Menina

- Viram aquele cachorro zangado rondando pela fazenda do Doutor Messias…
- Dizem que esse cachorro espuma pela boca e tem os olhos vermelhos e esbugalhados feito o diabo!
- Santa Mãe de Deus!
- E ouvi dizer que ele é maior que um bezerro desmamado!
Maria Clementina carrega com dificuldade o balde de milho para tratar das galinhas enquanto ouve a conversa terrível de sua mãe com sua avó enquanto uma capina a horta e a outra estende a roupa no varal. Alma e Dona Saudade já estão acompanhando as notícias do cão raivoso há algum tempo. Alma acha que não passa de boato, mas Dona Saudade acredita piamente ser o próprio capeta aproveitando a Quaresma para andar sobre a Terra.
Vitória grita do quarto. Alma larga a enxada e corre para acudir a filha mais velha. Está acamada há dias por causa da gravidez complicada. A criança parece não ter virado ainda, mas vai nascer a qualquer momento.
- Larga esse balde de milho, menina, e vai logo chamar a Natalina!
Dona Saudade dá a ordem enquanto ruma para a cozinha e coloca uma panela com água para ferver no fogão à lenha com fogo quase apagando. Alma volta apressada do quarto e procura por toalhas no armário. Elas já sabem o que precisa estar pronto para quando a parteira chegar.
O vestido branco de Maria Clementina começa a ficar todo amarelado por causa da poeira da estradinha durante a descida do morro. É um vestido que Vitória usou muito quando tinha a idade que a irmã tem hoje. O vestido fica bem largo, porque ela era mais corpulenta, enquanto Maria Clementina é franzina e desajeitada. Anda com pouco equilíbrio, mas determinada em sua missão de chamar a parteira. Quando chega na estrada principal, uma boiada passando que, ao seu olhar, parece que tem mais de um milhão de animais. Impossível atravessar e não dá nem para fazer a volta. Ela vai ter que esperar.
- Você sozinha na estrada e aquele cachorro zangado por aí? É uma menina muito corajosa!
Martin, o vaqueiro que vem tocando a boiada, resolve dar carona para ela em seu cavalo até a encruzilhada.
Para chegar na casa da Dona Natalina, Maria Clementina precisa passar pelo quintal da Dona ‘Das Dores que pergunta como está Vitória, e ao saber que a criança já vai nascer, avisa que Dona Natalina não está para aquelas bandas, porque foi na fazenda de João Messias capar a leitoa que ele arrematou no leilão da igreja. A fazenda é longe e Dona ‘Das Dores pede seu menino, o Vanderlei, para levar Maria Clementina até lá de bicicleta.
Eles cortam caminho pelas trilhas feitas pelo gado. É pasto para todo lado. Antes ali tinha uma mata com árvores que chegavam até o céu, é o que dizem. Maria Clementina nunca chegou a ver uma árvore dessas, talvez só na sua imaginação. Vanderlei conta que tinha até onça na mata e que o avô dele matou uma, apesar de ninguém nunca ter visto sequer o couro dela.
- Ele estava montado nesta bicicleta quando viu a bicha.
Mais adiante no caminho, um trecho com um barranco de um lado, uma ribanceira do outro e um pé de manga enorme caído atravessado atrapalhando a passagem. Não dá pra dar a volta e Vanderlei não consegue passar a bicicleta por cima. Ele a deixa para trás com pesar, ajuda Maria Clementina a passar pela mangueira e continua com ela rumo a fazenda.
As duas crianças levam um susto com o potro correndo desembestado que atravessa bem na frente deles. Logo em seguida, passa Donizete montado na mula com um laço na mão tentando apanhar o potro. Como por instinto, Vanderlei corre para ajudar Donizete tentando cercar o potro mais a frente para encurralar ele lá no canto da cerca. Ia dar trabalho. Concentrado e determinado com a captura do animal, ele não se deu conta que Maria Clementina continuou seu caminho sozinha.
A sede da fazenda fica logo depois do canavial. Vanderlei e Donizete ficaram bem para trás, nem dá mais para ouvir os gritos deles com o potro.
Chegando na porteira que dá para o canavial, Maria Clementina tem a sensação de estar sendo seguida. Seu coração começa a acelerar e ela ouve um rosnado. Olha para trás e o vê. O cão do diabo espumando pela boca com olhos vermelhos esbugalhados maior que um bezerro dando passos lentos em sua direção. Ela sobe a porteira tremendo apavorada. Não sabe se vai subir alto o suficiente para se proteger. Tenta gritar por socorro, mas sua voz não sai, está perdendo o fôlego. Treme tanto que a porteira até chacoalha. O cão raivoso avança e tenta alcançar a menina no alto latindo como o estrondo dos trovões do Juízo Final.
Um tiro é disparado, o cão dá um grunhido, mas logo continua latindo e avançando, e Maria Clementina consegue gritar, o tiro destravou sua garganta. Ela grita de desespero e chora em soluços. Outro tiro e mais um grito da menina. Em seguida, silêncio. Um galopar se aproxima. A menina está aos prantos agarrada na porteira e o cão caído no chão. Dona Natalina montada numa égua empunhando uma espingarda surge da estrada que corta o canavial e pára colada na porteira, põe Maria Clementina em prantos na garupa e volta para a fazenda.
Sentada ao lado da menina, Dona Natalina tenta acalmá-la. A Dona Consolação dá um copo de água para Maria Clementina que mal termina de contar sobre o grito da irmã, a parteira monta de volta na égua, ajuda a menina a subir na garupa segurando seu braço e sai em disparada. Elas passam pela estrada principal, porque tem menos porteiras. O galope levanta um poeirão que depois vai ficar assentado nas folhas dos matinhos da beira da estrada.
Chegam a casa e o sol da tarde ainda está quente. Dona ‘Das Dores está chegando para prestar ajuda e abre o colchete do quintal para elas passarem. Dona Natalina leva a égua até a porta da cozinha e, mais que depressa, desmonta e entra para a casa dando suas ordens enquanto lava as mãos no tanque. Dona ‘Das Dores chega ofegante atrás e ajuda Maria Clementina a descer da égua. Tudo está meio providenciado e a parterira não perde mais tempo. Se tranca no quarto junto com Dona Saudade e Alma. Maria Clementina está um pouco atordoada e Dona ‘Das Dores aflita e angustiada.
Noite difícil. O bebê nasce com vida, mas Vitória não aguenta. Maria Clementina demora para entender o que está acontecendo quando sua avó vem abraçá-la lacrimejando.
O mato da horta cresceu e Maria Clementina está debulhando milho no balde sentada perto do galinheiro. Alma está com Serafim no colo, tentando fazê-lo dormir. Dona Saudade assopra as primeiras faíscas para fazer o fogo pegar na lenha do fogão.
Tudo isso vai se tornar apenas uma lembrança distorcida na memória quase esquecida da velha Maria Clementina.
- Menina! Termina de tratar das galinhas e vem me ajudar na cozinha!

