Bandeirismos #2 — Union Jack

Tudo que você nunca soube sobre bandeiras, afinal vexilologia não é exatamente um hobbie popular

A bandeira do Reino Unido, popularmente conhecida como Union Jack

Uma das bandeiras mais reproduzidas da história, a Union Jack é o símbolo do Reino Unido desde 1606, mas nem sempre teve esse design. Sua origem está na morte da rainha da Inglaterra, Elizabeth I, em 1603. Como ela não tinha filhos, a coroa passou para o parente mais próximo, o primo James VI, rei da Escócia, que unificou os dois reinos e, três anos depois, encomendou uma bandeira que simbolizasse essa união.

Na época, a Inglaterra tinha como estandarte a Cruz de São Jorge, em vermelho, num fundo branco, e a Escócia utilizava a Cruz de Santo André, em branco, num fundo azul. Sobrepostas, elas passaram a formar a bandeira do Reino Unido, que é mais unido no nome do que em qualquer outra coisa e os Ingleses, então, hasteavam a bandeira assim:

Enquanto os escoceses a hasteavam assim:

O País de Gales acabou não sendo representado, pois na época da união fazia parte da Inglaterra e não era um país constituinte, como hoje são conhecidos e organizados os “países” dentro do Reino Unido. Caso tivesse alguma representação, provavelmente veríamos um dragão vermelho no meio da Union Jack e o Reino Unido passaria a fazer parte de um seleto grupo de países com dragões em seus estandartes — grupo esse que hoje só tem o Butão.

De 1606 pulamos para 1801, quando a Irlanda deixou de estar apenas em uma união pessoal —quando reconhecia o rei inglês como seu rei, mas mantinha seus próprios interesses políticos— e passou a integrar, de fato, o Reino Unido. Dessa forma, uma nova cruz de um outro santo precisou ser adicionada a bandeira, a de São Patrício, patrono dos irlandeses.

A bandeira de São Patrício, que muitas vezes representa a Irlanda do Norte

Essa bandeira, de origem católica, representava toda a Irlanda até 1922, quando a guerra de independência do país acabou e só a Irlanda do Norte, de maioria protestante, permaneceu no Reino Unido. E apesar da associação de São Patrício com a cor verde, do trevo shamrock, a cruz que representa os norte-irlandeses é vermelha, pois vem da Ordem de São Patrício, uma antiga ordem de cavaleiros que não condecora ninguém desde 1936 — sem contar que o verde está mais ligado a Irlanda independente, da capital Dublin, não a parte que “ainda” está no Reino Unido, cuja capital é Belfast.

A Irlanda do Norte, inclusive, é o único país constituinte do reino que não possui um estandarte oficial. Em eventos da Coroa, a própria bandeira de São Patrício é muitas vezes utilizada, mas nem sempre foi assim. Até a dissolução do parlamento norte-irlandês, em 1972, o país utilizava o Estandarte de Ulster, sendo ulster o nome da antiga região de maioria protestante da ilha da Irlanda e também a ideologia que prega a permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido, se opondo a unificação.

O Estandarte de Ulster, que representa a Irlanda do Norte como parte do Reino Unido

Com tantas mudanças e simbologias envolvidas, é claro que não faltam polêmicas em torno da Union Jack. Em 1922, quando o Estado Livre Irlandês foi formado, muito se falou sobre retomar o design anterior a 1801, mas como a Irlanda do Norte permaneceu no reino, nada precisou ser feito.

Em 2003, uma campanha contra o racismo tentou colocar a cor preta na bandeira, mas não foi para frente. Já em 2007, foi a vez da campanha para representar Gales, mas está também não vingou. Por último, em 2014, o referendo de independência da Escócia renovou o debate de mudança, mas os escoceses não deixaram o Reino Unido e, novamente, nada foi feito.

A bandeira sugeria em 2007 que incluía o dragão vermelho do País de Gales.

Apesar de nenhuma mudança ter acontecido dentro do Reino Unido, não é o caso dos Reinos da Comunidade de Nações. Vários países consideraram remover a Union Jack de suas bandeiras, por acharem que ela representa o tempo em que eram colônias britânicas, apesar de manterem a rainha como chefe de estado.

É o caso, principalmente, da Nova Zelândia, que atualmente passa por um processo de mudança cujo objetivo é justamente tirar a Union Jack do canto esquerdo de seu estandarte, simbologia conhecida como “pavilhão britânico”, uma situação que se repete na Austrália, Tuvalu, Fiji, Niue e Ilhas Cook, além de 14 territórios britânicos espalhados pelo mundo — e até na bandeira do Havaí.

As bandeiras da Nova Zelândia (a esquerda) e da Austrália (a direita), que possuem o pavilhão britânico

Para fechar, é bom entender:

Reino Unido é o país, que reúne os países constituintes Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte, que, por sua vez, funcionam como regiões com muita ou pouca independência uma da outra. A Escócia, por exemplo, tem seu próprio parlamento e uma divisão própria no exército real, já Gales tem apenas uma assembléia nacional.

Grã-Bretanha é a maior ilha do Reino Unido, que inclui os constituintes acima, menos a Irlanda do Norte que, obviamente, está na ilha da Irlanda, a terceira maior da Europa — superada pela própria Grã-Bretanha e pela Islândia.

Reino da Comunidade de Nações é formada pelo Reino Unido e outros quinze países independentes, a maioria deles antigas colônias britânicas, como Austrália, Canadá e Nova Zelândia. Todos são soberanos e possuem seus chefes de governo, mas tem em comum a Rainha Elizabeth II como chefe de estado, uma posição meramente simbólica, mas que parece agradar a todos os envolvidos. No Canadá — onde, por lei, a Union Jack também é uma bandeira oficial — você pode pedir ao governo uma foto oficial da rainha, pelo telefone ou pela internet, e eles te entregam ela em casa.

Em azul o Reino Unido e os 15 membros da Comunidade de Nações. Em vermelho, antigos membros — as colônias britânicas na África (como a África do Sul) e na Ásia (como a Índia), além da Irlanda e da Guiana

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