Um furacão quando aparece

Sobre as desventuras de minha amiga Alice durante uma catástrofe atmosférica

Um furacão, quando aparece para arrancar a gente do chão, chega sem aviso. Não tem meteorologia, modelagem numérica, cartomante, órgão estadual, amigo, centro espírita que anuncie. Um dia o furacão chega e vupt. Arrasa o que tinha prumo e certeza, desfaz a arquitetura, sacode os copos nos armários. Demole. Confunde. Desespera. Entristece. E foi bem o que aconteceu com minha amiga Alice.

Ela estava sentada no sofá da sala, o gato no tapete, o namorado na cozinha, quando o furacão chegou. Ergueu a casa numa lufada sem tempero, arrancou da terra os alicerces, as vigas, as traves de metal. Carregou junto o jardim com a roseira e a caixa de areia do gato, lançando minha amiga para fora, pela janela. Subiram em direção às nuvens, coisa de uns nove mil metros, e Alice ficou de fora vendo a casa que continuava a acontecer, sem ela, com tudo dentro.

Passaram quase três meses vagando pelos ares, ela e a casa, separadas. De fora, a sentir o algodão das nuvens nos cabelos, os cristais de gelo que a partir de então lhe cobriam permanentemente os cílios e as sobrancelhas, Alice assistiu ao interior da casa que existia para além dela. Viu o gato bocejante no tapete, os livros ainda abertos sobre os móveis, esquecidos, não lidos, e o namorado que mexia, com colher de pau, uma panela no fogão.

A agonia foi tanta, ela me contou ontem em um áudio de Whatsapp, que por vezes desejou que tudo, ela e a casa, caíssem e se espatifassem em um campo de gado, uma lavoura de soja ou um telhado de fábrica. Em alguns momentos, a maçaneta da porta esteve perto de suas mãos. Mas Alice sentia sempre que não podia, que não devia girar a maçaneta, não com o vento pronto para devastar tudo o que havia. E o furacão fazendo festa nela, embaraçando tranças, dedos, pontas do vestido. Até que, certa noite, começaram a cair.

E caindo caíram. Não se espatifaram como Alice previa. Desceram feito penas e o furacão depositou Alice na casa, pela janela, sentada no sofá, diante do gato no tapete, dos livros, do namorado que punha a mesa com pratos e talheres, alheio a tudo o que ocorrera. Alice, quem diria, caiu no exato lugar de antes e a vida continuou como se o tempo não tivesse passado. Ela se diz grata a forças misteriosas que não sabe nomear e alegre por perceber que o gato e o namorado nada notam e que os livros permanecem abertos nas mesmas páginas. O furacão, saiu hoje no jornal, passou no dia 7 de dezembro, se chama El Niño e tem alguma síndrome estranha, algo depressiva. Alice não quer mais falar sobre o assunto. Respeito. E sugiro um cineminha no sábado. Um furacão, quando aparece assim do nada, é melhor nem comentar.

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Paulliny Gualberto Tort

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Paulliny Gualberto Tort é jornalista e gosta de livros. Autora do romance Allegro ma non troppo (Oito e Meio).

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