Diário do fermento vivo
Parte 2


Como vocês já devem saber (caso tenham lido o texto anterior que postei aqui nesse humilde espaço), desde que assisti a série “Cooked” no Netflix, resolvi me aventurar na fabricação de um fermento de leveduras feito do zero. Podia comprar no mercado? Podia e inclusive temos estoques de fermento aqui em casa porque se faz pão com certa frequência, mas vocês tem que entender que sou uma senhora de idade na alma e que gosto dessas coisas assim, feitas do zero, completamente naturais (mas de um jeito não-Bela-Gil).
Já adianto pra vocês que caso vocês queiram continuar acompanhando essa história, o spoiler é que até termos um pão já vai ser quase feriado de tiradentes. Isso porque os processos naturais demoram bastante e o pão feito com esse fermento natural demora coisa de dez horas pra crescer (junte isso ao tempo que o fermento demora pra ficar pronto e temos um bocado de tempo a esperar. Pode ser que até lá nem tenhamos presidente mais). Ou seja: temos aqui o conceito de “slow food” elevado ao último grau. Mas de coisas rápidas já bastam as mudanças do país e as mídias sociais. Esse é um espaço de calmaria.
Feita essa introdução inútil, vamos ao que aconteceu hoje. Imagino que todos estejam curiosos pra saber se o George está vivo, certo?
Dia 3 — Nada de novo no front
Como contei no diário de ontem (leia aqui), no finzinho da noite de ontem alimentei o George com suco de abacaxi e farinha integral. Como não sou muito boa nisso de seguir receitas (faço tudo no olho, meu namorado maníaco da receita acha um horror), achei que a massa estava um pouco dura e coloquei um tico mais de suco de abacaxi e farinha e acabei temendo pela integridade física de George.
Felizmente, hoje ao acordar atestei que estava tudo bem. O fermento continua borbulhando e hoje já deu pra ver que a massa tinha um aspecto mais aerado. Nessas 72 horas temos de novo um exercício de paciência: o bicho está crescendo, mas ainda não podemos alimentá-lo, é preciso esperar mais um pouquinho. Segundo as instruções que estou seguindo, quando 96 horas se completarem a gente tem que alimentar o George de novo. Estou esperando ansiosa.


A graça de ter uma coisa viva dentro do seu armário é que você pode dar olhadinhas (não muito, porque o bicho é muito sensível) e ver que mudanças estão acontecendo. Deve ter reações químicas muito malucas e algo que a ciência deve explicar de um jeito muito didático, mas eu sou redatora e não entendo nada de química. Sei o que vejo: ter algo se formando dentro do seu armário que uma hora se tornará comida é uma espécie de milagre. Nem digo milagre no sentido religioso, mas um milagre da ciência, da natureza, entenda como quiser. Fato é que ver algo surgindo do nada, apenas com suco de abacaxi e farinha me dá uma espécie de felicidade boba.
Mexi o George três vezes no dia. Dizem que é o máximo que você pode cutucar o bicho. Acho que os fermentos são reservados, assim como eu. É muito importante preservar o ar dentro da mistura porque é também isso que alimenta os fungos e bactérias que vão criar o fermento. Agora só mexo nele amanhã porque é preciso respeitar o alimento (e as vontades de George).
Volto amanhã com mais novidades, sim? Me desejem sorte e muito obrigada pelos comentários, foram bastante valiosos.