O que eu aprendi por (tentar) ser vegetariana por quase um ano
Um relato pessoal sobre as dores, frustrações e delícias de aderir à causa animal


Começou com uma pesquisa para a monografia da faculdade em meados de abril do ano passado. Estava me formando em Direito, então, influenciada por um professor f*da com formação jurídica e, também, em Antropologia, surgiu o tema da pesquisa na orientação: o conflito entre “direito dos animais” e o sacrifício destes na questão da liberdade de culto — algumas religiões de origem afro-descendentes praticam em seus ritos.
Vejam: eu não sou, pessoalmente, a favor de sacrifício de animais. Na verdade, eu sou daquelas pessoas que torciam para os cachorros dos filmes não morrerem para não chorar. Ao mesmo tempo, bastava surgir um churrasco para eu pedir aquela carne bem sangrenta e semi-crua.
Tomei conhecimento de que a essa contradição dá-se o nome de “xenoespecismo”, ou seja: preferimos “amar” e “zelar” por somente uma espécie em detrimento de outras.
Comecei essa pesquisa sem saber muito bem onde iria parar. Comecei a me informar em portais sobre ideologia vegetariana e “vegan”. Passei a realizar entrevistas e, até com o presidente da Comissão de Direito dos Animais da OAB/RJ, cheguei a falar. Por sinal, ele mesmo é vegetariano, ativista dos Direitos dos Animais. Não bastou alguns minutos de conversa para ele olhar fundo nos meus olhos e dizer:
Carne dá câncer. O animal sabe que ele vai morrer na hora do abate. Aquilo joga uma descarga de adrenalina no corpo do animal porque ele sente para onde os seus companheiros estão indo. O ser humano ingere essa carne e, com isso, surgem as doenças.
Não sei em que momento dos meus próximos dias a partir dali passei a evitar carne. Iniciei cortando a bovina. O mais curioso é que, consigo lembrar, passei uma semana inteira antes dessa decisão comendo carne vermelha. Isso, porque eu havia ido ao supermercado e tinha comprado muitas bandejas de contra-filé sem fazer bem as contas para uma pessoa só, afinal, moro há um tempo longe da casa dos meus pais.
No outro dia, porém, eu nem mesmo consegui comer um pedaço de frango que coloquei no prato d’um self-service da Voluntários da Pátria, no Rio. Pensei com meus botões que, de repente, poderia ser o lugar que não estava fazendo a comida bem.
No dia seguinte, fui ao mesmo lugar, dar mais uma chance, e me apoiei no peixe. Era cozido, temperado e parecia estar com um bom aspecto. Contudo, coloquei uma garfada na boca e fiquei com vontade de vomitar.
Confesso que fiquei meio frustrada. Não fazia muito tempo, eu havia conversado com um amigo a quem chamo carinhosamente “Gabriel PSTU” que “só vira vegetariano quem é rico”. O que não deixou de ser verdade, porque, a partir do dia em que decidi cortar qualquer tipo de carne da minha alimentação, tanto por questões éticas quanto ambientais, tive que me deparar com empecilhos de ordem cultural, financeira e social.
O primeiro deles: perdi amizades e chances de saída (e, por quê não dizer, até de encontros amorosos). Bastou eu anunciar no Facebook que eu havia me tornado vegetariana e fazendo a devida “exposição de motivos” (com direito à aquela alteraçãozinha de status com o símbolo de maçã e os dizeres “tornou-se vegetariano”) que veio aquela chuva de comentários emocionados: “você é meu orgulho!”; “eu também estava pensando em virar vegetariano(a)”. Contudo, todas as possibilidades e convites de integração social que eu recebia semanalmente diminuíram desde então. Daí comecei a ver as pessoas com quem eu costumava sair aparecendo em fotos em churrascarias, pizzarias e, até lugares que não envolviam propriamente o ato de comer carne, sem ao menos ter tomado a atitude delicada de ter me convidado para ir também e eu, gentilmente, fazer a decisão de ir ou não.
Lembrei, então, as vezes em que, eu mesma, quando carnívora assídua julgava as minhas colegas de faculdade que não comiam carne. Debochava e ria, “alá (o “olha lá” carioca) aquele que come semente”. Não por maldade, mas talvez no afã de sentir superior de algum modo — que sei que é comum a muita gente.
