#53 — Não deixe o Cerrado morrer

Thais Goldkorn
Nov 5 · 7 min read

Um dia a toa pela Netflix resolvi assistir o documentário Ser Tão Velho Cerrado, de Andre D’Elia. Fiquei tão mexida com tudo aquilo, com a situação de devastação, queimadas, jogo político. Mas ao mesmo tempo encantada com a importância e beleza daquele bioma e presa a um fio de esperança com as resistências da comunidade e projetos. Juntamos tudo isso e resolvemos ir pra lá ver de perto!

Foto tirada em Alto Paraíso do Góias

Babi foi criada no cerrado, em Brasília, e eu nunca tinha ido pra Chapada dos Veadeiros, então decidimos que era lá mesmo. Tanta beleza natural, as cachoeiras, a vegetação, os frutos, a Chapada é patrimônio brasileiro, e estar lá só aumenta nosso orgulho e paixão em ver que existe um lugar tão maravilhoso assim no centro do nosso país.

Aproveitando as belezas da Chapada, Cachoeira dos Cristais | Foto: Vitor Ávila.

Claro que um lugar tão maravilhoso assim desperta interesses, madeireiras, mineradoras, indústrias e principalmente, o agronegócio.

As queimadas são velhas conhecidas da região. Em outubro de 2017, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, sofreu o maior incêndio de sua história. Foram queimados 65 mil hectares de terra, cerca de 25% da área total da reserva, o equivalente a metade da cidade do Rio de Janeiro. E agora elas voltam a ameaçar a região. Os proprios moradores se organizam pra tentar combater o fogo. Como contou nossa amiga, Sita Beatriz, que mora na Chapada há 5 anos.

A importância do Cerrado não é só por sua beleza e magnitude. O Cerrado, conhecido como a savana brasileira, é o segundo maior bioma da América do Sul e ocupa área de mais de dois milhões de hectares. Sua área contínua incide sobre os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piaui, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além de encraves no Amapá, Roraima e Amazonas. Pois é, vocês sabiam que tem Cerrado em São Paulo? É no Cerrado que nascem as principais bacias hidrográficas do continente sul americano. Nele ocorrem as mais ricas diversidades de flora e fauna.

Cerca de 80% do Cerrado já foi modificado pelo homem por causa da expansão agropecuária, urbana e construção de estradas — aproximadamente 40% conserva parcialmente suas características iniciais e outros 40% já as perderam totalmente. Somente 19,15% corresponde a áreas nas quais a vegetação original ainda está em bom estado.

As queimadas, velhas conhecidas da Chapada | Foto: Vitor Ávila

Um embate político que estamos vivendo nesse momento são projetos de construção de hidrelétricas (PCH´s) na região da Chapada dos Veadeiros. Os projetos somam R$ 1 bilhão, sendo que uma delas, a PCH Santa Mônica, seria instalada no Rio das Almas, em território do Kalunga, e outras seis no Tocantinzinho, que ameaçam destruir áreas de preservação e turismo locais. O detalhe é que um dos projetos vem do do grupo Rialma, criado por um tio do governador de Góias Ronaldo Caiado, o ex-deputado federal e ex-senador Emival Ramos Caiado. Vai vendo!

Falamos em Kalunga, falamos em resistência, eles são a maior comunidade de remanescentes quilombolas do Brasil, onde vivem mais de 6 mil pessoas na região de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, no nordeste goiano. Esse povo vê a terra como território sagrado e são os verdadeiros guardiões da natureza.

Tivemos o prazer de nos encontrar com uma mulher que é o sinônimo da resistência. Dona Flor tem 81 anos de força e sabedoria. Quilombola, parteira, raizera, professora de seus saberes ancestrais. Ela já acompanhou 333 partos durante sua trajetória como parteira e hoje passa esse conhecimento com rodas com gestantes, oficinas, cursos, inclusive da formação de doulas e parteiras. Uma honra e um privilégio enorme conhece-la e levar varias broncas dela.

Nós com a Dona Flor na sua lojinha em Moinho

Também pensando que uma das formas de resistir é se voltando pra terra e resgatando os saberes tradicionais conhecemos o trabalho do Cerrado de Pé, uma associação de coletores de sementes nativas do Cerrado. Um trabalho lindo que une a recuperação da vegetação do Cerrado, gera renda para 80 famílias, do Assentamento Silvio Rodrigues, Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Comunidades do Território Quilombola Kalunga do Engenho, Vão de Almas e Vão do Moleque, entre outras. Vale a pena conhecer!

Esse resgate das sementes, passa também pela valorização dos alimentos típicos do Cerrado. Conversamos com Ana Paula, do Buriti Zen, um restaurante vegano em Brasília, que tem como objetivo valorizar os alimentos orgânicos e os ingredientes do Cerrado.

Conhecemos o grupo de mulheres do Assentamento Silvio Rodrigues, na Feira de Orgânicos de Alto Paraíso do Góias. Essas feiras acontecem de terça, sábado e domingo no centro da cidade e são uma ótima forma de conectar as agricultoras com a cidade. A feira é ótima, com vegetais, pães, ervas, até bolo e salgado vegano tinha. Se você for passear por lá vale a pena passar na feirinha.

A nossa guia em Alto Paraíso foi nossa amiga, ativista, cantora, professora de Yoga, Sita Beatriz. Ela, junto com seu companheiro Gui Cavalcanti, estão a frente do projeto Casa Jubarte, que está em bioconstrução desde 2017. Fomos conhecer a casa e a única coisa ruim é que não deu pra ficar lá pra sempre. Que lugar!!! A ideia é inaugurar a casa ainda esse ano, pra receber cursos, vivências, retiros. Gente que sonho! E que energia esse casal! Saímos ainda mais apaixonados por eles e pela Jubarte.

Bioconstrução da Casa Jubarte — Chapada dos Veadeiros

Tem tanto pra falar do Cerrado, tem tanta gente pra ouvir, tanta luta pra lutar. Esse foi um primeiro episódio sobre ele, mas com certeza teremos mais. Conta pra gente se vocês gostaram desse tema e se podemos explorar mais!

Por enquanto deixamos vocês com esses links pra conhecer mais cada projeto e também cada ameaça. O Cerrado é parte vital nossa e estamos junto dos guardiões do bioma.

Obrigada, nos ajude a fazer o Outras Mamas acontecer, quem sabe investindo em mais viagens assim, podendo entrevistar pessoas, visitar projetos:

Ah, e ajudem na pesquisa desse ano da ABPod pra mapear o perfil de ouvintes de podcast no Brasil. Vamos mostrar que tem mulher ouvindo podcast, vamos mostrar que tem feminismo, que tem política, que tem veganismo. Que nem só de homens falando de cultura pop e games vive a podosfera:

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Thais Goldkorn

Written by

Ativista vegana. Feminista. Canceriana @thaisgoldkorn @outrasmamaspodcast

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