A indústria de fórmulas mágicas

Em 2011 Ryan Reynolds foi o ator mais avacalhado do mundo dos quadrinhos (depois do Demolidor do Affleck) ao encarnar o Lanterna Verde. Em 2016, contra todos os prognósticos, Deadpool estreou com +$150MM de faturamento só nos EUA. Com o mesmo Ryan. Imediatamente surgiu a galera do “eu já sabia” e diversos especialistas começaram a apontar “a fórmula mágica do sucesso de Deadpool nos cinemas”.

Uma das regras não escritas do mundo moderno é que especialistas tem que ter opinião. Pra tudo. E na hora. Ponto. Aparentemente eles não o direito de dizer “não sei” ou “ainda precisamos investigar antes de dar um parecer definitivo”. Parece que quem pensa antes de falar é inseguro, não sabe nada e vai procurar no Google as respostas. Logo, se cara ganha dinheiro dando opinião (vida fácil!) precisa olhar para as cameras e falar com toda a convicção do mundo a melhor coisa que lhe vier a cabeça no momento e esperar os aplausos. E qual o problema disso? Bom, o ‘afegão médio’ acredita cegamente nesse cara. E MUITAS vezes ele está errado. E em um número mais alto do que deveria, ele (o especialista) não faz ideia do que está falando. E… bom, tem uns que são tão perdidos que nem sabem que estão falando merda (o que é o ‘crime’ mais grave de todos).

No início desta semana assim que os números do fim de semana do herói fanfarrão (no melhor sentido, por favor) fecharam, o Deadline Hollywood postou uma declaração atribuída a um “figurão” em Hollywood como explicação do sucesso da produção da Fox:

“O filme tem um tom auto-depreciativo desenfreado. Isso nunca foi feito antes. Ele faz piada da Marvel. Essa marca que se leva tão a sério, você pode imagina-los fazendo graça de si mesmos? Eles prefeririam se esfaquear.”

O diretor James Gunn escreveu um post em sua página no facebook [clique aqui pra ler o post original em inglês] sobre a matéria, essa declaração e em específico sobre a mania de gerar fórmulas a partir de análises precipitadas para criar produtos completamente equivocados. Eis um trecho:

“Essa frase deve ter sido dita pela porra do executivo mais burro da história dos executivos burros de Hollywood.
Vamos ignorar Guardiões por um momento, um filme que sobrevive a cada momento se exaltando pra logo se colocar pra baixo — Deus sabe que eu tenho preconceito com esse filme . O que diabos Favreau e Downey Jr fizeram em Homem de Ferro? E que diabos foi Homem Formiga?!?
Pera aí, Deadline”

Eu concordo!! Mas não acredite me mim… ainda. James tem a seu favor o fato de ser o diretor de Guardiões da Galáxia, estar produzindo a sequência e poder dizer que já esteve sentado nessa mesma cadeira: blockbuster sensacional que explodiu as bilheterias quando ninguém esperava e gerou a busca imediata pela fórmula mágica que todos queriam copiar. Mas a opinião dele (que reconhece o valor extraordinário do filme ao mesmo tempo em que percebe o quão rasas estão todas as análises) é que me dá vontade de dar um abraço nele. Tudo o que foi apontado como motivo do sucesso tá longe de ser inédito. O filme fez sucesso porque foi fiel ao personagem, foi bem feito, bem escrito, bem executado e bem suportado com uma boa campanha de marketing. O filme deu certo porque tem alma, porque as pessoas se dedicaram com força a fazer aquilo dar certo e, claro, tem um mega estúdio por trás pra ajudar na divulgação. Só que essa resposta não encontra eco porque essa resposta não vende. Como se replica um filme com alma, meus amigos?

Vale dizer que a busca pela fórmula sagrada não é exclusividade da industria do cinema. Toda ‘indústria’ de massa quer vender mais, cobrando mais caro a um custo unitário menor. Todos querem faturar mais e surfar na onda do momento é uma forma fácil de 1. ganhar dinheiro com modelos ‘seguros’ pra quem produz e 2. mostrar conhecimento de causa pra quem vende conhecimento e atrair mais clientes, virar referência sendo uma marca conhecida, etc.. Comentaristas de futebol adoram. Basta ver quantas teorias lindas surgiram depois da Copa de 2014. Comentaristas de economia, idem. Gravadoras lançaram hordas de grupos de rock, axé, forró, sertanejo ou seja lá o que estivesse bombando no momento. Todo mundo adora dinheiro ‘fácil’.

Aí você chega ao fim desse texto e me pergunta: tá, não tem fórmula então como eu faço pra criar o próximo blockbuster no cinema? Eu diria que não dá pra afirmar que o filme-denso-estilo-Nolan está fadado ao fracasso, nem que o estilo galhofa-Deadpool vai ser o que todos querem. Minha sugestão de especialista é: faça o melhor filme que você puder e seja fiel a ele. ❤


Originally published at outroassunto.com on February 19, 2016.

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