O espelho côncavo: o gordo no relacionamento

Não é surpresa que pessoas gordas enfrentam problemas para se relacionar amorosamente com outras quando a estética do corpo é uma das origens de preconceitos com pessoas gordas. Não só porque enfrentamos a seletividade das pessoas, mas também porque o ato de nos relacionarmos com alguém não significa que o julgamento sobre os nossos corpos irá cessar. Seja para um encontro casual ou uma honesta tentativa de relacionamento, o foco do que as pessoas procuram em outras raramente muda. E mesmo dentre aquelas que autodenominam-se desconstruídas, as falácias e as hipocrisias logo se revelam.

As pessoas chamam de “gosto” a atração que sentem por pessoas magras e brancas e que, de preferência, deem a impressão de terem boas condições financeiras. Esse famigerado gosto nada mais é do que uma construção do que seria ideal e desejável reforçada por diversos setores da sociedade. Fica fácil gostar de certos corpos quando vemos representações deles com idolatria e superioridade a todo o momento. Difícil mesmo é ter autocrítica para saber se o seu viés estético é realmente autêntico, ou um simples reprodutor de preconceitos.

É possível, sim, ter preferências, mas quando você categoriza um aspecto como inferior, você também categoriza as pessoas que possuem essa determinada característica como inferiores, negando a elas (e a você mesmo) a oportunidade de conhecer o que elas têm a oferecer como pessoa. E essa é a maior violência desses pré-conceitos: eles nos desumanizam e apagam completamente nossa vivência.

Para quem deseja, estar em um relacionamento exige determinação e muito filtro pra conhecer alguém que valha a pena dividir um pedaço da vida. Cada um possui uma forma de se relacionar que julgue ideal, mas alguns pilares não mudam: reciprocidade, companheirismo e diálogo constante são alguns deles. Quando se é gordo, estabelecer um relacionamento — mesmo com esses pilares — não significa que os problemas com a aparência e autoestima acabam. Às vezes, o que acontece é justamente o contrário, principalmente quando namoramos alguém de um tipo físico diferente do nosso.

Há o trabalho diário de fazer com que essa pessoa te respeite por gostar de seu corpo como ele é, só que o tempo de relacionamento mostra o quão difícil é fazer com que os outros entendam nosso ponto de vista. Nos ouvem muitas das vezes, mas como nosso “estilo de vida” foge do padrão, a assimilação é difícil.

Acabamos levando em consideração o quanto a pessoa que amamos gosta de como somos, mesmo sabendo que nem sempre há garantia alguma de que seremos respeitados por sermos como somos. Isso também torna difícil nossa relação com outras pessoas. Se aquela com quem namoramos não consegue compreender nossas dificuldades, como iremos conviver com outras pessoas de círculos sociais mais distantes sem sentir que elas também não nos entendem?

E quando falamos de relacionamentos, não podemos deixar de lado as diversas formas que existem de nos relacionarmos com alguém. Costumamos pensar por padrão em relacionamentos monogâmicos, mas a crítica serve para relacionamentos poligâmicos também. Embora o sistema seja um pouco diferente, o cenário também abre espaço para falarmos de como pessoas gordas se sentem dentro de um relacionamento aberto ou livre. Uma das maiores críticas ao relacionamento aberto é como ele serve prioritariamente a pessoas de beleza padrão. Comparar as relações abertas de uma pessoa branca e magra com a de uma negra e gorda revela o abismo de vivências que essas duas pessoas terão enquanto em um relacionamento aberto. Afinal, o condicionamento estético continua existindo nessa forma de relacionamento. A ironia é que grande parte dos praticantes de relacionamentos abertos e livres criticam a padronização da monogamia como forma amplamente aceita de relacionamento, mas de alguma forma carecem de autocrítica no que diz respeito ao “gosto” pela estética padronizada.

Quando uma pessoa gorda se relaciona abertamente com alguém, se faz necessário a manutenção diária da autoestima e da segurança, principalmente quando seu parceiro se relaciona com pessoas de beleza padrão. Se em relacionamentos monogâmicos pessoas gordas são preteridas pelas magras, nos relacionamentos poligâmicos uma pessoa gorda poderá ver de perto a discrepância entre a preferência por pessoas gordas e magras que seu parceiro poderá ter.

A crítica dos praticantes da poligamia sobre a compulsividade da monogamia é válida, mas é preciso que seus adeptos parem de tratar a monogamia com repulsa, porque ela é tão válida quando a poligamia, e em alguns casos, necessária. Aqueles que não aguentam a pressão de viver em um relacionamento que não o privilegia, procuram por formas de se relacionar que sejam mais saudáveis e menos agressivas à autoestima e segurança. Certas formas de se relacionar consomem muito mais quando se é gordo e desistir de um relacionamento não deveria ser visto como algo ruim quando se deseja priorizar o próprio bem-estar.

Ser gordo e namorar significa que teremos que fazer a manutenção normal do relacionamento e, além disso, fazer com que a pessoa com quem nos relacionamos entenda a relação que temos com o nosso corpo, a luta diária que é conviver com nosso peso e as nossas curvas em um mundo que nos força a querer mudar, em uma cultura que difunde nosso físico como errado e transmite valores que nos diminuem, invisibilizam e apagam nossas experiências de vida.

Infelizmente, não há uma fórmula sobre como lidar conosco. Estar disposto a assimilar nossas experiências é um primeiro passo, mas não podemos parar por aí. Não estamos querendo uma solução vinda de nossos parceiros, nós só queremos a certeza de que em nosso relacionamento há um espaço livre de cobranças e pressões que o mundo externo já nos impõe diariamente.

Nós só queremos ter nossa voz ouvida para dar dignidade aos nossos sentimentos, afinal, um relacionamento não existe para destruir nossa autoestima e distorcer a imagem que temos de nós mesmos.