Reapropriação No. 1

“Reapropriação” é uma série em que eu adapto uma obra e faço uma nova criação.

Na edição de hoje… “O Mercador de Veneza”.


Reapropriação No. 1

Você que olha pra cima
e não pros lados
você que olha pra baixo
e não pra frente
faz o fio do sabre dito decente
passar em falso, ao peito bem rente

Eles não têm olhos?
Elas não têm sensações?
Elas não têm mãos?
Eles não têm paixões?

Todos não comem a mesma comida
e buscam a cura pra qualquer aflição?
Todos não sentem o mesmo inverno,
primavera, outono e verão?

Não tome a carne.
Defenda o coração.


O mundo tem ficado muito conservador. A falência do liberalismo no início do século XX, que deu vazão ao fascismo, parece se repetir, dadas as óbvias diferenças sociopolíticas e temporais. A xenofobia da extrema-direita francesa, encabeçada por Marine Le Pen, quer um país sem muçulmanos. A extrema-direita brasileira consegue ser pior ainda. Seus grandes bastiões mostraram posições contra negros, mulheres e homossexuais — ajudando a apagar todas as conquistas desses três grupos desde a Lei Áurea, o movimento feminista e a decisão do STF de 05/2011 sobre o reconhecimento do casamento homoafetivo*, respectivamente — , e o movimento, no geral, prevê o retorno dos militares no poder. O que eles chamam de “governo militar” seria a grande solução para o Brasil. Traria o fim da corrupção (porque sim), o fim da criminalidade (porque todos vão andar armados por aí), ah, e o fim de muitas liberdades individuais.

Em vez de defender um texto de 2 mil anos atrás (que, apesar de pregar amor, só é lembrado por exaltar diferenças), prefiro citar um trecho de uma obra de pouco mais de 400.

“O Mercador de Veneza”, de Shakespeare, foi escrito no fim do século XVI, em uma época em que os judeus eram odiados e o antissemitismo era comum. Resumindo: Shylock, um judeu, aceita fazer um empréstimo para Antonio; se este não conseguir pagar, o judeu lhe cortará uma libra de carne do peito. Após uma série de eventos, o semita é julgado, e Shakespeare lhe conferiu um discurso icônico, em que mostra que é igual a todos os cristãos: tem olhos, mãos, órgãos, sangue…

Apesar de concluir o monólogo falando de vingança, Shylock pode ser visto como uma figura trágica, como uma vítima das circunstâncias, não como um vilão mal-intencionado apenas por ser judeu. E seu julgamento pode ser visto como uma piada, porque é realizado por pessoas sem a mínima capacidade para tal e com o objetivo único de prejudicá-lo, encontrando uma brecha no acordo firmado entre Shylock e Antonio.

Essa situação, infelizmente, pode ser transposta ao nosso Brasil atual. A visão ultradireitista é míope. Em vez de lutar contra as injustiças e facilidades que levam menores ao crime, é mais fácil prender todo mundo e pronto. Em vez de lutar para incluir os homossexuais no Artigo 5º da Constituição, cujo inciso IX atesta a igualdade de todos, se esforçam para excluir.

Enfim, para a Reapropriação No. 1, eu readaptei um trecho do discurso de Shylock, que reproduzo abaixo em tradução livre (e em forma de prosa):

Eu sou judeu. Judeus não têm olhos? Judeus não têm mãos, órgãos, sensações, emoções, paixões? Não são nutridos pelos mesmos alimentos, feridos pelas mesmas armas, sujeitos às mesmas doenças, curados pelos mesmos meios, aquecidos e esfriados pelos mesmos verões e inverno que os cristãos? Se nos alfinetar, não sangramos? Com cócegas, não rimos? Se nos envenenarem, não morremos? Se formos prejudicados, não nos vingamos? Se somos como vocês no resto, seremos iguais nesse quesito também.


O dístico final da Reapropriação No. 1 é o cerne do que eu quero dizer. É uma forma mais geral do que escreveu Drummond, apesar das críticas à homossexualidade na década de 1980, sobre a história de Ganimedes e Zeus no poema Rapto, de 1951. Reproduzo abaixo os últimos 4 versos do poema:

“baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.”

Amar é simples.


*Outro marco importante seria o ano de 1985, quando o Conselho Federal de Psicologia deixou de tratar a homossexualidade como uma doença.

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