Total 90s

Ricardo Tarré Gomes
Jan 29 · 9 min read
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Bem-vindos ao ‘Total 90s’, o novo espaço do oitobits destinado a revisitar a última década do século passado! Num formato em tudo semelhante ao ‘80’s Bits’ mas aplicado aos anos noventa, recuperarei mensalmente os conteúdos na área do cinema, música e videojogos que mais me marcaram nessa década. Nesta primeira edição: uma novela transformada em filme e que continua no topo; uma violação do estilo electrónico que rapidamente se tornou moda e uma aventura de crime e corrupção a título póstumo.

Filme: ‘Os Condenados de Shawshank’ (1994)

Em 1947, Andy Dufresne (Tim Robbins) é um jovem e bem-sucedido bancário subitamente acusado de ter assassinado a sangue-frio a sua esposa e o amante desta. Condenado a prisão perpétua, é conduzido à prisão estadual de Shawshank, no Maine, onde, apesar do seu temperamento reservado, consegue estabelecer amizade com um grupo de prisioneiros liderados por Ellis “Red” Redding (Morgan Freeman), um recluso que cumpre pena há 20 anos. Devido aos seus conhecimentos financeiros, Dufresne chega a uma posição de destaque dentro da penitenciária, ganhando mesmo a confiança do cruel director Samuel Norton (Bob Gunton) e dos severos guardas prisionais. Aos poucos, Dufresne utiliza o seu estatuto para melhorar um pouco as condições dos seus colegas, ao mesmo tempo que arquitecta um astuto plano de fuga.

O filme é baseado na obra ‘Rita Hayworth and the Shawshank Redemption’, uma novela escrita e publicada por Stephen King em 1982 como parte da colecção ‘Different Seasons’. O trabalho, fora do habitual estilo de King, notabilizado pela sua escrita na área do horror e ficção sobrenatural, atraiu a atenção de Frank Darabont, um argumentista à procura de se estrear como realizador de longas-metragens. Darabont comprou os direitos do livro em 1987 e escreveu o argumento (expandindo alguns elementos da história original) que viria a transformado em filme sete anos depois sob a produção de Niki Marvin e os estúdios Castle Rock Entertainment. Embora a opinião da crítica tenha sido muito positiva, a recepção do público foi inicialmente desapontante. Só quando foram anunciadas as sete nomeações aos Óscares (incluindo Melhor Filme), é que a obra de Darabont começou a ser falada e voltou às salas de cinema, numa temporada em que reinavam os muito populares ‘Forrest Gump’ de Robert Zemeckis e ‘Pulp Fiction’, realizado por Quentin Tarantino.

‘Os Condenados de Shawshank’ acabaram por não arrecadar qualquer estatueta dourada mas o filme conquistou o seu lugar na história do cinema. Tim Robbins e Morgan Freeman partilham o protagonismo no ecrã e apresentam-se a um nível altíssimo, fazendo-nos torcer pelo seu sucesso. Bob Gunton, William Sadler e Clancy Brown enriquecem o elenco, com o último a dar mais uma prova da sua categoria em encarnar “maus da fita”. O cinematógrafo inglês Roger Deakins, que venceu dois Óscares por Melhor Fotografia nas três mais recentes edições dos prémios da Academia, alcançou neste filme a primeira das 15 nomeações ao longo da carreira, fruto de um excelente trabalho. Destaque ainda para o compositor Thomas Newman, também ele já nomeado por 15 vezes, e a brilhante música que compôs para o filme, capaz de elevar as cenas mais dramáticas sem distrair o espectador no processo. A composição foi tão bem-sucedida que excertos da mesma foram usados em trailers de outros filmes nos anos seguintes. Uma palavra ainda para o próprio Frank Darabont, cujo trabalho seguinte atrás da câmara seria outro filme de prisão de época — ‘À Espera de um Milagre’ (1999), novamente uma adaptação de um romance de Stephen King e uma vez mais nomeado aos Óscares por Melhor Filme.

