Mapa do metrô de Tóquio

Ada

Tudo doía.

Ada tinha seus olhos castanhos perdidos nalgum horizonte entre seus all-stars 34 e as pernas dentro da calça de algodão amarela do moço. Não conseguia levantar a cabeça sem não levantar junto seus olhos e estava tomada de medo, uma cumbuca de água fria que ia sendo derramada morosamente a partir da sua nuca e descia num fio viscoso até molhar suas calcinhas.

Ada só queria poder dizer isso ao moço, que tudo doía, sempre. Como faz pra parar de doer, Ada iria perguntar. Dói também em você?

O moço lia um romance dum autor brasileiro, mas não estava gostando tanto assim. Chamava-se Takeo e sua família descendia de Okinawa. Era oriental e tinha a pele morena, quase um ameríndio, mas o seu tom não era tão cremoso, havia algo de seco e frio. Não havia notado a pessoa que estava sentada no banco de fronte ao seu no metrô até cansar do livro, onde o autor em quatro páginas já havia levado pra cama cinco mulheres (uma nem precisou de cama, fizeram no banheiro da casa dos pais dela).

Foi um pouco surpreendente para ambos quando se viram nus ainda naquela noite, dentro de um quarto de motel que eles nem sabiam existir quando acordaram mais cedo. Ada teve medo de Takeo mas ela perdeu sua estação quando ele tinha olhado para seu rosto e percebeu que não doía mais, não doía quando ele olhava. Sorriu. Takeo beijou e chupou seus peitos com especial afeto ao mamilo esquerdo onde ela havia posto uma argola. Ada fechava seus olhos e pensava no pau daquele homem, o pau também com a cor de uma terra há muito deserta.

Ada gostava de passear pela cidade quando o sol se punha e de vez em quando cabulava as aulas do curso de francês para pegar o metrô e descer numa estação que ainda não tinha conhecido. Ela entrava em mercados de bairro para ficar olhando as frutas a venda, olhar as pessoas pagando no caixa, olhar as crianças pedindo doces que seus pais não compravam. Quando caminhava por essas ruas cujo nome desconhecia parecia estar noutro país e ser outra pessoa, esquecia que se chamava Ada e que doía.

O moço teve um pouco de vergonha quando os dois entraram no quarto e ela pediu pra ele não apagar as luzes. Ouviu Ada dizer que gostava de ver seus olhos e de como ele era moreno, disse que ele parecia bonito feito um grão de café torrado. Não ouviu Ada dizer que queria olhar pro pau dele e que adorava olhar para os paus dos homens pra quem ela dava, mesmo que estivessem murchos, porque Ada gostava em segredo. Takeo não gostava do pênis que carregava entre as pernas, nunca havia conseguido entender como ele havia parado ali, não parecia o corpo dele. Não entendia como as mulheres deixavam que ele as penetrasse.

Os dois se beijaram exatos quarenta minutos depois de trocarem aquele primeiro olhar, trinta e nove minutos após começarem a conversar, meia hora após decidirem descer numa estação para tomar um café ou um chopp, dezesseis minutos após desistir do café ou do chopp e sentarem numa praça, um minuto após ela dizer que não aguentava mais não beijar a boca do moço. Aí se beijaram feito adolescentes, muita língua e saliva e surpresa e mistério e pressa e medo e fuga.

O moço não tinha como saber que o medo de Ada era o tanto de homens que haviam. A dor era lembrar do padrasto pedindo pra ela fazer silêncio noite após noite, noite após noite, noite após noite, enquanto a sua mãe passava duas horas na natação. Uma noite o professor faltou e mãe encontrou o padrasto pedindo silêncio. Quebrou uma cadeira nas costas do homem apenas para começar. Arrastou o homem para fora de casa aos gritos, a vizinhança ouviu e logo juntaram cinco, seis pais que moravam ali. Terminaram de moê-lo de pancada até que a polícia chegasse. A mãe de Ada não foi presa, mas o padrasto também não. Em Ada, tudo doía.

Ada tentou a cocaína. Um casamento. Curso de francês. Viajar para a Itália. Análise freudiana. Triatlon. Um dia descobriu o metrô. A dor voltaria quando ela se despedisse de Takeo na mesma estação de metrô onde decidiram saltar três horas antes. Mas agora ela sabia que ele existia. Agora ela podia tentar aquele homem e ver se ao menos não iria doer tanto.

Takeo sentiu que ia gozar e não quis. Queria que durasse mais tempo porque dentro dela estava tão bom, Ada pedia que ele fosse inteiro e agora pedia até mais. Meu amorzinho, meu grão de café, ela ficou dizendo abraçada nele depois de tudo, não sai ainda, fica dentro de mim, meu amorzinho. Ele nunca poderia imaginar que o amor fosse aquilo.

No entanto, era.

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