A vida do gordo é uma vida pública

Campanha da Companhia Athletica reforça a ideia de que o corpo gordo não é nosso corpo original, mas uma prisão para o magro que há dentro de nós.

Olá, me chamo Marcos Roberto e sou orgulhosamente gordo. Por um breve momento fui magro, depois de muito me esforçar comendo “direito” e fazendo academia. Ser magro me trouxe uma epifania: eu gosto de ser gordo. A magreza não compensava, e se houve algum benefício que ela me trouxe, foi ver a grande farsa que se esconde por trás do discurso da magreza.

Quando gordo, sair com os amigos significava ser o único a não ficar com ninguém na noite, enquanto seus colegas comparavam números de ficadas. Magro, a situação se invertia. E para ser bem sincero, eu nem me sentia bonito. Não gostava de como os ossos do meu maxilar eram marcados, meu sorriso não combinava com a ausência de bochechas e eu não conseguia espantar a sensação de que eu estava doente.

De certa forma, eu até estava. Tinha cedido à pressão de anos de comentários indelicados de pessoas próximas, de abusos físicos e verbais que aconteciam na escola, na faculdade e em qualquer círculo social. Cedi a uma indústria inteira forçando a magreza como sinônimo de saúde, de vida boa, de felicidade, beleza e até mesmo higiene.

Mas a magreza ludibria em fazer você pensar que está bem, que alcançou um objetivo por ter deixado de ser gordo e que seu maior prêmio é a admiração das pessoas que agora passam a te olhar com desejo, reforçando que é assim que você deve estar, porque se engordar de volta, você perde os benefícios de ser tratado com respeito. Você perde, até mesmo, o direito a sua privacidade, já que todo o mundo irá vigiar o que você come, sugerir o que você deveria fazer, ou comentar sobre a sua aparência. A vida do gordo é uma vida pública, e ainda assim, ele é invisível.

Saber que eu me gosto gordo também tornou óbvio que eu estava confrontando o mundo, nadando contra a correnteza, e que eu tinha que dividir minha experiência. Eu precisava expressar o quanto era possível estar feliz com o peso e a forma física sem sentir como se estivesse infringindo alguma regra (e se estiver, tenho que contar as delicias de ser um fora da lei do peso).

Eu sou prova viva de que é possível ser feliz sendo gordo, e você precisam saber que isso é possível.

Ainda vejo a estranheza no rosto das pessoas quando digo que gosto de ser gordo e que eu encontro poder nisso. Eu descobri que nada do que possuo fisicamente é um defeito. Eu tenho posse do meu corpo e minha gordura, o meu tamanho e até meus peitos de gordo são motivos de orgulho pra mim. Eles são meus, e eu estou feliz por tê-los do jeitos que são.

Esse conhecimento sobre viver sendo gordo não pode mais ser só meu. Outras pessoas que ainda estão presas às amarras da obsessão pela magreza precisam saber do que eu sei.

Elas precisam do meu olho gordo.

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