Assisti “Cooked” e resolvi fazer um fermento vivo: Um diário

Parte 1 — as primeiras 48 horas

Caso você tenha Netflix e seja interessado por comida, você deve saber que está disponível por lá há algum tempo uma série chamada “Cooked”, estrelada pelo ativista da “comida de verdade” Michael Pollan.

Michael Pollan é um cara careca, espirituoso, e que faz reflexões bastante interessantes sobre o ato de comer (ele também é uma pessoa bastante lida, respeitada e importante, mas sobre isso você pode pesquisar na Wikipedia). “Cooked” é dividido em quatro episódios: fogo, água, ar e terra. Eu assisti aos três primeiros e o último ainda não vi. Do que vi até agora, gostei muito. A visão do Michael é muito parecida com a minha: ele defende que temos que comer comida de verdade.

Comida de verdade é tudo aquilo que a gente mesmo faz. Um miojo não é comida de verdade, mas um macarrão que você faz a massa em casa e prepara o molho de tomates, é. Um nugget não é comida de verdade, mas um frango comprado na feira e empanado, é. Michael defende o conceito de “slow food” e de saber a procedência dos alimentos. Ele também acredita muito pouco nessas dietas com restrições alimentares e come de tudo: de carne a pães.

Todo a série me encantou muito, talvez porque eu concorde com quase tudo que ele fala. Também sou adepta da comida de verdade, evito ao máximo comida processada (embora de vez em quando coma salgadinhos porque ninguém é de ferro) e não tenho restrições alimentares. Como carne, lactose e glúten. Mas faço questão de, sempre que possível, preparar esses alimentos. Gosto muito de cozinhar e, dentro da culinária, uma das coisas que mais me encanta é fazer pão.

Poderia dissertar longamente sobre o ato de fazer pão (mas isso deixaria o texto muito longo, quem sabe outra vez), mas o fato é que no terceiro episódio, “ar”, o Michael explica um pouco sobre essa loucura do glúten-free e de como o nosso organismo tem dificuldade pra processar a farinha branca processada, mas pode responder muito bem à farinha integral e a fermentação natural. Vocês devem assistir, mas em dada hora do episódio ele prepara um pão com uma massa chamada sourdough (que significa algo como “massa azeda” em português). Essa massa é um pão de fermentação lenta que não leva fermento industrializado na fabricação. A fermentação ocorre do zero, a partir da farinha e da água, e dos microorganismos que vão se formando ali.

Um pão desses demora coisa de dias pra ficar pronto, mas também tem um outro jeito de se fazer pão com fermentação natural que é: produzindo seu próprio fermento em casa. Como já tinha ouvido falar do “fermento vivo” ou “levain” ou “padre nosso”, fiquei inspirada a tentar. E como esse processo vai me tomar dias, resolvi registrar tudo em um diário que vocês vão ler aqui (se tiverem saco).

Dia 1 — O total e absoluto nada

Pesquisei várias receitas na internet e é preciso saber que pra começar um fermento vivo, você tem um mar de possibilidades. Tem receita de farinha branca com água, farinha integral com água, farinha integral com suco, uva passa com farinha integral, iogurte natural com farinha branca… enfim, mil jeitos. Optei pelo de farinha integral com suco de abacaxi porque é o que eu tinha em casa.

Pra receita, caso lhes interesse, será preciso 1/4 de um copo de suco de abacaxi e 3 e meia colheres bem cheias de farinha integral. Você mistura isso em um recipiente de vidro ou de cerâmica até ficar bem homogêneo. Aí você tampa com papel filme ou um pano e deixa ele em um lugar sem luz, sem calor e sem trepidações. Dentro do armário é o mais indicado. Importante: o suco precisa ser natural, feito na hora e coado (seu suco de caixinha não é capaz de fazer fermento, sinto informar).

Depois disso feito e do bicho botado no armário o que resta é esperar. Esperar o fermento ficar pronto é uma boa maneira de entender como o universo pode ter surgido de um silêncio profundo e de um nada imenso. Nas primeiras vinte e quatro horas NA-DA vai acontecer. Você vai espiar o bichinho em busca de uma bolhinha de ar que seja e: na-da. Abri o armário só três vezes no dia, segundo o indicado na receita que eu li e mexi a massa um pouquinho. Confesso que ao fim das primeiras vinte e quatro horas já achei que tudo aquilo seria um fracasso imenso, principalmente porque uma amiga minha me disse que a mãe dela tinha tentado a mesma receita e fracassado redondamente. Felizmente, eu estava enganada.

Dia 2 — Fiat Lux

O segundo dia foi hoje e logo pela manhã fui espiar o bicho em busca de vida. Mexi um pouco a massa e percebi que ela estava mais leve e mais aerada. Nada assim muito significativo, mas já uma melhora.

Importante salientar: aqui em Londrina, onde moro, faz cerca de 30 graus. O calor é bem propício pros fermentos (e péssimo para as pessoas). Acho que isso ajudou o desenvolvimento rápido do bicho. Ouvi dizer (e li relatos tristíssimos) que às vezes a receita não funciona. Fiquei bastante apreensiva, mas respirei aliviada na hora do almoço, quando espiei de novo.

De tarde, mais ou menos 30 e poucas horas depois do processo começado, o fermento já estava aerado e borbulhante. Tinha vida e o batizei de George. George é o nome do irmão da Peppa Pig, e eu falo isso com muita convicção e sem nenhum medo de parecer imatura porque estou fazendo um fermento e um fermento é algo muito adulto.

Esse é o George. Não muito atrativo, eu sei.

Passadas as 48 horas, no comecinho da noite, era hora de alimentar de novo o George. Tem que dar farinha e mais suco de abacaxi. Detalhe: o suco de abacaxi tem que estar fresco. Dessa vez não tinha abacaxi em casa e morri em NOVE REAIS (culpa da crise?) pra comprar um abacaxi novo. Bati o suco, coei e dei de comer pro George duas colheres de suco de abacaxi e três colheres de farinha integral. Mexi a mistura e achei um pouco dura, aí coloquei mais suco de abacaxi. Achei que caiu demais e botei mais farinha. Fiquei tensa porque achei que tinha matado o George de supernutrição.

Até o presente momento as notícias são boas. George continua feliz e borbulhante e agora ocupa metade do potinho designado pra ele. Temos que esperar mais 48 horas pra dar mais comida a ele.

Volto com novidades amanhã, torçam por mim.