Percebi que estava provando do próprio veneno de outrora. Fiquei triste, pensando que, provavelmente, haveria o mesmo tipo de julgamento em relação a mim, mas segui firme durante, pelo menos, três meses. Aboli até mesmo a comida japonesa da minha alimentação — o que eu adorava. Minha mãe ficou preocupada comigo e, bastava surgir uma gripe, para ela dizer (por telefone, uma vez que moramos longe uma da outra) que a minha imunidade havia baixado em decorrência da falta de carne na alimentação (o que nunca fez sentido para mim, pois eu ficava gripada mesmo quando carnívora né, mãe?).
O segundo problema foi a questão financeira. Por estar no final da faculdade e me preparando para o Exame de Ordem dos Advogados, decidi largar o estágio remunerado e, com isso, passei a depender totalmente do dinheiro que me era enviado por meus pais. Quando, antes, eu conseguia fazer uma alimentação “ok” no self-service por menos de vintão perto de onde eu morava, fui obrigada a procurar lugares com saladas mais fartas e variadas (e, consequentemente, mais caros). Uma coisa que me frustrou foi, um dia, ter pago cinquenta reais numa refeição que, basicamente, era mato, arroz e lentilha. A mudança na alimentação, infelizmente, não era sempre acessível ao meu bolso, embora de classe média e cozinhando em casa uma grande parte das vezes depois que parei de estagiar.
Pra quem ficou curioso: passei na prova da advocacia (e cheguei a pensar que isso foi até uma recompensa cármica do Universo por ter parado de comer animais). Mas passados três meses desde essa mudança “radical”, resolvi voltar a incluir, ao menos, peixe em minhas refeições uma vez ou outra. Isso se deu um dia em que passei em frente ao Koni (uma franquia de fast-food japonês) com uma amiga e, no que ela me disse que tinha comido dois temaki’s por uma promoção em que ela pagou só um, subiu algo de Capricórnio em mim que eu não tenho e resolvi voltar a comer para não perder a promoção.
Vez ou outra, então, eu me rendia a “comer japonês” e, ao dizer isso para a minha genitora (que, incessantemente, dizia que eu não poderia deixar de comer carne e deveria permanecer, pelo menos, com peixe), ela ficou mais tranquila: “Agora sim, igual à Angélica”, e eu ria por ela dizer que a apresentadora era vegetariana, mesmo comendo um animal que nada. Por sinal, logo depois, apareceu aquela propaganda em que a Angélica e o Luciano Huck fizeram para a Perdigão por uma proposta milionária.
Fui passar as férias de final de ano com a família no Nordeste, fiz minha mãe preparar coisas vegetarianas para mim e eu dando uma “mão” para ela (porque, olha, pense numa pessoa possessiva com negócio de cozinha!). Claro que, vez outra, pela falta de tempo, ela assava um peixe para mim e, não vou ser hipócrita de não dizer, eu gostava e não iria fazer desfeita. Mas veio o Natal e não comi o peru. Na verdade, nunca entendi bem o porquê do peru ali se isso é uma tradição do “thanksgiving” norte-americano. A minha família viu que “a parada era séria”, e não era só uma fase como dizem quando a filha vira lésbica.
Começou 2016 e, após ter comparecido a um festival de cinema pró-vegetarianismo no Museu de Arte Moderna no Rio, resolvi que iria abolir queijo e leite também. Assisti filmes que me impactaram muito naquele dia (não sei se por estar mais sensível do que de costume após um rompimento amoroso).
Aí que veio a parte difícil: se antes já era uma obra hercúlea, sair por aí e encontrar algo que fosse decente, por um bom preço e vegetariano… Imagine, vegano! Um queijo encomendado que fosse vegano e, sem ser de tofu, já era na margem de trinta/quarenta reais. Isso toda semana, bota aí na ponta do lápis…
Por questões pessoas e profissionais, acabei me mudando para a cidade de Curitiba e, no bairro que estou pelo menos, consigo contar só um restaurante vegetariano que nem experimentei ainda. Isso, porque o lugar em que moro é uma pensão que serve as refeições diariamente, estando estas já inclusas no valor do aluguel. Percebi que, ao contrário dos cariocas, as pessoas aqui não são muito ligadas em “vibe fitness” e comem, sem ligar muito, uma maionese batida em legumes, arroz branco a rodo e, sobretudo, carne. Teve uma semana que vi linguiça e lasanha a bolonhesa três vezes nas refeições das pessoas.
