Viver em In The Heights

Maria Pinto
Jun 19 · 3 min read

In The Heights, o musical de 2005 criado por Lin-Manuel Miranda, chegou, em Junho de 2021, ao grande ecrã, realizado por Jon M. Chu. O filme conta a vida de várias personagens habitantes de Washington Heights, um bairro localizado a norte de Manhattan e conhecido pela mescla de gerações de emigrantes de várias culturas latino-americanas.

Seguimos mais pormenorizadamente a história de Usnavi, um emigrante dominicano que tem como sonho ressuscitar os desejos do seu pai: voltar à República Dominicana para abrir um bar. Seguimos também as vidas e desejos de personagens como Nina, que volta do primeiro ano da universidade; Abuela Claudia, a avó de todos os habitantes do bairro; Sonny, “primo” de Usnavi; Kevin, trabalhador no negócio do pai de Nina e apaixonado por ela; e Vanessa, que tem o grande sonho de seguir design de moda. Enquanto se debatem com as suas aspirações, estas personagens tentam também enfrentar a realidade de mudança eminente e desintegração do bairro, dado o aumento do valor das rendas e dos produtos.

Embora Usnavi seja o narrador da história, podemos considerar todas as outras personagens como personagens principais. Logo nos primeiros minutos são “despachadas” as apresentações, deixando um espaço grande — que é preenchido ao longo do filme — para as irmos conhecendo, exatamente na mesma quantidade, percebendo as suas rotinas, os seus sonhos e os seus empregos. Este aspeto dá uma maior credibilidade aos habitantes desta história, fazendo com que o filme não caia no erro frequente em musicais de estereotipar personagens.

Através da natureza da história criada por Lin-Manuel Miranda, percebemos também desde o início que irão ser abordados temas bastante importantes, atuais e em crescimento alarmante, como a gentrificação. O tema da emigração também é bastante abordado criando nas personagens a dúvida e a procura de noção de “casa”. Esta procura mistura-se com os seus sonhos, o que faz com que a definição seja diferente entre as personagens, como podemos observar, por exemplo, na letra da canção “It Won’t Be Long Now” quando Usnavi canta: “I’m runnin’ to make it home and home’s what Vanessa’s running away from”.

Há também alguns aspetos que não estão tão bem conseguidos no filme, nomeadamente quando, inevitavelmente, o comparamos com a sua obra original, o musical. As mudanças feitas, bastante percetíveis para quem conheça bem o musical, são desnecessárias e por vezes absurdas. A troca de ordem de acontecimentos principais cria no filme uma estrutura narrativa frágil e, à medida que vai progredindo, bastante confusa. A música “Paciencia y Fe” da Abuela acaba por perder impacto na tentativa de criar um momento mais dramático. Os assuntos principais da história são um pouco esquecidos, por vezes banalizados, por exemplo quando é retirada uma grande parte da história de conflito entre Benny e os pais de Nina, e se coloca o foco no romance entre os dois. As partes menos naturais no filme acabam por ser as acrescentadas ao musical original, e a tentativa de criar grandes números de dança e musicais — tentativa bem-sucedida — acaba por criar um filme que perde a oportunidade de desenvolver dentro da sua audiência mais jovem essa noção de gentrificação e de preservação de cultura e memória coletiva. No entanto, para as mentes mais atentas, todas estas perspetivas são abordadas.

Para os espectadores amantes de musicais, In The Heights deixa também algumas piadas privadas que farão com que os entendidos esbocem um sorriso. Lin-Manuel Miranda (criador e intérprete de Usnavi na versão musical) interpreta o Piraguero, um homem vendedor de piragua, consciente das suas origens, que entra em conflito com um vendedor de gelados que tenta roubar-lhe clientes, interpretado por Christopher Jackson (que interpretou Benny na versão musical). A música de espera de um atendedor automático é uma versão de “You’ll Be Back” de Hamilton (musical criado por Lin-Manuel Miranda).

Embora tenha momentos mais frágeis, é difícil terminar o filme sem nos sentirmos alegres, não ignorando, contudo, o problema da gentrificação, do racismo e do ódio a emigrantes. É surpreendente tudo isto ser ainda uma questão, quando poderia ser tão simples como Carla canta em “Carnaval del Barrio”: “My mom is Dominican-Cuban / My dad is from Chile and P.R. which means: / I’m Chile-Domini-Curican… / But I always say I’m from Queens!”.

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