Ensaio: São Paulo já foi o túmulo do samba

Fotos de Alice Jardim com texto de Mídia NINJA, durante vivência do projeto Outros Carnavais 2016 • Brasil

Foi o maior Carnaval de rua da história de São Paulo. A cidade que Vinicius de Morais apelidou de “túmulo do samba” provou, de uma vez por todas, que gosta de brincar, de beber, de namorar, de cantar e, por que não?, de sambar. Milhões de paulistanos correram, durante os dias de folia, atrás de mais de 100 blocos e cordões.

Sabe-se que na mitologia egípcia (ou grega para alguns) havia um grande pássaro reconhecido como o progenitor do deus Rá, deus do sol, uma ave capaz de viver por centenas de anos e que, e no final de cada ciclo de vida preparava uma pira funerária com ervas aromáticas, para ali morrer numa auto-combustão e depois ressurgir das próprias cinzas.

Pois a Fênix do Carnaval de São Paulo renasceu com a diversidade que tomou conta das ruas. Blocos novos e tradicionais, populares e coxinhas, comunistas e capitalistas dividiram amorosamente o espaço urbano de um jeito que não se via há tanto tempo. É incrível como o número de ocorrências policiais foram insignificantes perto da alegria da festa. E uma cidade que já foi convulsionada por chacinas e massacres, de repente, estava transformada em oásis da tolerância. Foi o que se viu, por exemplo, na última sexta feira (5/2) , com a saída do bloco Ilú OBá de Min, de tambores africanos tocados apenas por mulheres, que homenageou a diva Elza Soares, além das entidades do candomblé. Foi tão lindo que fez todo mundo se esquecer dos sinistros Eduardo Cunha, Marcos Feliciano e Bolsonaros.

Ainda bem. Durante os últimos anos, as escolas de samba, confinadas no espaço do Sambódromo, ganharam destaque e primazia nas políticas públicas enquanto os blocos de rua perderam sua força. Isso piorou dramaticamente na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab, que arrasou a cidade, com sua política higienista e elitista. Só para lembrar, Kassab revogou o decreto lei 37.143 de 1997, que permitia a presença de vendedores ambulantes no centro da cidade. Sem cerveja?

Um desastre! Carnaval sem chuva, suor e cerveja não é Carnaval.

O Carnaval de São Paulo vem de longe — 1885 — , quando a Prefeitura de São Paulo promoveu sua primeira intervenção no carnaval de rua da cidade, realizando um desfile dos cordões ja existentes na época. Mas foi na década de 30 que o carnaval encorpou, com a formação de blocos, como o Bloco do Boi, Cordão das Bahianas, Bloco da Mocidade e o Vae Vae, a atual escola de samba Vai Vai.

Os foliões eram principalmente o povaréu que fazia o êxodo rural do interior do Estado, após a crise do café (1929). Obrigados a “tentar a vida” na capital, a maioria deles eram negros e imigrantes pobres, que se instalavam nos cortiços e favelas de uma São Paulo desde sempre segregadora. Aí já se ouviam batuques que influenciariam a cultura paulista de forma definitiva.

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