Para o primeiro artigo desta nova rubrica de revisitação dos anos noventa, trazer o filme que tem liderado, praticamente de forma incontestável, a tabela de melhores filmes de todos os tempos do Internet Movie Database parece um tremendo clichê. Esta classificação do IMDb tem estado activa desde os últimos anos do século passado e baseia-se na votação que os membros registados no respectivo sítio dão a cada filme. A liderança ainda chegou a ser contestada por ‘O Padrinho’ (1972), de Francis Ford Coppola, mas o lugar cimeiro tem pertencido ao filme de Frank Darabont desde 2008. As votações deste tipo valem o que valem e, apesar de poderem servir de apoio na altura de escolher ver ou não determinado filme, não foram a razão de ter escolhido ‘Os Condenados de Shawshank’ como o filme em destaque nesta edição inicial do Total 90s. Na verdade, foi o facto de ter sido o primeiro filme que vi quando comecei a trabalhar num videoclube, o meu primeiro emprego. Em VHS, numa televisão pequena e aos intervalos em que não chegavam clientes ao balcão, foi assim que vi o filme que me ficou imediatamente gravado na memória como um dos meus favoritos, cativado pela sua história de redenção e pela forma genial como Andy Dufresne cogeminou o seu plano.

Álbum: ‘Violator’ — Depeche Mode (1990)

Após uma muito bem-sucedida digressão pelos Estados Unidos da América, que culminou com um concerto final no Rose Bowl de Pasadena (Califórnia) e a gravação do documentário e álbum ao vivo ‘101’ (1989), os britânicos Depeche Mode não perderam tempo para descansar à sombra do seu sucesso. Para o seguinte trabalho de estúdio, a banda concordou em alterar os procedimentos habituais a nível de gravação que mantinha desde o início de carreira, optando por uma fórmula menos focada na programação electónica. Para ajudar a produzir ‘Violator’ foi contratado o produtor e engenheiro de som Mark “Flood” Ellis, já conhecido pelo seu trabalho junto de bandas e artistas associados a rock alternativo. E foi precisamente através deste género de música que começaram por nascer algumas das canções que compõem o álbum, compostas inicialmente à guitarra por Martin Gore até receberem um tratamento mais electrónico. A gravação do álbum estendeu-se por cinco estúdios em quatro países e chegou às lojas em Março de 1990.

‘Personal Jesus’ foi a primeira música a ser lançada como single, começando a tocar nas rádios ainda no verão do ano anterior. Com o seu dominante riff de guitarra ao estilo blues, batida contagiante e letra provocatória, a canção foi um grande êxito (na altura, o single mais vendido de sempre da Warner) e originou dezenas de versões por parte de diversos artistas como Johnny Cash ou Marilyn Manson. O próximo single saído de ‘Violator’ foi ‘Enjoy the Silence’, provavelmente a canção mais emblemática de toda a carreira da banda. A voz profunda de barítono de Dave Gahan complementa de forma perfeita a melodia electrónica, com a letra a fazer referência à obra filosófica ‘O Principezinho’, de Antoine de Saint-Exupéry. O videoclipe, realizado, à imagem de outros, pelo holandês Anton Corbijn, tem a particularidade de ter sido rodado parcialmente em Portugal, nomeadamente junto à costa algarvia. Para além deste dois êxitos estrondosos para a carreira dos Depeche Mode (na altura um quarteto composto por Gore, Gahan, Andy Fletcher e Alan Wilder) ‘Violator’ originou mais dois singles: Policy of Truth’ e ‘World in My Eyes’, canção que abre o alinhamento do álbum.

Se nos anos 80 a colecção de discos de vinil do meu irmão mais velho marcou e ajudou a moldar os meus gostos musicais, nos anos 90 dominaram os Compact Discs, mais conhecidos pela sua sigla CD. Todos os três irmãos lá em casa iniciámos as nossas próprias compilações nessa década mas apenas o mais velho já era adulto no começo da mesma, pelo que acabámos todos por ouvir mais dos CD dele. O primeiro de todos foi uma reedição de ‘Wish You Were Here’ (1975) dos Pink Floyd para este novo formato e não me cativou muito porque já conhecia as principais canções de um álbum ao vivo da banda que o meu irmão tinha em disco duplo de vinil. É então que aparece lá em casa ‘Violator’, para mim a obra-prima dos Depeche Mode (que mereceram a entrada no Rock and Roll Hall of Fame o ano passado) e o álbum que tornou a banda inglesa verdadeiramente conhecida a nível mundial. Foi o primeiro álbum de originais da colecção e o CD que na minha memória mais associo a este então novo formato, que já permitia saltar faixas sem o receio de riscar o disco. É certo que terei passado algumas faixas do álbum mas também recordo, para além de todas já acima referidas e que marcam presença habitual nos concertos da banda, outras boas canções como ‘Halo’ e ‘Clean’, derradeira faixa que nos deixa a “apreciar o silêncio” depois de finalizada.