Foi chegar na cidade nova e caí doente. Não sei se pelo clima ou por frustrações típicas de alteração brusca de cidade, mas a minha imunidade baixou. E tive que ouvir minha genitora, quase todos os dias, insistir para eu comer um pouco da carne que já serviam aqui e eu pagava por isso.
Rendi-me. Por incrível que pareça, não senti prazer nenhum. Mesmo após longo meses evitando a carne vermelha, parece que meu corpo entendeu que, eu simplesmente, não precisava daquilo. Eu já tinha uma alimentação farta, variada, com os devidos carboidratos, proteínas, açúcares e vitaminas. Tanto que fiz check-up’s semestrais e, em nenhum deles, tanto no final de 2015, quanto no começo desse ano, denunciaram alguma deficiência em exames de sangue e constatações médicas — o que me fez rir foi um dos médicos perguntar se, ao menos, havia perdido peso com a alteração do cardápio, como se, por ser gorda, eu só tivesse optado por mais uma dieta da moda para emagrecer. Não, na verdade, ganhei mais um quilinhos e, isso, explicou-me uma nutricionista depois, deve-se ao fato dos recém-vegetarianos aumentarem a quantidade de carboidratos no prato com a falta de carne. Portanto, se esse meu texto te convenceu de algum modo a alterar seus hábitos alimentares, não hesite em consultar um nutricionista antes, para não perder a mão na alimentação como aconteceu comigo. Eu consultei, mas confesso que relaxei um pouco depois da dieta que me foi passada, mas aí já é outro assunto.
Conclusão: depois de passar uns dias se rendendo à carne, por desencargo de consciência e por não quebrar a sábia máxima de desobedecer conselho de mãe e dar alguma m*rda, só estou comendo carne quando inevitável — o dinheiro não ‘tá dando pra comprar ou preparar algo veggie? Ok, então vou comer carne. Não vai ser com o maior prazer do mundo, mas por uma questão de necessidade. Laticínios, também voltei a consumir.
Não é minha intenção desanimar ou decepcionar alguém em relação à onda vegetariana/vegana. Tratei de ser fiel em relação às minhas constatações após quase um ano sendo (ou tentando ser) vegetariana num país em que, tanto culturalmente, quanto financeiramente, ainda não permite que seus cidadãos se conscientizem e se tornem mais pró-questão ambiental. Para nós, ainda é muito prático ou “pra evitar a fadiga” não ser coagido a separar o lixo orgânico do lixo plástico; ou a comer mais vegetais e leguminosas em vez do famoso “P.F. de pedreiro” constituído pelo “prato brasileiro” que é igual a arroz + feijão + dois pedações de proteína + batatas fritas; ou a lavar calçada com baldes d’água em vez da mangueira.
Não que os sinais consequentes de atitudes irresponsáveis não estejam aí pra gente ver. Crise hídrica em São Paulo no ano passado que o diga. Chegou até em Hollywood, com Leo DiCaprio (esse lindo que, por sinal, é vegano e foi obrigado a comer a parte de um bisão pra ganhar o Oscar) dizendo que as gravações do filme “O Regresso” foram atrapalhadas por questões climáticas e nos alertando para o derretimento das calotas polares. “Não é histeria”, pronunciou-se ele.


Algum dia, como aconteceu comigo, vocês vão ter que parar de menosprezar aqueles que “fazem a diferença” de alguma forma e ver que suas existências podem tentar ser, ao menos, menos medíocres. Agora me diz, o que você pode fazer por hoje para melhorar o mundo? Tente nem que não seja por dez meses, mas incluir o “segunda sem carne” e não fazer chacota da amiga que leva a marmita com comida vegetariana para o trabalho, acredite, já vai fazer uma p*ta diferença!
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