Se ela não sentisse frio

Francisco Barbosa
Jul 10, 2017 · 5 min read
Fan Art — Cartas de amor aos mortos

A noite escura e fria faz Vanessa se arrepiar na varanda da casa. Cruza os braços e encolhe os ombros para se sentir mais confortável. Há apenas o cricrilar de um grilo ao longe. O vento sopra em seu rosto e seus lábios ficam secos. Ela se força para não chorar. É madrugada, mas não se importa com o cansaço. Ela imagina uma fantasia sobre um mundo encantado e se culpa por não poder transformar esse mundo imaginário em mundo real. Lembranças tristes invadem seus pensamentos. Misturam-se à fantasia e à culpa. Fechar os olhos e respirar fundo não ajuda a aliviar a tensão. Está frio. Um coaxar se junta harmoniosamente ao cricrilar, mas esse ritmo não interfere imediatamente ao tom dos sentimentos de Vanessa. Ela não está só. Na sala volta a ouvir copos tilintando sobre a mesa-de-centro. Amigos bêbados e drogados ainda aproveitam a última “viagem”. Não importa quem limparia a bagunça. O fim de semana vai demora a acabar. Sem se despedir, ela pega suas coisas mal arrumadas na bolsa, entra no carro e volta para casa. Enfim deixa algumas lágrimas escaparem.

Em casa, se encolhe no sofá da sala. Olha fixamente para o horizonte de lugar nenhum. O sol, nascente, assalta a penumbra do ambiente frio do apartamento. Seus raios destacam alguns móveis. Vanessa percebe seu violino sobre a poltrona à sua frente, arco no chão. Ele a chama como há muito não a chamava. Sente sua dor e quer confortá-la. Ela não sabe se aceita o afago desse companheiro. Demora a alcançá-lo. Acaricia-o. Recorda-se dos recitais, do equilíbrio da orquestra, dos movimentos calorosos dos músicos sob o impulso frenético do maestro com sua batuta. Mas ela não consegue mais acompanhar seus movimentos. Apóia o instrumento no ombro, reclina sua cabeça suavemente. Com cautela, atrita o arco em suas cordas. Temerosa, não quer violentar o amigo. O pulsar acelerado em suas artérias e a pressão de sua cabeça que dói percorrem seu corpo em fuga. Encontram caminho pelos braços e fogem constantemente por suas mãos delicadas. Fuga sonora. Produzem o som. Compõem a melodia que ecoa pelos corredores do prédio. Desperta a tristeza conformada dos vizinhos. que iniciam seus dias melancólicos. Parecem compartilhar do sofrimento da violinista que não sabem onde está. Apenas ouvem e revivem seus traumas. A mulher que faz o café é abandonada mais uma vez pelo marido. O velho que toma seus remédios enterra o filho mais uma vez. O menino que acorda incomodado com a claridade se despede de seu melhor amigo ao se mudar mais uma vez . O executivo que vai para a garagem perde a guarda dos filhos mais uma vez. A adolescente que veste seu uniforme da escola mais uma vez é estuprada. O jovem que chega da balada mais uma vez mata o amigo na roleta russa.

A violinista está mergulhada na melodia que sai de si. Não ouve o telefone que está tocando sobre a estante, ao seu lado. Vibra e se move para a borda do móvel. Cai sobre o tapete. Chama a atenção de Vanessa que interrompe a música. Abandona o violino. A rotina se restabelece. Atende. “Onde você esteve?” diz a voz furiosa do outro lado da linha. “Não importa” a moça responde tentando retornar à realidade. “Estamos indo aí!” diz a voz. “Não vou estar aqui” Vanessa quer ficar sozinha. “E pra onde vai?” a voz inquire. “Não sei ainda” ela rói as unhas. “A gente não vai deixar você sumir de novo” a voz tenta se acalmar. “Me esquece! Vai ser mais fácil que me impedir!” a fúria parece se transferir para a moça. “Pra mim, vocês já morreram!” chora em soluços. Senta no tapete. Está confusa. Olha o telefone e não quer mais ouvir a voz que insiste. Joga ele para o lado. Pranto. Nem mais o afago do companheiro de quatro cordas pode ajudá-la neste momento. Também quer que ele fique longe. Empurra-o com desdém. Chora.

Já está à tarde. A campainha toca. Vanessa acorda assustada com o som. Percebe que dormiu, cansada, no chão da sala. A campainha insiste. Ela vai até a porta. A cabeça dói. Roda a chave. Não precisa tocar a maçaneta. O casal a empurra ao invadir. “Arrume suas coisas” o homem começa a juntar umas roupas que estavam espalhadas “Vamos te levar para casa agora” ele vai para o quarto procurar uma mala. Vanessa se livra dos braços da mulher que quer abraçá-la. Vai para o sofá. A mulher a segue e se senta ao seu lado. “Será melhor assim…” a mulher quer explicar. A moça já ouviu essas palavras antes. Sempre diziam a mesma coisa. Nunca a convenceram. O homem sai do quarto com uma mala pesada. “O que estão fazendo aí paradas?” ele tem pressa. Leonardo entra no apartamento sem entender a porta aberta. “Vanessa, você me deixou a pé no sítio!” disse o jovem sorrindo. A mulher se levanta. Não quer vê-lo. Vai para a cozinha. “O que eles fazem aqui?” ele percebeu o casal, o homem com a mala nas mãos e a mulher saindo da sala. “É tudo culpa sua!” gritou o homem largando a mala e indo rumo ao rapaz. Quer matá-lo se puder. Vanessa impede que o alcance. “Sai daqui!” ela grita. A mulher na cozinha tapa os ouvidos. O homem a empurra. Ela cai no chão. Ele agarra o rapaz e o espanca. O rapaz tenta se defender. A mulher na cozinha chora baixo. Vanessa vê o violino. Pelas costas do homem, acerta o instrumento em sua nuca. Ele cai desacordado e sangrando. Leonardo a abraça e tira o violino de suas mãos. Ela tem medo. Eles choram. A mulher na cozinha percebe o silêncio. Volta para a sala, vê o homem caído e corre até ele. “O que vocês fizeram?” grita. Agacha-se ao seu lado, mas não quer tocá-lo. Está assustada. Está anoitecendo e o ar frio se convida para participar da cena e resfriar os corações acelerados da sala.

É uma lembrança. Vanessa está velha agora. Abandonada há muito tempo pelo rapaz que um dia a fez fugir de casa. Com a culpa pela morte do pai sobre seus ombros. Com o rancor da mãe que morreu sem a perdoar. Sem coragem de reatar sua amizade com o violino assassino.

Onde Coloquei Minha Onomatopeia

Um lugar para procurar e encontrar as onomatopeias perdidas na vida.

Francisco Barbosa

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Sem contar histórias, enlouqueço.

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