Diário do fermento vivo

Parte 3

Se vocês estiverem acompanhando esse diário desde o começo (leiam a parte 1 e a parte 2), vocês sabem que as coisas estão indo melhor do que o esperado. Eu cozinho e mexo com cozinha há algum tempo. Diria “desde sempre”, mas a verdade é que até os dezoito ou dezenove anos eu só sabia cozinhar coisas simples como bolos, bifes, strogonoff, lasanha e macarrão. Essas coisas mais complexas como massa do macarrão, massa de pizza e pão eu aprendi recentemente, deve fazer uns dois anos.

Apesar de me virar bem dentro de uma cozinha, eu sempre sofro do medo constante da coisa não dar certo toda vez que testo uma receita nova. Confesso que me aconteceu poucas vezes, esse errar fatalmente. O pior deles foi em uma receita de pão de queijo que, assim que saiu do forno até dava pra comer com algum esforço (minha mãe até mentiu dizendo que estava bom), mas assim que esfriou ficou tão duro que podia ser usado como uma arma letal.

Recentemente refiz (usei outra receita) de pão de queijo e dessa vez deu certo. Apesar de achar que agora tenho cera experiência, o mesmo medo do erro me veio quando comecei esse projeto do fermento vivo. Em cada etapa morro de medo que algo de errado aconteça e que George morra. Até agora seguimos firmes.

Ah, ontem comecei a ler “Cozinhar”, o livro do Michael Pollan que inspirou a série do Netflix. As reflexões são boas. Acho que pra quem tem gostado dessa jornada pode ser uma boa pedida. Dei uma fuçada no livro como um todo e nos anexos ele ensina esse pão de fermentação natural. O método dele é outro, mas imagino que o resultado final seja o mesmo. A quem interessar, é possível achar o livro em quase todas as livrarias físicas e online e a versão epub do livro (pra quem já se rendeu a kobos e kindles) você acha fácil pela internet, pagando ou não. Dito isso, vamos ao diário.

Dia 4 — No alarms and no surprises

De agora em diante, todo o processo desse fermento vai ficar menos cansativo pra vocês (e pra mim) porque vamos alimentá-lo com mais frequência e mais coisas devem acontecer (se tudo der certo). Pela manhã acordei e George continuava vivo e borbulhante. Conforme os dias vão se passando o cheiro da massa fica mais forte e a mistura toda vai se tornando mais aerada. A ansiedade também aumenta. Já estou a tanto tempo cultivando esse fermento que sinto como se ele fosse uma pessoa da minha família.

Mexi na mistura três vezes no dia (é o máximo que George permite) e ao completar as 96 horas, era hora de alimentar o bicho de novo. Agora (meu bolso agradece) não precisamos mais de suco de abacaxi, só de água e de farinha integral.

É importante salientar que não podemos usar água da torneira. O seu fermento só aceitará água mineral ou filtrada. Parece frescura, mas tem uma explicação científica: a água que vem da torneira tem muito cloro e pode matar esses microorganismos todos que estão crescendo dentro do seu armário. Como não queremos isso, dei pro George três colheres de água mineral e cinco de farinha integral. A mistura vai ficar um pouco mais firme, e a partir de agora deve crescer com mais vigor.

Esse é o George. Crescendo feliz e borbulhante em sua nova casa

Troquei o George de casa, porque achei que em um vidro transparente fosse mais fácil ver a mágica acontecendo. De fato é: duas horas depois ele já estava cheio de bolhas perceptíveis. O fermento tem que ser tapado com um saquinho plástico (esse que usamos pra congelar coisas ou guardar comida) e deixado ainda dentro do armário escuro e sem trepidações (trepidações não é algo que costume acontecer no armário, a não ser que você viva em um motor-home, mas como isso é sempre instruído nas receitas que li, sigo repetindo. Vai que você mora em um motor-home?).

Amanhã daremos comida ao bicho de novo, mas antes disso devemos descartar metade dele. Nessa parte, se você for bem relacionado, você pode dividir o futuro pão com outras pessoas, mas não acho que alguém no meu círculo social mais próximo queira se aventurar em um pão de dez horas de crescimento.

Nota importante: esse processo todo faz você sentir muito especial e poderoso, afinal você está criando um fermento dentro do seu armário e vai transformar isso em comida! Esse lance todo faz com que você ache que tudo que você compra por aí você também é capaz de fazer em casa (afinal você está fazendo um fer-men-to. Quem faz um fermento?) e por conta disso amanhã resolvi que vou fazer um quindim. Trago notícias sobre o George e o quindim, sim? Espero que não estejam odiando o diário. Até amanhã.