Rotina de cada manhã
quase um conto, quase autobiográfico, quase verdadeiro, quase o que fantasio
Ele sentiu-se despertar, mas não parecia haver passado mais que alguns poucos minutos desde que tinha se deitado e fechado os olhos. Tinha a exata impressão de que acabara de se deitar, mas estranhamente se sentia completamente descansado, como se houvesse estado dormindo por muitas horas — muito mais que o habitual.
Esse pensamento repentino, de que podia ter dormido demais e não ter acordado com o toque do despertador — sempre cuidadosamente programado para dez minutos após a hora que costumava acordar naturalmente — o fez abrir os olhos, mas não de forma sobressaltada pois não imaginava que haviam se passado mais que alguns poucos minutos de que tinha se deitado e fechado os olhos.
Ao abrir os olhos, notou que ainda era noite do lado de fora e não haviam sinais de que o dia estaria começando, algo comum para hora rotineira de acordar nessa época do ano.
Ainda se sentia estranhamente descansado e resolveu tatear — a pouca luz não o permitia enxergar direito — a lateral da cama a procura do telefone celular — seu sempre fiel despertador — que era deixado, todas as noites, ao lado da cama, em modo avião, programado para não perturbar até a hora do próximo alarme e, sempre, programado para dez minutos após a hora que costumava acordar naturalmente.
Encontrou o celular com relativa facilidade — colocar sempre no mesmo local deixa o corpo familiarizado com a posição — e acionou o botão para acender a tela e poder ver a hora. Tinha certeza que haviam passado, apenas, alguns poucos minutos desde a hora que se deitou e fechou os olhos.
A iluminação da tela do seu celular, ao ser acionada, fez com que seus olhos parecessem arder e os fechou. Abriu lentamente os olhos, enxergando mal, demorou um pouco a se acostumar e conseguir focar a tela para ver as horas.
Finalmente, seus olhos conseguiram se adaptar a luz e a distância — a mesma distância que ele sempre conseguia ver a tela quando lia mensagens. Viu a hora, ficou reflexivo e a tela se apagou de forma automática. Acionou o botão para ativar a tela novamente e confirmou a hora.
Faltavam apenas dois minutos para a hora programada — 5 horas e 35 minutos da manhã — em que costumava acordar dez minutos antes.
Rapidamente — o primeiro movimento rápido que fez essa manhã — desbloqueou a tela do celular, desativou o alarme programado — agora o alarme só seria acionado novamente no próximo dia — e voltou a ficar reflexivo.
Lentamente, pensando no que poderia ter acontecido, virou o corpo para o lado de sair da cama — mesmo que não costumasse sair pela lateral — e se apoiou para se sentar. Sentou-se e fez um movimento lento para sair da cama. Levantou de forma rápida — o segundo movimento rápido que fez essa manhã — e silenciosa. Sempre fazia silêncio, mesmo que estivesse sozinho em casa.
Já de pé, se dirigiu para a porta do quarto, abriu a porta, apagou a luz do corredor — havia sido deixada acessa — quase que tentando evitar que a luz entrasse pela fresta da porta, terminou de abrir a porta, saiu do quarto e fechou a porta com cuidado.
Ainda estava intrigado com a sensação de estar descansado como se tivesse dormido muitas horas. Ainda estava na sua mente a sensação vívida de que havia acabado de se deitar e fechar os olhos.
Se percebeu parado no corredor a caminho da sala e acionou a iluminação da tela do celular, novamente, para confirmar as horas.
Já se passavam 3 minutos de que tinha olhado as horas.
Sim, ele tinha acordado apenas 7 ou 8 minutos depois da hora que rotineiramente acordava (os 10 minutos antes da hora programada no despertador do celular que ficava ao lado da cama sempre na mesma posição) e, aparentemente, esses 7 minutos a mais tinham feito toda a diferença de estar se sentindo descansado como não havia se sentido em nenhum dos dias — muitos dias — anteriores.
Ainda parado no corredor que leva para a sala, pensou em quanto tempo fazia que não tinha uma noite que trouxesse tanto descanso. Não conseguia se lembrar, era comum que acordasse cansado e só se sentisse revigorado depois de tomar sua água, ir ao banheiro para urinar e se lavar, sentar no sofá da sala, fazer sua meditação, se levantar e se dirigir a cozinha para preparar seu café.
Só ali, na cozinha, preparando o café é que começava a sentir que tinha terminado a sua noite. Se sentia descansado e pronto para começar o dia.
O primeiro café a ser tomado pela manhã, feito com café solúvel pois não tinha vontade de usar pó de café e filtro na cafeteira e preparar café somente para ele. Havia muito tempo que o primeiro café ao amanhecer era feito com café solúvel. Esse primeiro café também, fazia muito tempo, era o único do dia — tomava café várias vezes ao dia — em que colocava açúcar.
Não usava açúcar em nenhum outro momento do dia, somente no primeiro copo de café pela manhã. Como gostava do sabor, usava açúcar mascavo para esse primeiro copo de café.
Esse primeiro café poderia ser tomado puro, mas era acompanhado com pão com algum queijo. O pão, sempre de forma integral, era frio. Sempre pensava que podia aquecer o pão na tostadeira elétrica ou usando uma frigideira no fogão, mas nunca o fazia.
Quando havia alguma fruta na geladeira, se ele tivesse comprado, comia alguma fruta também.
Depois disso, voltava ao banheiro para escovar os dentes e voltava para a cozinha para tomar mais água e lavar a louça, se o escorredor de pratos estivesse vazio ou tivesse espaço para colocar a louça.
Finalmente, estava preparado para seu início de dia.