Inconsciente

Era sempre o mesmo sonho.

O grosso fio de sangue escorria, dançando sobre a testa volumosa de Sofia. Seus olhos escuros pareciam vazios e impiedosos, aguardando a morte que ela tanto temia. O ferimento mortal em sua cabeça parecia doer mais e mais a cada segundo, como se a faca, que agora jazia abandonada em um certo baú, ainda estivesse ali, cravada em seu cérebro.

A agonia de saber que o fim estava próximo era a pior parte. O mar vermelho descia cada vez mais rápido, transformando sua visão em um emaranhado de cores e sombras. Tentava se mover, levar suas pequenas e calejadas mãos até a origem do sangramento, mas era inútil. O medo, muito mais do que a dor, paralisava-a por completo.

De repente, a voz de Ivo surgia ao longe, crescendo com a força do vento. “Sua hora chegou”, ele bradava. No minuto seguinte, o próprio Ivo emergia da escuridão, trazendo em suas mãos um buquê de rosas brancas e aveludadas. As preferidas de Sofia. Ele caminhava em sua direção, se despindo devagar.

Uma das coisas que havia feito Sofia sentir-se atraída por Ivo era seu corpo. Quando estavam nus, atracados em um abraço íntimo, tinha a sensação de estar sendo tocada por uma divindade. Mas agora, por algum motivo desconhecido, seus contornos pareciam grotescos, como se a perfeição que ela tanto adorava fosse um sinal de perigo.

O sangramento sempre parava.

Como se não tivesse sido esfaqueada, Sofia continuava seguindo pela rua escura, acompanhada por ninguém e todo mundo ao mesmo tempo. Rostos conhecidos vagavam ao seu redor, alguns sorriam para ela, outros ignoravam sua presença.

A garotinha que segurava a sua mão devia ter seus cinco anos de idade. Surgia, toda vez, de trás de uma imensa macieira. Oferecia uma maçã para Sofia, que aceitava, mesmo odiando-as. Com uma mordida tímida, arrancava um pedaço da fruta apenas para descobrir que seu interior estava repleto de insetos. A garotinha chorava, como se tivesse culpa daquilo. Sofia cuspia e xingava, tentando não engolir as formigas e aranhas em sua boca.

Então começava a correr. Desesperada, sem saber onde ir. Apenas corria.

A visão de seu irmão era motivo para fazê-la parar. Pablo sorria, alegre, como se tivesse acabado de ganhar um presente caro. Porém, o garoto parecia estar olhando para algum ponto acima de seu ombro. Através dela, não para ela. No momento em que se virava, assistia Ivo, sem nada para cobrir seu corpo, passar por ela e ir direto ao encontro de Pablo, abraçando-o. De início ela sempre achava um gesto de ternura entre seu irmão e o homem que amava. Entretanto, no momento seguinte, Pablo começava a despir-se também — em um minuto, beijava a boca de Ivo, gemendo ao seu toque.

Antes que Sofia pudesse reagir, a garotinha reaparecia, com outro buquê em mãos. Dessa vez as rosas eram vermelhas.

“Você gosta de vermelho?”, perguntava, enquanto puxava a faca de dentro do buquê.

Um soco invisível trazia Sofia ao chão, com seus joelhos tocando o solo frio. Pequenas lágrimas insinuavam-se no canto de seus olhos, caindo em câmera lenta. Com um sorriso gélido, a garotinha desferia um golpe violento no topo da cabeça da outra. Robótica e calma, guardava a faca dentro de um baú.

Sangue.

Então o despertador tocava.

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