As lembranças do pai

O ano era 81 e o mês novembro. Lembrava do que haviam lhe contado, mas não sabia o que era verdade.

Por curiosidade fez uma consulta. O único registro que encontrou do nome do pai, o trazia associado à qualidade de vítima no Art. 121 do Código Penal Brasileiro.

Com o número do processo em mãos, resolveu remexer o passado. Uma tarde, um fórum, duas varas cíveis e um arquivo público depois, tinha a sentença em mãos: Não encontraram provas suficientes.

Mesmo frustrado, o simples fato de ter se mexido, o fazia se sentir diferente. Como se finalmente estivesse quite por não se conformar com a história que sempre lhe repetiram.

Voltou para a casa decidido a enterrar as descobertas confirmadas. Parou o carro do outro lado da rua. Olhou para os dois lados. Atravessou sem que ninguém lhe desse a mão.


Já era noite.
Deitado na cama, lembrou que, na época, morava numa casa grande, terraço, duas salas, cinco quartos.
Lembrou que havia um quartinho nos fundos, vizinho a área de serviço, e nele um aquário…
Lembrou das armadilhas que o pai fazia à noite para capturar as “catitas”, e da maneira que as executava com água fervente pela manhã.
Lembrou da mãe ter encontrado um homem vestido de camisola dormindo na área de serviço, que fugiu às pressas (talvéz mais assustado que ela) pelo quintal aos gritos de “pega ladrão”.
Lembrou do primeiro corte no queixo, aberto na quina do braço da poltrona quando ainda tinha quatro anos.
Lembrou de ter furado o saco de leite de Totonho, inquilino nosso da casa de Afogados. E que essa trela seria seu maior pecado nas confissões do catecismo, para a primeira comunhão.
Lembrou da mãe tomando aulas de tiro ao alvo com a beretta do pai, por causa do ladrão da camisola. E que o alvo era um boneco recortado de uma caixa grande de papelão.
Lembrou de plantarem milho no quintal para o São João.
Lembrou de brechar a avó pelo buraco da fechadura e flagrá-la usando um penico verde que guardava embaixo da cama. Lembrou também de um penico na cor vermelha.
Lembrou que foi ela quem trouxe as primeiras revistas em quadrinhos, e que foi esse o seu estímulo para aprender a ler logo cedo.
Lembrou que o pai criava também, além dos peixes no aquário, um jabuti, um curió, mais um canário e um galo de campina.
Lembrou de se esconder embaixo da mesa para comer o telhadinho de pipoca de uma casinha que enfeitava o bolo de aniversário da irmã do meio.
Lembrou de correr em volta da mesma mesa, perseguido pela sandália havaiana azul da mãe, por outra trela qualquer.
Lembrou de ter ido até a casa de “Lacrau”, um velho biscateiro que morava num cortiço do fim da rua, e que esta fuga talvez tenha lhe rendido o primeiro (e único?) castigo dado pelo pai.
Lembrou que gostavam de assistir aos Trapalhões. Lembrou que sempre, antes de começar o programa, o pai dizia: “Agora é hora dos Trá-pá…” Para que ele completasse gritando: “lhõõõões”.
Lembrou que tinha um sonho de conhecer Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. E que planejava tirar a peruca dele.
Lembrou que brincava, com as minhas irmãs de cheirarem os furicos uns dos outros, e que caíamos na gargalhada dizendo: “Que cheiro de bufa!”
Lembrou dos disquinhos de histórias coloridos que aprendeu a colocar sozinho na vitrola, e que entre os preferidos estavam o que tinha na capa um homem fantasiado de coelho cinza, e o dos três patinhos.
Lembrou de ter deslocado o braço de irmã menor, pelo menos umas duas vezes, sem se dar conta do quanto ela era fragilzinha e ele, bem maior que ela.
Lembrou de um crachá velho que transformou em distintivo reproduzindo a palavra “police” em letrinhas tortas, mesmo sem saber da existência de outras línguas e idiomas.
Lembrou que foi na cozinha desta casa, cenário de tantas lembranças, que ouviu o pai anunciar que teria que trabalhar em Palmares, e que por este motivo: “papai só vem pra casa nos finais de semana”.
Lembrou que era noite e que chorou, pedindo que o pai não fosse. Lembrou que que não conseguiu arrumar justificativa para tantas lágrimas, nem para que o pai atendesse seu pedido. Lembrou de ter soluçado sem entender o porquê. Lembrou que a mãe o ajudou a se acalmar, e que talvez seja esta a primeira lembrança de ter sido chamado de rapazinho.
Depois disso a lembrança que vem, é a de ter sido levado para passar um dia “diferente” na casa de uma tia e tio distantes.
Lembrou que o ano era 81, e o mês era novembro.
Lembrou de fazer xixi dentro do box do banheiro, enquanto lhe davam banho.
Lembrou de lhe colocarem uma camisa, talvez azul marinho. Lembrou que enquanto o vestiam, começaram a contar a história de que um dia, papai do céu chama as pessoas que gosta pra ficar mais perto dele…
Lembrou que antes da conversa terminar, já se perguntava em pensamento, se era o “painho” dele que papai do céu queria chamar.
Lembrou que talvez tenha sido a primeira vez que ouviu algo sobre ser, a partir de então, o homenzinho da casa.
Depois disso, lembrou do caixão no meio da sala na casa do avô. Lembrou de alguém o colocando nos braços para ver o pai pela última vez. Lembrou dele coberto de flores brancas. Lembrou das bolinhas de algodão, “uma em cada nariz”. Lembrou de eu ter perguntado o porquê daquilo.
Não lembrou de quantos em quantos braços passou, nem se passou de tantos em tantos braços assim.
Lembrou de haver muita gente triste, chorando, mas não lembrou quem eram…
Não lembrou de ter visto as irmãs alí, com ele.
Lembrou que se sentiu triste, mas não soube se por si mesmo, pelo pai, ou pelos outros… não lembrou se chorou , nem o quanto.
O que vinha sempre que tentava recordar, era um sentimento estranho… uma saudade do que lhe diziam como o pai era. Do que imaginava que tinham vivido juntos.
Cresceu assim, se espelhando em lembranças.
(Alieksandr Míchkin, 12.07.13)

Sempre se encolhia no mesmo canto da casa. Pernas cruzadas. Dormentes. Papéis soltos pelo chão. Agora sentia um nó na garganta, um aperto, um peso vazio de quase 35 anos. Um cansaço de procurar o que lembrar e não descobrir nada. Talvez fosse a hora de encerrar de vez essa parte da história.

Abriu a pasta velha de etiqueta amarelada e lá estava uma fotocópia da mão do pai. Com ele pequenininho, numa foto 3x4 de colégio, no meio de sua palma.

Uma lembrança deixada, que já não lembrava mais. Um registro que, para ele, significava uma tentativa de proteção. De dizer: "Conta comigo, filho". Qual teria sido a intenção do pai? Ou aquilo teria sido sem nenhuma intenção? Simplesmente amor.

Descobriu alí, no carinho seco e cinza do papel, que tinham as mãos iguais. No formato. Nas proporções. No contorno dos dedos. Na esperança daquela linha da vida interrompida.


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