O Peregrino

Nunca saberei ao certo como cheguei aqui. Meu último registro na memória trata-se do aroma de café e dos biscoitos que minha família sempre leva no carro durante nossas viagens ao litoral. Agora, entretanto, o cheiro que eu sinto é de podridão e desespero.

Nesse momento, não enxergo nada. Meus olhos captam apenas o breu cintilando entre as árvores fantasmagóricas. Sinto um peso gigantesco nos ombros e o medo já paralisou meus músculos. Nada mexe, nada respira, nada pensa. O pior de tudo é que estou sozinho. Meus demônios se desenvolvem e multiplicam na solidão. Minha família não está aqui: ainda devem estar dentro daquele carro, fazendo aquela viagem.

De súbito, vejo uma mulher caminhando em minha direção. Pensei que minha selva escura tinha ganhado uma luz com sua companhia e, assim, a solidão não seria só minha. Seria minha e dela. Porém, a mulher não era uma mulher e, acima de tudo, não trazia luz nenhuma. Seu corpo era híbrido de humano e onça, com um olhar penetrante que sugeria maldade. Em seus braços pintados, trazia uma bandeja repleta de comida. Enquanto andava, a mulher-onça comia. E ria. Sua gargalhada era fria e pecadora, exalando gula pelo canto da boca.

As outras duas vieram logo atrás. Mulher-loba e mulher-leoa. Lindas e obscuras, completavam o circo animalesco. Gingavam lentamente enquanto se aproximavam, com uma harmonia incrível em seus passos, como se já tivessem feito aquela dança macabra muitas vezes. Gritei, amedrontado, mas nesse mundo eu não tenho voz.

– Você tem uma viagem a fazer.

Arregalei os olhos e apurei os ouvidos. Quem seria?

– Basta me seguir.

A mulher-onça liderava o trio para cada vez mais perto de mim. Eu conseguia enxergar meu inferno em seus olhos. A voz, por sua vez, me chamava. Como devo seguir uma voz na escuridão, sem saber onde pisar? O fiz, de qualquer forma. Corri no solo negro e instável, procurando meu guia invisível e embarcando em uma viagem que me livrasse da solidão dessa selva.

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