Colaboração é o caminho para o jornalismo enfrentar as dificuldades de 2018

Segunda edição do projeto realizado pelo Farol Jornalismo e pela Abraji indica sugestões para cobertura eleitoral e reafirma necessidade de combater a circulação de informações falsas

Marcela Donini
Dec 11, 2017 · 4 min read

É preciso admitir que podemos fazer mais para contribuir para o debate público. Cada post publicado por um jornal em suas redes sociais provoca comentários que são amostras de como a sociedade brasileira está dividida, e pior, intolerante. A polarização que se desenhou em 2014 tende a acirrar-se ainda mais em 2018, não à toa, outro ano de eleições majoritárias.

Não que seja culpa do jornalismo. Estamos imersos no mesmo emaranhado de redes que, segundo o psicanalista Christian Dunker, afetam nossos sistemas de identificação e de demanda, inflam nossos egos, diminuem nossa empatia e criam o ódio no mundo digital. Ao mesmo tempo em que grupos se fecham em bolhas onde impera a falsa sensação de consenso, também agridem quem põe em xeque suas crenças.

Mas longe de lamentar e apontar culpados, o objetivo desta segunda edição do especial O Jornalismo no Brasil, parceria do Farol Jornalismo com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), é fazer um prognóstico das condições que devem se apresentar em 2018 e propor alternativas para escrever uma história diferente no ano que se aproxima.

As bolhas nas redes sociais não vão desaparecer, tampouco vão sumir as mentiras divulgadas como se notícias fossem — o que muitos chamam de fake news. E não é só o público que é afetado por esses fenômenos, também o bom jornalismo estará à mercê dos efeitos de uma sociedade dividida e consumidora voraz de mídias sociais, conforme nos alertam os pesquisadores Gabriela Zago e Pablo Ortellado. Mas há caminhos para vencer algumas dessas batalhas. É preciso, antes de tudo, entender o funcionamento das redes e ajudar nosso público a entendê-lo também.

"Furar" essas bolhas também é possível — usando, inclusive, as mesmas armas que nos prendem dentro delas. Contra robôs propagadores de notícias falsas, por exemplo, o pesquisador Daniel Magalhães vê, no horizonte, robôs checadores, além da colaboração entre redações e media labs como tendências que ajudarão os veículos a usar algoritmos a seu favor.

Nesse clima beligerante, será preciso muita habilidade dos repórteres na cobertura eleitoral. Nossa série aponta dois temas que terão destaque nos debates políticos: segurança pública e meio ambiente. O primeiro tem grande apelo com os eleitores e, para fugir do jornalismo declaratório e das “propostas mirabolantes e soluções mágicas” que certamente surgirão, o professor e ex-repórter de polícia Francisco Amorim aposta no jornalismo guiado por dados e nas noções de estatística. Seu texto está ainda repleto de dicas práticas para quem cobrirá o tema em 2018.

Acusado de usar questões ambientais como moeda de troca, o governo federal deverá pautar mais discussões nessa área no primeiro semestre do ano que vem, prevê o jornalista Thiago Medaglia, fundador da Ambiental Media. Aqui, mais uma vez, a via da colaboração se mostra promissora e jornalistas deverão estar mais próximos da academia para dar conta da cobertura e combater interpretações equivocadas de fatos científicos.

Contra a crise financeira, a criação ou remodelação das áreas de produto podem ser uma saída, conforme aponta o jornalista e professor Rafael Sbarai. Em 2018, essas lideranças multidisciplinares devem ganhar espaço nas organizações jornalísticas, especialmente nos negócios digitais, de onde devem surgir os serviços e produtos mais inovadores do mercado brasileiro.

A saúde financeira dos veículos passa ainda pela recuperação da sua credibilidade, afirmam Nina Weingrill e Simone Cunha, da Énois Escola de Jornalismo. Embora ainda seja alta a confiança dos brasileiros na imprensa, este índice vem caindo, acompanhando uma tendência que se vê em jornais do exterior e provocada, principalmente, pelo descrédito nas redes sociais. As parcerias entre grandes veículos e novas iniciativas, algumas originadas da periferia, devem aumentar no ano que vem e podem ajudar a reverter o quadro no Brasil. A estratégia é uma alternativa econômica em tempos de redações cada vez mais enxutas. Mas o maior ganho dessa colaboração é a possibilidade de redobrar a confiança do público ao diversificar o olhar para novas pautas e oxigenar as equipes, pouco representativas, alerta que já fizemos no especial do ano passado. Nesta edição, chamamos a atenção especificamente para a necessidade das redações refletirem sobre a desigualdade de gênero em suas equipes. A doutora em sociologia Veronica Toste é quem aborda a temática e apresenta números inéditos recentemente levantados pela Abraji e Gênero & Número na pesquisa Mulheres no Jornalismo.

Embora a política prometa roubar boa parte do noticiário em 2018, haverá, como em todo ano de eleições presidenciáveis, uma pausa nos debates partidários para que voltemos os olhos à Copa do Mundo na Rússia. O evento de grande porte dará aos jornalistas oportunidades de serem criativos e explorarem as narrativas imersivas, segundo afirmam os pesquisadores Suzana Barbosa e Adalton dos Anjos Fonseca.

Apesar dos prognósticos, no geral, não serem otimistas, já há sinais de esforços em defesa do uso ético das tecnologias nas eleições. Uma carta pública foi lançada neste mês a fim de preservar a liberdade de expressão e o acesso à informação de qualidade e repudiar o uso desonesto de perfis falsos e a propagação de mentiras mascaradas de notícias. Entre os signatários, iniciativas jornalísticas como a Agência Lupa e o Aos Fatos. Voltada ao público geral, de cidadãos e candidatos a veículos de imprensa e organizações da sociedade civil, a campanha #NãoValeTudo bem poderia motivar a atuação de jornalistas e produtores de conteúdo brasileiros. Vamos fazer esse pacto para 2018?

Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2018.

O jornalismo no Brasil em 2018

A convite da Abraji e do Farol Jornalismo, jornalistas, pesquisadores e especialistas de diversas áreas apresentam oportunidades e desafios para o combater a desinformação e aprimorar o noticiário de interesse público.

Thanks to Moreno Osório.

Marcela Donini

Written by

Jornalista freelancer radicada em Porto Alegre, professora de jornalismo na ESPM-Sul e fundadora do Farol Jornalismo.

O jornalismo no Brasil em 2018

A convite da Abraji e do Farol Jornalismo, jornalistas, pesquisadores e especialistas de diversas áreas apresentam oportunidades e desafios para o combater a desinformação e aprimorar o noticiário de interesse público.