Videojogo: ‘Grim Fandango’ (1998)

Manuel “Manny” Calavera é um agente de viagens da Terra dos Mortos, obrigado a trabalhar por um tempo que seja suficiente para pagar pelos seus pecados em vida. Dependendo de como viveram, os mortos têm direito a “pacotes de viagem” para o além, que vão dos mais luxuosos aos penosamente sofríveis. A função de Manny é vender o máximo possível dos pacotes mais caros, mas ele tem tido dificuldade com os clientes enviados pela sua empresa — o Departamento da Morte — e nenhum parece se qualificar para os bons postos. Desrespeitado pelos colegas e em risco de perder o emprego, Manny tenta desviar uma cliente de um funcionário rival, Domino Hurley, um tipo convencido e desagradável que cresceu na empresa rápido demais e que roubou o seu escritório. Nesse processo, e enquanto tenta ajudar a suposta boa alma de Mercedes “Meche” Colomar na sua derradeira viagem, ele descobre um esquema de crime e corrupção e uma organização revolucionária secreta.

‘Grim Fandango’ é dividido em quatro actos, cada um deles passando-se no dia 2 de Novembro em quatro anos consecutivos. Esse dia é precisamente comemorado no México e outros países da América Central como o Dia dos Mortos, uma celebração de origem indígena que remonta ao tempo dos povos astecas e maias. No jogo todos estes elementos da crença na vida depois da morte, desde as calacas com que são representadas todas as personagens até à arte e folclore popular, são evidenciados e misturados com características típicas de film noir, um subgénero de cinema norte-americano que teve o seu auge durante as décadas de 40 e 50 do século passado. Realizado por Tim Schafer e desenvolvido pela LucasArts, ‘Grim Fandango’ é um jogo de aventura em que na pele (ou melhor, ossos) de Manny devemos conversar com outras personagens, examinar, recolher e utilizar objectos para resolver quebra-cabeças. O jogo usa o motor GrimE, renderizando os fundos em 2D enquanto objectos e personagens são representados em 3D.

Lançado em 1998 para PC, não deixa de ser irónico que ‘Grim Fandango’ tenha sido considerado um fracasso comercial nos Estados Unidos (precipitando inclusive a decisão da LucasArts em deixar de produzir jogos de aventura do género) quando a reacção da crítica especializada foi de total aclamação, tendo vencido vários prémios de “jogo do ano” e continuado a figurar em listas de melhores de sempre até aos dias de hoje. A realização, direcção artística, diálogos, vozes e banda sonora foram amplamente elogiados. Esta última, composta e produzida por Peter McConnell incorpora música folk centro e sul-americana com bebop e jazz da era do swing. A remasterização de ‘Grim Fandango’ chegou em 2015, pelas mãos da Double Fine (presidida por Schafer), com melhorias gráficas, de iluminação e sonoras visíveis na PlayStation 4 e Vita.

Como esta primeira edição do Total 90s é feita de estreias, trouxe aqui o primeiro jogo que comprei para PC. Numa altura em que já jogava menos na Mega Drive e não tendo a PlayStation original, era no meu primeiro PC que ia apostando. Tudo começou com um CD com demonstrações de jogos que o meu irmão do meio trouxe para casa e um deles chamou a atenção a mim e ao meu irmão mais velho. A estética de inspiração asteca misturada com arte déco, a música e principalmente os diálogos espirituosos e a trama entusiasmaram-nos a tal ponto que, quando finalizámos a demo, avançámos para a compra do jogo integral. Nem tudo foram rosas depois disso, pois o jogo era reconhecidamente difícil, com algumas soluções de enigmas a revelaram-se bastante bizarras e rocambolescas. Após alguns impasses lá ficámos finalmente a saber o que acontece a Manny, Meche, Glotis e tantos outros personagens interessantes post mortem. Valeu completamente a pena pois ‘Grim Fandango’, mais do que o primeiro jogo para computador pessoal que comprei, foi também o único do género que joguei do início ao fim mas que fará sempre parte dos meus jogos preferidos. Cerca de duas décadas depois, acabei por jogar a versão remasterizada na PS4 e foi óptimo voltar àquele mundo, tendo-me divertido a acabar de novo o jogo e a esgotar os milhares de linhas de diálogo existentes e a finalmente perceber algumas expressões e piadas que há 20 anos atrás o meu nível de inglês não alcançava. Ossos do ofício.

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