A treta entre o Spotify e a Indústria Fonográfica

Uma briga entre gigantes na qual nós, os consumidores, somos reféns

Foto (reprodução)

Vivemos no meio de uma discussão interminável entre os serviços de streaming e gravadoras. Ambos defendem seu próprio lado, claro. Mas ambos se esqueceram que se os consumidores se irritarem de vez com essa palhaçada nossa de cada dia, todos vão lucrar muito menos. Steve Jobs dizia que as pessoas não sabiam o que elas de fato queriam até que o mercado apresentasse para elas. Será mesmo que precisamos do mercado para isso? Bons tempos aqueles do Napster

A cantora Taylor Swift comprou uma briga feia com o Spotify no final de 2014. A cantora queria que seu álbum 1989 fosse liberado somente para os assinantes que pagavam pelo serviço premium da rede. E o Spotify se negou a fazer isso, dizendo que o álbum seria disponibilizado para todos os usuários. Taylor fez, então, que seu descontentamento se tornasse público, e apontou diversas falhas do Spotify. Essa polêmica se arrastou por vários meses, ganhando capas de jornais e lugar de destaque na home de diversos portais. Taylor, depois de muita negociação, anunciou a retirada de todo seu conteúdo do serviço, dizendo que faria um acordo de exclusividade com o serviço de streaming da Apple, o Apple Music.

Capa da Bloomberg e da Time na época da discussão.

Embora tenha voltado atrás em sua decisão (provavelmente por pressão da sua gravadora, a Warner Music) o álbum 1989 pode ser visualizado no Spotify, mas seu conteúdo não pode ser acessado. O serviço explica essa impossibilidade com a mensagem:

“O artista ou seus representantes decidiram não liberar este álbum no Spotify ainda. Nós estamos trabalhando nisso e esperamos fazê-los mudar de ideia logo. ”

Em 2015, o jornal Financial Times publicou que o Spotify estava sendo pressionado pela Warner Music para limitar ainda mais suas assinaturas gratuitas. O motivo dessa pressão, segundo o jornal, seria de que a receita gerada pelas contas gratuitas do Spotify foi de U$ 295 milhões para as gravadoras, enquanto as assinaturas pagas geraram U$ 800 milhões.

De fato, são valores muito expressivos, embora discrepantes. E a intenção da gravadora era de fazer que o número de assinantes pagos aumentasse, restringindo ainda mais as contas gratuitas.

Isso não vai acontecer. Se o acesso gratuito for limitado, os usuários irão recorrer à métodos ilegais de reprodução de música. E problemas como os que ocorreram em 2013 vão se repetir. A indústria fonográfica gastou bilhões de dólares em lobby no senado americano para que fosse aprovado um conjunto de leis antipirataria, que inclusive foi responsável pela derrubada do site de compartilhamento de arquivos Mega Upload e pela prisão de seu criador, o alemão, Kim Dotcom.

Já passou da hora dos usuários terem lugar de fala nessa briga, e expor como esses serviços devem proceder. Afinal, somos nós que pagamos e utilizamos esses serviços. A principal causa da pirataria de música, nos últimos 15 anos, foi o preço abusivo de CDs, e consigo ver isso acontecendo novamente dentro dos próximos cinco anos.

Os serviços de streaming reduziram consideravelmente a busca por cópias ilegais, tanto na indústria cinematográfica quanto na fonográfica. No entanto, isso não aconteceu pela boa intenção dos usuários de agir dentro da legalidade, mas sim por ser mais fácil e pelo alcance maior de conteúdo. Antes, era preciso visitar o site X ou Y para conseguir baixar o novo single de tal artista. Agora, tudo está concentrado num lugar só.

Se a intenção das gravadoras é realmente essa, eles podem esperar uma briga feia com os próximos Napsters e Mega Uploads. Quem dita o mercado somos nós. Nós sabemos o tipo de conteúdo que queremos, e principalmente, a forma que consumimos tudo isso.

Ainda assim, as redes de streaming não são santas. Não é de seu interesse, simplesmente, nos trazer música. Eles querem grana, e alta. E a concorrência dos serviços têm aumentado bastante, o que é ótimo. Os preços tendem a ficar mais baixos por causa dos concorrentes, e nos é disponibilizado diversas formas de consumo de música. Mas se todas as redes tomarem decisões como a do Spotify de não promover fortemente músicas e discos lançados previamente, de forma exclusiva em outros serviços, e nem incluir esses trabalhos em suas playlists, teremos que migrar de tempos em tempos entre esses serviços.

A resposta da Warner Music para essa decisão é cômica e ao mesmo tempo assertiva. O selo proibirá os artistas de fecharem acordo de exclusividade de lançamento com outros serviços. Segundo o presidente da gravadora, a decisão é para “proteger os usuários dessas negociatas de gigantes”.

Seria uma pena se cancelássemos nossas contas de todos esses serviços e começássemos a consumir conteúdo ilegal, não é?

Um recado meu, para o Senhor Spotify: Eu não preciso de você pra ouvir meu som. E essa, é melhor você ouvir.