carreira e no ranking da mesma. Sendo dois jogadores já retirados há alguns anos, não faz sentido que joguem os mesmos torneios que os jogadores da actualidade. De referir ainda que a Big Ant Studios redefiniu o sistema de cartas que já existia no jogo anterior. Agora as quatro categorias distintas (vigor, força, precisão e agilidade) podem ser usadas em pontos específicos de uma partida e até activadas a meio de um ponto. Claramente um passo atrás na ambição de traduzir realismo e imersão à experiência tenística, especialmente havendo cartas cujo único objectivo é prejudicar o adversário, em vez de melhor o nosso próprio desempenho.

‘Tennis World Tour’ teve um lançamento catastrófico e que se provou demasiado prematuro, com falhas graves de jogabilidade, som, modos indisponíveis, falsas promessas (como a da modalidade de pares, que nunca chegou a ser cumprida) e declarações polémicas por parte de responsáveis da então Bigben Interactive. O jogo foi apressado para coincidir com a edição de 2018 de Roland Garros mas depois foi sofrendo acertos importantes (a nível de jogabilidade, principalmente) até à referida edição especial do ano seguinte. A essa altura é justo dizer que se tornou um jogo mais sólido e até superior, no geral, ao rival ‘AO Tennis’. Foi inclusive até escolhido pela organização do Open de Madrid para albergar um torneio virtual com jogadores profissionais no final do passado mês de Abril, do qual saíram vencedores o britânico Andy Murray e a holandesa Kiki Bertens.

‘Tennis World Tour 2’ acabou de sair… em vésperas da edição de Roland Garros deste ano! Adiado por causa da pandemia da COVID-19, o torneio francês voltou a coincidir com o lançamento de mais um jogo da Nacon e isso não são boas notícias. Terá sido este jogo também apressado? Tendo em conta todos os problemas, falhas e bugs encontrados nos testes efectuados a ‘TWT2’, é inevitável não pensar nisso. Há imperfeições simples e facilmente corrigidas por um patch mas há outras alterações de fundo que o estúdio francês terá que implementar se quiser melhorar o seu produto final. Dizer que este é o melhor jogo de ténis da actualidade pode ser verdade mas não chega, ainda mais quando o único rival foi eliminado por falta de comparência.

oitobits

Entretenimento e Tecnologia

Medium is an open platform where 170 million readers come to find insightful and dynamic thinking. Here, expert and undiscovered voices alike dive into the heart of any topic and bring new ideas to the surface. Learn more

Follow the writers, publications, and topics that matter to you, and you’ll see them on your homepage and in your inbox. Explore

If you have a story to tell, knowledge to share, or a perspective to offer — welcome home. It’s easy and free to post your thinking on any topic. Write on Medium

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store